27.4.08

Camburi, São Paulo, Brasil.

Camburi é um vilarejo à beira mar, no litoral-norte do Estado de São Paulo, um local que não consta dos roteiros turísticos das agências de viagens. E é pena, digo eu, enquanto quem vive nesse imenso Estado brasileiro dirá ainda bem. O carro estaciona-se no meio de um denso arvoredo, e onde não se vê uma alminha, com os faróis apontandos para um enorme pórtico onde começa aquilo que se adivinha ser um trilho feito de tábuas erguidas sobre a vegetação. Os espíritos mais agitados encontram uma momentânea e breve tranquilidade nos outros carros estacionados. Começamos uma caminhada entre a luxuriante vegetação, com os archotes espaçados a preceito iluminando-nos os passos e indicando-nos o caminho. Primeiro ouvimos o silêncio aqui e ali interrompido pelas boas vindas que a pequena bicharada se encarrega de nos dar. À medida que avançamos, o silêncio vai-se calando para dar lugar a um chill out melodioso, em ritmo de bossa nova, até avistarmos as luzes que nos confirmam estarmos a chegar ao Manacá. Adensa-se a expectativa. Somos recebidos com um sorriso e acompanhados a uma das mesas do lounge. Sentamo-nos no enorme sofá que nos acolhe, ainda incrédulos. A generosa mata tropical continua ali, ao nosso lado, e a música, agora mais audível continua a embalar-nos. O Manacá não tem portas nem janelas, entregando-se à natureza com a mais pura naturalidade, abrindo caminho, sinuosamente, por entre as árvores e arbustos como se tivesse nascido ali, parecendo pairar com uma leveza admirável. Minto. Eu esforcei-me e encontrei três portas, as dos lavabos e a do escritório. Mas janelas, nem uma. Seguimos a sugestão e iniciámos as hostilidades com caipirinhas, e eram muitas à escolha, dos mais variados sabores tropicais. Para jantar, nada como dar ouvidos à recomendação do chef e apenas me lembro de ter comido carne. E jamais me esquecerei da agradável supresa que me estava reservada quando, ao encaminhar-me para a mesa, resolvi fazer um desvio para olhar de perto para a enorme garrrafeira do restaurante. É normal encontrar, por aquelas paragens e nos bons restaurantes, vinho francês, chileno, australiano ou californiano. Na garrafeira juntava-se a eles vinho português. Cartuxa, Sogrape, Esporão, Mouchão, Barca Velha e outros que não me recordo. Senti-me definitivamente conquistado. O jantar foi soberbo. Num restaurante impossível de narrar e onde nos sentimos hóspedes, não clientes, tratados principescamente. Até onde a minha memória me consegue levar, mesmo correndo o risco de cometer uma injustiça a mim próprio, creio que o Manacá foi, e é, um dos melhores restaurantes onde estive. Talvez por isso tivesse lá voltado mais vezes, sempre que o fim-de-semana era passado nesse magnífico litoral-norte paulistano.

6 comentários:

av disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
av disse...

Pois é... eu disse que as viagens são uma perdição para mim, não foi? Ora bem: a boa cozinha é outra. Juntando as duas, torno-me potencialmente perigosa quanto a capacidade de resistência. E estes seus posts estão a fazer-me chegar a esse estado. Vou atirar-me aos mapas e pensar em férias!
;)

Mike disse...

Então AV, não lhe resta outra alternativa. Atire-se aos mapas e pense nas férias (risos). Eu gosto muito de viajar e na minha vida já viajei muito (hoje menos), e por onde passo, uma das coisas que não dispenso e procuro é boa cozinha. Como escrever me dá prazer e normalmente escrevemos sobre as nossas experiências... ;)

av disse...

Pois continue a escrever, que nos faz água na boca. E não só em termos gastronómicos, usando uma expressão sua. A sua África ainda há-de tornar-se uma "África minha"...

Falando a sério, não conheço nada da África sub-sahariana, e tenho uma enorme vontade de lá ir. Antes ainda está a Índia, a viagem da minha vida. E essa será ainda este ano.
Pensar nisso já é um prazer!

Mike disse...

Índia... ora aí está um país que não conheço. Há uns anos atrás dir-lhe-ia que não sentia inveja da sua viagem. Hoje não estou tão certo disso.

av disse...

Eu sei, a Índia não é para todos os estômagos. Mas não podemos ir para lá com os nossos olhos ocidentais, ou acharemos tudo aquilo insuportável. É preciso vê-la como eles a vêm, senti-la como eles a sentem, e então tudo começa a fazer algum sentido. A Índia é um dos berços do mundo, tem um mistério que me atrai imenso. De alguma maneira, sei que vou encontrar lá uma parte de mim que nem conheço ainda...

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