3.12.07

Às obras dela vou chamar-lhes minhas.

Consta que existem duas lendas. A mais romântica é a versão popular que mete um cristão novo ao barulho, um tal Simão Pires... ao barulho não, em silêncio que se encontrava todos os dias às escondidas com uma dita Violante, uma jovem que tinha sido feita noviça à força e por vontade de seu pai, um fidalgo que não estava pelos ajustes com a escolha do amor da filha. A história acaba como tantas outras que metem amores e desamores à mistura, ou seja, acaba mal. Os jovens prepararam-se para fugir, a fuga não se concretiza e ele é acusado do roubo de umas relíquias da igreja de Santa Engrácia, que ficava perto do convento. Mas se dúvidas houvera que o Simão amava mesmo a sua Violante, elas dissiparam-se no momento em que ele, para não prejudicar a sua amada, jamais revelou o motivo que o levara às redondezas. Invocou a sua inocência mas não lhe serviu de nada e acabou na fogueira, o desgraçado. Fogueira que foi ateada junto à nova igreja de Santa Engrácia, mandada construir pela infanta D. Maria, filha de D. Manuel I, e que mais tarde daria lugar ao Panteão Nacional (esta parte não é lenda) e cujas as obras já tinham começado. Anos mais tarde Violante foi chamada ao leito de um vilão agonizante que lhe confessou ter sido ele o ladrão das relíquias. Se o seu pecado foi expiado, nunca se saberá, que dei voltas e voltas e não encontrei nenhuma santa com o nome de Engrácia, mas apenas uma freguesia em Lisboa, ai isso dei, e nas voltas que dei fiquei a saber que foi o pobre do Simão, quando as labaredas lhe envolviam o corpo, que deu início aos dizeres que a voz do povo imortalizou. “Era tão certo morrer inocente como as obras nunca mais acabarem!”, gritou ele, calculo eu, já chamuscado. Praga ou não, a verdade é que as obras da igreja pareciam nunca mais ter fim. Pareciam mas tiveram. Acredito que o mesmo venha a suceder com as obras do Desconversa que agoram dão início.

2.12.07

A Árvore do nosso Natal.

Parte do dia de Sábado estava já destinada. Iríamos fazer a Árvore de Natal, logo eu que nem sou fã, por razões que a razão conhece... iríamos, eu e os mais novos, que os mais velhos não estavam, nem estiveram, para aí virados. Era a terceira Árvore da Natal que contava com a colaboração dos mais novos, depois da dos avós e da de casa da mãe. Só conheço esta última e asseguro que está um primor. Branca, bonita, chic, a condizer com o resto da sala, enfim, de um bom gosto irrepreensível. Lá metemos mãos à obra... num montar a Árvore (que é artificial), separar as luzes, que estavam num emaranhado medonho, escolher os efeitos e pendurá-los (todos os anos se partem alguns e este Sábado a regra manteve-se... ai caçula, caçula)... Por fim, Árvore de Natal pronta, arrisco-me a dizer, sala pronta. A alegria nas caras dos petizes contrastava com o nariz franzido do irmão mais velho e o sobrolho arqueado da irmã mais velha... como os percebo, mas engoliram e sorriram, sem contudo pedirem por mais, que estas coisas do Natal já não são para eles. Está bonito o nosso Natal, não está mano? atira o caçula muito feliz e em tom cúmplice, ao irmão, que lhe responde que sim que está lindíssimo, enquanto se encaminha ensonado para a casa de banho, rangendo entre dentes (sim, que eu ouvi)... Natal, humprf, mais parece o Carnaval... A resposta do mais velho deixou o caçula ainda mais animado e confiante e vai daí arremessa inocentemente, eu achei sem piedade, pai, a nossa Árvore está muito bonita, está igual à dos avós. Pimba, conhecendo eu a Árvore da outra casa deles, fiquei sem saber o que pensar... para além de ir a correr para o espelho e ver se naquela manhã estava com ar de avô... Depois, bem... depois pensei, que raio, o objectivo não era fazer uma Árvore de Natal que eles, os mais novos, achassem bonita? e decorarem a sala com o mesmo propósito? Então pronto! Eu acho tudo um bocado piroso, mas o que é que isso interessa comparado com a alegria dos petizes? Que a sala ficou mais... como dizer?... alegre... ai isso ficou.

30.11.07

África XX. E o sol vai pôr-se...

... vai pôr-se sem eu próprio saber quando se erguerá. Foram vinte retratos de África, onde estão as minha raízes. Um desafio lançado por uma senhora, a quem estou grato, que nunca lá esteve mas que sonha um dia conhecer... quem sabe um dia esse sonho não é realizado... Fez-me bem revivê-la em pedaços contados e outros pedaços apenas imaginados e vividos em silêncio, pedaços que, confesso, a escrita, pelo menos a minha, jamais conseguiria retratar. É que isto de há mais de 30 anos não saber o que é ir à terra, tem que se lhe diga e as raízes são um bocado como o amor... que não se vê, não se sente (risos). Escolhi o sol a pôr-se porque gosto do pôr do sol. Gosto mais dele na solidão da imensa savana, lá nos longínquos planaltos africanos onde, nesse breve momento do dia, o azul plácido do céu dá lugar ao vermelho marcado pelo fogo. Mas como o mar, aquele mar de lá onde a linha do horizonte permanece imaginária, teima em permanecer na minha memória, num sentir perpétuo, desta vez o sol põe-se no mar, num daqueles dias africanos em que o céu muda de cor.

29.11.07

África XIX. Sombra à beira-mar?

Em África a sombra é um bem precioso. Ah, bem sei, aqui também, ou em qualquer outro local onde e quando o sol se faz sentir com mais intensidade. Acreditem que lá, intensidade era coisa que não faltava ao sol, por isso esse bem tinha mais valor. Tinha, por vezes, o valor de vidas e não porque alguém, mais incauto, não se precavera fazendo uso do chapéu amigo ou da sombrinha companheira. Na tropa, contaram-me os veteranos de guerra, que a sombra matava... onde é que o senhor tenente acha que eles colocavam as minas anti-pessoais? debaixo dos imbondeiros (uma árvore enorme, solitária e rude que há quem diga serem precisos dez homens de mãos dadas para a tornear), que era para onde nós corríamos depois de quilómetros a pé e ao sol. Felizmente não conheci essas sombras malditas. Só conheci e só me lembro das sombras amigas, das protectoras. Das sombras que a natureza africana era pródiga em surpreender-nos, em dar-se a nós sem limites, nos locais mais inesperados. Como essa aí ao lado, onde a casourina, ali num lugar inimaginável, parece dizer-nos anda, podes vir aqui para ao pé do mar que a minha sombra te protege. Até dá para imaginar a mãe a dizer ao filho, vai para a beira-mar meu filho, vai para a sombra. Nunca disse isso a um dos meus. E nunca mais vi uma sombra assim.

África XVIII. Eu tive sorte.

Os meus pais são da geração da menina dos cinco olhos, mas eu, felizmente, já não conheci essa menina que, só de a imaginar com cinco olhos, qual alien chegado do espaço em movimentos contínuos, num vai-e-vem impiedoso sobre as nossas pobres palminhas e deixando as mãos marcadas durante dois dias, até me arrepio. Eu tive sorte. Sou da geração da reguada e dos puxões de orelhas e esses, as marcas que deixavam não duravam mais que um par de horas (as marcas visíveis, claro). Reguada ou puxão de orelhas eram a consequência habitual e esperada para erros imperdoáveis ou comportamentos inadequados. Punições sem surpresa para os preguiçosos, mal comportados ou teimosos. Os meus filhos estranham e divertem-se deliciando-se com essas histórias de reguadas e puxões de orelhas (mas puxavam mesmo a orelha pai?), histórias que necessitaram do aval da avó para passarem a credíveis. Eles são da geração do diálogo... apesar de, devo confessar, ser apologista e praticante, da pedagogia activa. É raro, mas às vezes os calções do mais novo ficam com pó acumulado e convém sacudi-lo. Bom, mas ainda bem que eles são da geração do diálogo, e quer se queira, quer não, vivem a escola de uma maneira diferente da que eu vivi, principalmente na primária. Não vou tocar na competência dos docentes do meu tempo Vs os actuais; não vou aflorar a dedicação dos professores do meu tempo Vs os de hoje; não vou sequer mencionar a palavra vocação... raios, já mencionei... vou ficar-me apenas pelo viver a escola. A memória que guardo, onde entram as ditas reguadas e puxões de orelhas, a maior parte deles, diz-me ela, justos, é a da vida ao ar livre, das janelas das salas de aula abertas, os recreios solarengos, a escola ampla, arejada e cuidada, o regresso a casa a pé onde havia sempre tempo para um mergulho no mar (nem sei como nunca lá ficou nenhum, que nós éramos todos uns miúdos da primária), num caminhar jogando à bola na estrada, fugindo que nem loucos quando um carro se aproximava. Guardo boas memórias da escola, com reguadas e puxões de orelha à mistura. Memórias de escola vivida diferente da memória que os meus filhos guardarão. Nostalgia? Não, realidade. Realidade dos dias de hoje, realidade de uma liberdade que eu tive e nem eu consigo deixar que eles tenham, mas como quem não sabe é como quem não vê, ou como quem não viveu, não sente, apenas acho que vivi a escola de uma maneira diferente. Lá, em África, onde estão as minhas raízes. E por falar em dias de hoje, foi com agrado que verifiquei que a minha escola primária está como eu a vivi.

28.11.07

Sensualidade, desejo, volúpia, cama e sexo, são fenómenos comuns a todas as mulheres, mesmo que secretamente, ou especiamente secretamente.

A propósito do que escrevi há dias sobre a história da Marilyn Moroe Vs Chanel nº 5, fui indagado via email por alguém que, inadvertidamente, questionou a minha hipotética certeza sobre a eventual probabilidade da encomenda, se a tivesse havido, poder não ser tão eficaz como a frase espontânea da estrela de cinema. Creio ter sido um jovem publicitário, muito cioso do seu mettier. Hipotética, eventual e probabilidade são palavras que não adivinham certezas e levaram-me a considerar inadvertida a forma como a questão me foi colocada, o que tive o cuidado de lhe explicar. Idêntico cuidado tive, em não enveredar por um tom paternalista, já que seria fácil ceder à minha experiência publicitária e pouca vocação para lides docentes. A outra explicação, de teor mais técnico e sustentada na experiência é apenas reveladora de uma visão muito pessoal sobre a questão. Aqui fica o resumo, mesmo considerando-o de intresse reduzido para quem tem outros problemas, e concerteza mais importantes, com que se preocupar. Chanel = a marca de prestígio (naquela altura e ainda hoje). Nº 5 = a produto sofisticado de uma marca de prestígio (hoje e ainda mais naquela altura). Marilyn Moroe = a marca com imagem antagónica a prestígio e sofisticação. O uso de figuras públicas na publicidade prevê a identificação da figura pública com a imagem da marca e com a do produto (atente-se à actual celebridade utilizada publicitariamente - Nicole Kidman). Não seria o caso da diva, por isso, mandam as regras que não se avancesse para essa solução e a Coco Chanel devia sabê-lo. Mas Marilyn Moroe = a sensualidade, desejo, volúpia e até, porque não admitir, o lado terreno e carnal da coisa. E isso, meu caro jovem, ainda hoje não “cola” com a sofisticação do Chanel nº 5. Mas em segredo, aquele segredo vivido por, arrisco-me a dizer, quase todas as mulheres saudáveis, e muitas vezes não publicamente admitido (muito menos na época) elas gostariam de reclamar para si toda a carga de lascívia que a Marilyn representava. E não sou eu que digo, os factos provaram-no, ou melhor, elas, as consumidoras provaram-no. Muitas das senhoras sofisticadas mostraram-nos, se acaso for preciso, que sensualidade, desejo, volúpia, cama e sexo, são fenómenos comuns a todas as mulheres, mesmo que secretamente, ou especiamente secretamente. Por isso continuo a acreditar que se tivesse sido encomendado, provavelmente não teria sido tão eficaz. E já agora, um obrigado teria sido, não eventualmente, mas de certeza, bem-vindo.

28 de Novembro

Era um dia como estes que nos têm acompanhado. Frio mas seco, com o sol a brilhar no céu sem que os raios nos conseguissem aquecer. Há 23 anos na já velha e gasta, mas respeitável Maternidade Alfredo da Costa era assinalado o nascimento de mais uma menina, não sei precisar a hora (sei que é imperdoável mas depois dela já vieram mais três e a memória é feminina, como alguém um dia me disse com toda a propriedade). Uma menina saudável, morena, muito morena, com muito cabelo e de olhos castanhos amendoados. Hoje, uma mulher de quem os pais se orgulham e que aos 15 anos decidiu ir viver com o pai (ui, personalidadezinha...), hoje mais babado que nos outros dias. Parece que foi ontem, é trivial dizer-se, mas não é que parece mesmo?... É a mulher cá da casa, mas para mim continua a ser a minha menina. Parabéns filhota e nada de vir falar em prendas que me levaste à certa quando me convenceste a juntar a de aniversário à de Natal (risos)... Bem sei que não aprecias (ainda), mas eu gosto (e muito), por isso vamos abrir uma Don Pérignon Vintage e celebrar, ai isso vamos.


27.11.07

Encomendado não seria melhor, nem provavelmente tão eficaz...


Era mais que improvável que as vidas desta e de uma outra senhora se cruzassem. Uma nasceu no final do século XIX e a outra nos loucos anos 20 do século passado. 43 anos de diferença e uns milhares de quilómetros, com um oceano pelo meio, entre Los Angeles e Paris. Nenhuma delas nasceu em berço de ouro, uma até com identidade paterna desconhecida, e cedo aprenderam que a vida não era um mar de rosas. Uma das senhoras casou bem e mais tarde conheceu o grande amor da sua vida, um milionário inglês que a ajudou a abrir a sua primeira loja de chapéus, o primeiro passo para uma carreira única no sofisticado mundo da moda. A outra senhora não parece ter casado assim tão bem mas tornou-se uma actriz célebre e num ícone da sensualidade feminina. Era improvável que a vida de Gabrielle Bonheur Chanel, ou Coco Chanel, a criadora do celebérrimo nº 5, se cruzasse com a de Norma Jean Baker, ou Marilyn Moroe, a estrela de Gentlemen Prefer Blondes, Niagara ou Bus Stop, essa mesmo que cantou o sensual "Feliz aniversário, senhor presidente", na sede do partido democrático, perante um JFK embevecido (pudera...) trajando, segundo Adlai Stevenson, um vestido de pele e pérolas, só que ele não tinha visto as pérolas (fácil de perceber...). O Chanel nº 5 foi lançado quando Norma Jean era ainda uma menina de 10 anos, mas foi ela, no seu jeito simples e desbocado que, anos mais tarde, o eternizou quando um dia um jornalista lhe perguntou o que vestia para dormir, esperando concerteza ouvir a resposta lasciva, nada, não visto nada. Mas não, com aquele, só dela, sorriso nos lábios, respondeu-lhe "apenas umas gostas de Chanel nº 5". Tivesse tido a criadora do perfume a ideia de contratar a diva Marilyn para uma campanha publicitária para promover o nº 5 e talvez o resultado não tivesse sido tão eficaz...



















Deste sorte Luana... como se algum dia pudesses dar azar...

Dei por mim a arquivar coisas antigas (muitas delas no arquivo morto), fotografias, notas, apontamentos, na tentativa de pôr ordem na assoalhada que serve de escritório cá em casa. E nessa tentativa de me aliviar do papel que me rodeava encontrei um bloco de notas, companheiro inseparável do tempo das lides brasileiras em S. Paulo. Abri a página correspondente ao dia 27 de Novembro de 2002 e dei conta que nesse dia, há 5 anos atrás, estava a filmar para a Peugeot do Brasil. A filmar um comercial para um produto histórico da marca, o Peugeot 206. Um filme promocional, sim que já nos tempos que corriam, a liberdade de produção local tinha limites. Anotei no bloco que as filmagens tinham corrido bem, o cliente ficara satisfeito, o director criativo também, bem como o realizador e, sendo assim, temos um account nas suas sete quintas. E também anotei algo parecido com “nossa, como ela é bonita”... é que tínhamos acabado de filmar com a Luana Piovani.









How does it feel?

How does it feel? How does it feel? To be without a home, like a complete unknown, like a rolling stone?

Não se sabe quando Bob Dylan a escreveu. Sabe-se apenas que a cantou pela primeira vez há 42 anos e que a Rolling Stone Magazine a considerou “the greatest song of all time”.

Se fosse vivo, este senhor comemorava hoje o 65º aniversário. Viveu like a rolling stone.
How does it feel? It still feels good listening to you Mr. Hendrix.

26.11.07

Carro do Ano 2008. E o vencedor é...





Os processos de compra são diferentes para cada categoria de produto e há umas que são de elevado grau de envolvimento, aquelas que, pelo seu valor e investimento necessário para as adquirir, o cidadão comum associa, legitimamente, a processos racionais, como por exemplo uma casa, um carro, umas férias, uma viagem, etc. Mesmo assim, e sem pôr em causa a teoria que é sustentada pelas escolhas necessariamente racionais de qualquer cidadão que tenta sobreviver com o seu salário, quanto mais tempo vivo, mais acredito que ninguém compra feio porque é barato ou porque pode pagar. E aqui o feio é subjectivo e depende do gosto de cada um.

A marca Fiat diz-me pouco e o pouco que me diz não é bom. Culpa de quem? Dos produtos das últimas 2 décadas, para deixar de lado o belo 124 Spyder, o 500 e outros. Design banal, pouca qualidade dos materiais, falta de rigor na construção, níveis de segurança ultrapassados, enfim, falando mal e depressa, carros banais ou feios e que davam chatisses, ao contrário dos da prima, a Alfa Romeo, que também se fartavam de dar chatisses mas sempre foram bonitos. Pois... eu não gosto de Fiats mas queria um novo Fiat 500. A par do mini, e do Ford GT 40, não me consigo lembrar de outra réplica tão bem conseguida. Uma delícia, até branco é bonito. Merecidamente o Carro do Ano. E há quem diga que a compra de um carro não é emocional... pois, está bem... acredita quem quiser, mas não tenhamos ilusões, as pessoas compram os carros que podem pagar mas de que gostam e depois comportam-se como qualquer ser humano: procuram factores racionais para justificarem a sua escolha emocional. Com o Fiat 500 nem me daria a esse trabalho.








A culpa é da sociedade e dos governos. Nós, coitados, somos apenas um produto da sociedade que nos rodeia... será?

Este american gangster não é siciliano, nem napolitano, é um preto chamado Frank Lucas, nascido e criado no Harlem, o mesmo bairro que ele dominou durante quase uma década traficando heroína e cuja pele Denzel Washignton veste na perfeição, como só ele sabe. Ridley Scott não deixa margem para surpresas e ainda bem. A minha filha mais velha achou que viu um exclente filme, eu achei que vi um bom filme, um filme interessante e que valeu o dinheiro. Ainda por cima no Londres, onde se pode fumar indoor ao intervalo. Mas interessante também foi a conversa de regresso a casa, à volta do detective Richie Roberts (Russell Crowe). Nós somos um produto da sociedade que nos rodeia, somos aquilo que ela nos deixa ser... seremos? Só somos se quisermos, mostra-nos Richie Roberts que tendo encontrado uma pasta com 1 milhão de dólares (em 1968!) no porta-bagagens de um carro a entregou na polícia e, fiel aos seus princípios, aos seus valores, às suas convicções, se manteve incorruptível numa brigada de narcóticos nova-iorquina corrupta nos anos 60-70, enfrentou um divórcio, perdeu a custódia do filho, mas mudou o mundo que o rodeava, para além de ter conseguido pôr o tal Frank Lucas entre as grades – mais de metade dos detectives foram julgados e presos, outros suicidaram-se que o dinheiro sujo não paga, por vezes, o peso da consciência e da vergonha. E isto só tem de ficção aquilo que Ridley Scott quis que tivesse, porque a história é real. Um homem só não pode mudar o mundo que o rodeia? Pode, mas dá cá um trabalhão... e a sociedade tem costas largas.

23.11.07

Guichets electrónicos para quem não tem passaportes electrónicos... ele há cada modernice...

Encontrei Londres como esperava encontrar. Organizada, ordeira, pragmática, fria e sombria, apesar do sol me ter brindado com uns dos seus raios, e cada vez mais fundamentalista no que diz respeito aos cigarros, proibitivos e proibidos, que agora até ao ar livre passou a haver as célebres smoking areas. E encontrei-a de ressaca depois do cataclismo que foi o não apuramento para o Europeu de 2008. E que ressaca, senhores... mas por aquelas bandas, mesmo ressacados, os ingleses não perdem a lucidez e tomam decisões rápidas... bye, bye coach, que para além da vergonha, o futebol é um negócio e esta manhã havia um alarido em Londres por causa da quebra do valor das acções das marcas desportivas patrocinadoras da selecção de Sua Majestade (ah pois é)... Regressei no mesmo dia e encontrei Lisboa como esperava encontrar. Desorganizada, confusa, com uma total ausência de pragmatismo, fria, sombria e tolerante no que diz respeito aos cigarros (ainda bem, digo eu, ainda mal, dirão outros). Mas mais moderna, que o progresso chegou, sem avisar, ao aeroporto. Um tipo de progresso e modernidade que encherá de orgulho muito boa gente, mas que incomoda e transtorna muito boa gente também. Agora há guichets para passaportes electrónicos, e logo sete, que não fizeram a coisa por menos. Sete guichets vazios e uma fila a perder de vista para dois guichets à cunha só para passaportes da UE, daqueles normais (já nem falo dos outros)... Bem gritava o homenzinho, mais parecendo um amolador num bairro típico alfacinha... “passaportes electrónicos por aqui, passaportes electrónicos por aqui” (dessem-lhe uma harmónica e era perfeito) e nós, viajantes cansados, olhávamos para ele sem percebermos patavina, ou melhor, percebendo que a situação roçava o patético... é que não passou uma única pessoa pelos modernos guichets. Será porque não sabiam que agora há passaportes electrónicos? Mas continua a não haver bom senso, e isso toda a gente percebeu. Modernices...

19.11.07

Ah velho cacilheiro amigo...

...toc, toc, toc... pode entrar diz o mestre de lá de dentro. Subo as escadas íngremes que terminam numa portinhola que dá acesso à ponte, à ponte do leme, aquela cabine onde todos os comandantes são os senhores das suas embarcações ou navios. Há aqui uma criançada que está muito curiosa sobre o seu trabalho e sobre de onde se comanda o navio. E o mestre, que o comandante do cacilheiro assim é chamado, sorridente e solícito nas explicações, depois de mandar subir a criançada delirante, contribuiu, também ele, para uma tarde bem passada onde se cumpriu a promessa de atravessar o rio de barco. A mais nova e a “maninha” de máquina fotográfica na mão, agora tiro eu, agoras tiras tu, alternando o gravar para a posteridade com as mãos no enorme leme que o mais novo não queria largar, sentado na cadeira do comandante. Desta vez não inventei, naquele esforço a que todos os pais se entregam para passar um fim-de-semana diferente do anterior. Apenas lhes disse que íamos atravessar o rio Tejo de barco. Simples não é? E o almoço em Porto Brandão soube-me mesmo bem.

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... não liguem, com um dia como o de hoje, senti que era mais apropriado reclamar do tempo em norueguês. Raios, como detesto a chuva... alguém me dizia, há dias, que só devia chover entre a uma e as seis da manhã... e com razão. Estive para escrever em somali, mas escolhi a língua do país com a melhor qualidade de vida do mundo (a confiar num estudo do The Economist). Amanhã, se o tempo continuar assim, reclamarei em islandês, e depois em australiano, ou melhor, em inglês (continuarei a confiar no The Economist).

16.11.07

Este trio vale mais que um póquer.

"Onde quer que esteja, a integridade está sempre comigo. Seja em Hollywood ou Istambul. Uma cidade ou uma indústria não pode tirar o que não se dá". (Denzel Washington, actor).

Ele, no papel do gangster Frank Lucas, e Russel Crowe, dirigidos por Ridley Scott... vou ver o filme American Gangster. Ai vou, vou.

A realeza desce à terra. Viva a realeza?

Somos republicanos sem sabermos porquê. Porque sim. Porque um dia o Manuel Buíça e o Alfredo Costa mataram o rei, acabou a Monarquia e instaurou-se a República. Descontando as diferenças fundamentais entre os dois regimes, mas não esquecendo que nehuma República europeia se pode insinuar a dar lições de democracia a nenhuma Monarquia europeia, o que impera é a forma de estar e a atitude dos cidadãos. Pensava eu que a mudança de regime implicava uma mudança de pensamento, mas não. Hoje li uma notícia, ou melhor, uma história de cordel sobre a separação de uma das infantas de Espanha (a mais velha) que, segunda consta, devia ter tomado essa decisão há muito tempo atrás já que o marido e pai dos seus filhos não é flor que se cheire... escândalos, muita farra, muitas mulheres, muita bebida e muita cocaína também. Presumo que a infanta, a quem foi dada uma educação de realeza, tenha engolido muitos e gordos sapos durante o matrimónio e tenha tomado a decisão quando a situação se tornou insuportável. É infanta mas é mulher, é gente, é mãe. Viva a realeza é o título do artigo em que o jornalista (?) não esconde o seu gáudio pelo facto da moderna realeza tomar estas sempre difíceis decisões como a separação do casal, tal como os casais comuns as tomam, dando vários exemplos. E termina assim, estou a vê-lo sorridente (ao jornalista) e como se do arauto da sociedade se tratasse: “A realeza já não é o que era, quando iludia apesar da desonra e do engano. A realeza desce à terra. Viva a realeza”. Ah, agora entendi, a desonra e o engano eram uma práctica apenas da realeza, não dos homens e das mulheres. Ah, e ainda bem que, independentemente de continuarem a praticá-la, os principes, princesas, reis e rainhas se separam. É que assim ficam como a gente. Ah, e desce à terra, à parte ruim da terra. Agora sim, estão desculpados e devem ser elogiados, porque se comportam como a plebe. Pensava eu que o descer à terra da realeza tinha a ver com uma maior proximidade com os seus súbditos, interesse genuíno pelos problemas da sociedade, abraçar causas sociais, etc. Pensava e continuo a pensar. E sou republicano, só não sei porquê.

15.11.07

A Season Ticket for the Cemetery… e se a moda pega por cá?

O Boca Juniors, clube de futebol argentino, é um clube mítico. Disso me apercebi quando, de visita a essa magnífica cidade que é Buenos Aires, não evitei uma ida a La Bombonera, o estádio desse histórico clube. Já assisti a jogos no Santiago Barnabéu, em Camp Nou, em estádios ingleses, brasileiros e, porque não dizê-lo, na Catedral da Luz, em Alvalade e no Dragão, estes últimos nas versões anteriores e pós Euro 2004. Estive em La Bombonera num dia de semana normal e o que senti não tem paralelo, não se consegue descrever ou explicar a paixão e a devoção que os adeptos têm pelo seu Boca. Acresce o facto do clube ter sofrido profundas alterações, muito por via de uma gestão exemplar introduzida pelo actual presidente, Mauricio Macri, um, ainda jovem, empresário de sucesso. Com sentido empreendedor, verdadeira paixão pelo clube e uma visão moderna e transformadora, Mauricio Macri e a sua equipa transformaram um clube falido, na penúria, num clube que hoje é um exemplo de gestão. Um clube que vivia dos e para os seus ídolos, e que ídolos, senhores, Maradona, Batistuta, Riquelme, só para mencionar os mais notórios e conhecidos, mas que tinha chegado a um beco sem saída e o business, que é hoje o futebol, não se compadece apenas com memórias. E foi exactamente esse novo Boca Juniors que despertou a minha atenção para um artigo da Time, que nos dá conta da criação de um cemitério criado exclusivamente para os fans do Boca, fans que já tinham direito a caixões especiais. A confiarmos na descrição, o local deve ser paradisíaco. "It's so nice it makes you feel like staying.", dizem os adeptos, como se porventura depois de lá chegarem, tivessem a possibilidade de sairem... Mas deve ser mesmo paradisíaco, já que é do paraíso que os cânticos proclamam... "Even death can't separate us, from heaven I will cheer you on," chant the thousands of passionate soccer fans that turn out every week to cheer on Argentina's biggest club, Boca Juniors…

11.11.07

11 de Novembro

11 de Novembro de 1975. Há 32 anos o MPLA proclamava sozinho a independência de Angola perante a passividade do governo português e desrespeitando os acordos de Alvor, que concebiam o desarmamento dos 3 movimentos armados e a consequente passagem a partidos políticos, bem como a criação de um governo de transição para uma nova Angola. A data fica para a história como o dia da independência de Angola, apesar do governo do MPLA ter sido reconhecido como legítimo pela ONU a 12 de Janeiro do ano seguinte. “Levai-o vós... isso não é comigo... eu sou neutro” disse Pilatos para quem um simples lavar de mãos não foi o suficiente para sossegar a sua consciência. Uma guerra civil fracticida que durou mais tempo que uma guerra colonial, também não deveriam ser suficientes para sossegar algumas consciências. 11 de Novembro. Hoje comemora-se a independência da minha Angola onde todos os interesses se jogaram à execepção dos do povo, à excepção dos interesses da liberdade e da vida.

9.11.07

Erros assim é difícil cometer duas vezes...

Alguém me dizia há uns tempos atrás, que as pessoas cometem sempre os mesmos erros, só que o tempo e a experiência, ou a maturidade fazem com que relativizemos esses mesmos erros ou contribuem para nos desculparmos mais facilmente e mais rapidamente. Washington (leia-se Casa Branca) é, porventura, o melhor exemplo deste pensamento e pratica-o vezes sem conta e a todo o momento. Desde que Pervez Musharraf se aliou aos EUA, consta que já entraram nos seus cofres (leia-se Islamabad, ou se calhar leia-se mesmo como está escrito) cerca de dez bilhões de dólares (podem ler as vezes que quiserem que o número está correcto). Tem sido uma autêntica caixa multibanco. O montante foi entregue no âmbito de ajudas económicas e, claro, militares. Washington apoia um general déspota que governa um país que, consta também, tem entre trinta e cinco a noventa bombas atómicas. Pois muito bem, a primeira, por sorte não é atómica... por enquanto... caiu-lhes nas mãos com a situação de instabilidade que se vive no Paquistão. Washington também apoiara Hassan Hussein e até Osama Bin Laden, com os resultados que estão à vista. Stephen Cohen, analista da Brookings Institution alertou há dias que o exército paquistanês tem andado a fazer jogo duplo com os EUA e a aceitar a ajuda sem levar a luta contra os extemistas islâmicos até às últimas consequências... que novidade...
Num artigo do The Guardian há uma menção, prontamente comentada pelo editor, que ajuda a entender um pouco a política internacional e os interesses de duas grandes potências. "There was pressure from the US and Britain in the beginning. But later on, when the government gave them the detail that elections will be held on time, and the president will take off his uniform, they did not have any objections." Ah, então está bem, se é assim, devemos todos ficar também mais descansados, os paquistaneses então, esses podem ficar absolutamente tranquilos. Erros destes creio que não cometeria duas vezes, mas sei que Washington cometerá vezes sem conta. Irra...

6.11.07

Tenho um Tintoretto em casa.

Tenho um Tintoretto em casa e não sabia. E nem sei como veio cá parar... espólio do passado, vou admitir... Está pousado no chão, a um canto e escondido da maior parte dos olhares, não porque não o ache belo, mas porque tem um tamanho que não se presta a ser colocado numa das paredes da sala, onde todos os amigos poderiam deliciar-se com a magia da “Adoração dos Magos” do grande pintor do século XVI. A minha filha mais velha, sensata e responsável, e deslumbrada com a descoberta, manifestou o desejo, quase me convencendo, de que uma obra de arte assim deveria ser doada a uma fundação ou a um museu. Ontem disse-lhe que sim, que era assim que devíamos agir e por várias e óbvias razões. Hoje disse-lhe que não. Vou vendê-lo e não me interessa a quem, sendo que a única permissa que entra na minha avaliação do potencial comprador é a sua conta bancária. Como o Tintoretto que foi descoberto num mosteiro beneditino português e que está lá há cerca de quarenta anos. É improvável que o mosteiro o queira vender mas podia, já que não há nenhuma restrição à saída da peça do território nacional. É que a obra não está classificada, nem inventariada. Havia de ser em Espanha, França ou Inglaterra... já não saía do país, nem que para isso tivessem que ser movidas montanhas. Tiveram (quem quer que seja, para não escrever o Estado) sorte com os monges, já comigo... não teriam, se eu descobrisse que tinha um Tintoretto cá em casa.

(Descoberta do Tintoretto é notícia num artigo do jornal Público de hoje)

29.10.07

África XVII. E por falar nos flagelados do vento-leste...

... aqueles a quem o poeta caboverdiano Ovídio Martins presta homenagem, gente da sua terra e gente que, por essa África fora sorri na probreza e da pobreza, e da vida dura de quem nasce flagelado pelos ventos, habituada que está a ter as costas voltadas e não os braços abertos, numa África abandonada quando não é cobiçada... eles são assim, os flagelados do vento-leste...

Eles são os flagelados do Vento-Leste!
A seu favor não houve campanhas de solidariedade
não se abriram os lares para os abrigar
e não houve braços estendidos fraternalmente
São os flagelados do Vento-Leste!
O mar transmitiu-lhes a sua preserverança
aprenderam com o vento o bailar na desgraça
as cabras ensinaram-lhes a comer pedras para não perecerem
São os flagelados do Vento-Leste!
Morrem e ressuscitam todos os anos
para desespero dos que os impedem a caminhada
teimosamente continuam de pé
num desafio aos deuses e aos homens
e as estiagens já não lhes metem medo
porque descobriram a origem das coisas
São os flagelados do Vento-Leste!
Os homens esqueceram-se de lhes chamar irmãos
e as vozes solidárias que têm sempre escutado
são apenas as vozes do mar que lhes salgou o sangue
as vozes do vento que lhes entranhou o ritmo do equilíbrio
e as vozes das suas montanhas
estranha e silenciosamente musicais
Eles são os flagelados do Vento-Leste!

(Adaptado do poema de Ovídio Martins, poeta caboverdiano).

26.10.07

África (XVI). Naquela tarde matei saudades do mar dos flagelados do vento-leste.

O jipe aos solavancos na estrada que mais parecia um caminho de cabras, a caminho de Pedra Lume, uma pequena povoação com meia dúzia de casas. A bruma seca, uma espécie de nevoeiro causado pelo vento quente e seco que transporta as areias do Saara, já se acalmara quando chegámos à porta de casa do José. Mão na buzina, que de tanto gritar já só gemia baixinho, suplicando que lhe déssemos tréguas. Zé, oh Zé, levanta-me esse traseiro da cama. Estás a ouvir Zé? A buzina já não ouvia concerteza, que essa, entretanto já se calara, sucumbindo à nossa teimosia. Aquele malandro ou está na sorna ou está agarrado à patroa. Oh Zé larga lá a patroa, deixa isso para mais logo. Zé, nós vamos aí buscar-te... Não foi preciso, o Zé Lopes apareceu à porta com o bom e velho motor Mercury ao ombro. Então pá? Então o quê? eu ouvia os senhores mas estava a preparar-me. Já se habituara que lhe tocassem à porta para pescar no pequeno barco dele. Temos que passar pela casa do Jaime, e assim fizémos que a partir daquele momento quem comandava era o Zé, homem conhecedor dos mares daquelas paragens e experiente pescador apesar da sua juventude. Pelo caminho combinámos o pagamento, uma parte em dinheiro e outra em peixe. A regra de ouro manter-se-ia naquela tarde: só se pescava para pagar ao Zé e para o nosso jantar, que já estava tudo combinado com o Américo, ele cobrava-nos as bebidas e uma taxa adicional para o serviço, que o peixe com que nos havíamos de deliciar levávamos nós. Os amigos ainda incrédulos mas ansiosos por se fazerem ao mar, mergulhando nas suas profundezas, iam vestindo os fatos de mergulho, calçando as barbatanas, colocando os cinturões de chumbo, enquanto o teco-teco do Zé se afastava vagarosamente da costa. Bóia sinalizadora lançada ao mar, alguns conselhos prácticos e úteis instruções, e os nossos corpos, um a um, abandonaram o barco, mergulhando na escuridão das águas do oceano. Nessa tarde deixei a espingarda de caça submarina a bordo... não me apetecia matar os peixes, apenas matar as muitas saudades do mar, daquele mar imenso, sem fim, que banha a terra dos flagelados do vento-leste, como lhes chama o poeta caboverdiano Ovídio Martins.

25.10.07

Sou um péssimo cidadão. Sou um hipócrita. E o pior é que, se calhar, não sou único.

Hoje amanheci de consciência pesada. Mas já me passou, não que a sinta mais leve, apenas porque passei o peso para trás das costas, que é como quem diz, não penses mais nisso, o que não abona nada em meu favor. O peso da minha consciência matinal tem um nome: ambiente, ou fenómeno ecologia, como lhe queiremos chamar. Um assunto para o qual as pessoas minimamente informadas prestam parte da sua atenção, manifestando legítimas preocupações e, a par da informação e da teoria, procuram ou deviam procurar seguir as boas prácticas. A culpa do peso é da Visão e da sua “edição verde” de hoje... e minha, claro, que a revista mais não fez que avivá-la. No que diz respeito a este assunto sou um péssimo cidadão. Pior, bem pior que os não informados, exactamente por não informados serem. Senão vejamos: o meu carro é a gasolina e de uma cilindrada nefasta para o ambiente; separo o lixo mas há dias em que nem sempre o faço, quando não estou para aí virado ou a pressa desviou a minha atenção para outras paragens; se construísse uma casa na praia ou no campo, uma das minhas últimas prioridades eram os amigos painéis solares; fumo desalmadamente e, asseguro-vos, depois de fumados, deito cigarros na rua... e por aí adiante. E não há desculpa, senão vejamos (dois): os carros híbridos, que já foram espécimes raros, complicados e caros, já não o são. Um Honda Civic híbrido custa 23.500 €, quase menos 2.000 € que um 1.8 a gasolina da mesma marca e modelo. Mas eu preferi o meu 6 cilindros a gasolina. Tenho em casa aquele caixote para separar o lixo mas na verdade, preocupação mesmo a sério é com o bem estar e futuro dos meus filhos, cumprimento dos horários escolares, idas ao pediatra, etc... irónico não? Em relação à casa de campo ou de praia, as prioridades seriam o conforto, o número de quartos, a orientação solar e, esticando o orçamento, a piscina no jardim. Energia?... o bom e velho esquentador ou caldeiras eléctricas. Os cigarros... não tenho vícios, posso ter um?... e faço o quê aos cigarros fumados? ando de cinzeiro portátil no bolso?... e por aí adiante. Pois é, o ambiente está dependente de estratégias e políticas ambientais... pois está. Mas diz respeito a cada um de nós, que nos dizemos sensíveis ao assunto, preocupados e minimamente informados. Assumindo que não sou o único a agir assim, o futuro não se apresenta muito risonho para o dito ambiente. Sou um hipócrita, é o que eu sou... ou será que devia empregar o termo na primeira pessoa do plural?

22.10.07

África (XV). Eu? eu vou para o pontão.

Mesa posta cuidadosamente, as toalhas de um branco imaculado ofereciam-nos um pequeno-almoço farto, um belo mata-bicho, como se diz para aqueles lados. Um sol magnífico, brilhante e radioso, recebeu-nos mal passámos a porta dos quartos. A brisa marítima atenuava a força castigadora do calor que nos empurrara para fora das camas e abria-nos o apetite. Era cedo mas a sala estava já composta, para não dizer cheia. Os amigos organizavam-se, tentando chegar a um consenso sobre como ocupar o dia, ainda reféns de um quotidiano preenchido que nem há vinte e quatro horas fazia parte das suas vidas. Eu ouvindo, divertido, e observando. Cinco minutos bastavam para poder afirmar a pés juntos quem tinha acabado de chegar e quem estava prestes a partir, e não era apenas pela visão da tez morena e dos corpos bronzeados que, tal como o algodão, não enganavam. Podia afirmar, bastando para isso atentar à indumentária dos turistas. As camisas, calções, sandálias e acessórios e relógios de marca dos que tinham acabado de chegar, haviam dado lugar a t-shirts simples, calções de banho e chinelos, ou nem isso, nos que se preparavam para partir, convertidos que estavam à simplicidade daquela terra e daquelas gentes. As senhoras queriam estender-se ao sol, ávidas que estavam de bronzear os corpos; eles na dúvida, uns querendo saber o preço do aluguer das motas de água, outros desejando iniciarem-se no mergulho e outros ainda curiosos sobre como se sairiam no desafio do instável equilíbrio sobre as pranchas de wind surf. Também havia quem quisesse alugar um jipe para dar uma volta à ilha ou dar um passeio a cavalo. O que é que achas Mike? Passei a mão pelo queixo, desviei o olhar lá para fora, através da vidraça, e os meus olhos quedaram-se no envelhecido e gasto pontão de madeira, como um braço do areal que parecia querer abraçar o mar. Desviei o olhar para o horizonte, onde se podiam avistar as pequenas embarcações dos pescadores dirigindo-se a terra. Eu vou para o pontão. Vou assistir à chegada dos pescadores, ao desembarque do atum e à pescaria dos meninos crioulos. E senhoras, mesmo que consigam, e eu tenho algumas dúvidas, antes do meio dia saiam do sol, se querem chegar bronzeadas a Lisboa. E senhores, temos tempo, temos muitas horas durante esta semana para fazermos todas essas outras coisas. E se não as fizermos aqui, podemos fazê-las no Guincho, em Lisboa, na Ericeira ou em Cascais. Relaxem, não se apressem, usufruam, aproveitem para viver cada minuto, não como se do último se tratasse. Eu vou para o pontão, se calhar até encontro o Américo, ele que é cioso do peixe que serve no seu humilde restaurante e que ele próprio gosta de escolher. E depois? vais fazer o quê? Encolhi os ombros e sorri... sei lá, depois logo vejo. E os amigo acharam que depois logo veriam também, juntando-se a mim a caminho do pontão para assistir ao desembarque do atum e à pescaria dos meninos.

20.10.07

África (XIV). Morabeza?... Morabeza não se explica, sente-se, vive-se.

Abrem-se as portas do avião e chega o primeiro choque, que é térmico, o ar quente cá fora, contrastando com o ar condicionado que nos acompanhou durante a viagem. Uma Lisboa cinzenta, tristonha, fria e chuvosa, ficara a duas horas e meia de distância e a descida da escada de apoio, uns quantos degraus que nos separam do asfalto da pista, são suficientes para nos colar as camisas aos corpos. Estão em África, amigos, é o bafo dos trópicos. Mas o céu até está meio encoberto... pois está, mas a humidade deve rondar os 90%. Não era a primeira vez para mim, nem foi a última, mas era a primeira visita de amigos a Cabo Verde... e também não foi a última. Tinham feito questão de terem a minha companhia. É que tu és de lá... não, não sou, eu sou de Angola... isso não interessa, és de África... sem saberem quão perto estavam da verdade, deixei a argumentação para outro momento mais apropriado, que aquela África não era a das minhas raízes mas, sendo África meridional, era minha também. Não tinha sido suficientemente persuasivo quando lhes disse que não precisavam de mim para nada, que não iam visitar nenhuma capital europeia ou algum museu que necessitasse de uma espécie de visita guiada. Mas tanto insistiram (não foi preciso insistirem muito) que lhes disse que sim.
O segundo e o terceiro choque não foram térmicos. As impressões que a vista alcançava eram verbalizadas com uma sinceridade... como dizer?... europeia. Isto é tão desolador, tão pobre, tão árido... mas as pessoas são sorridentes e bem dispostas... Eu calado, deixando-me levar por memórias e por outros sentidos. Uma batida dum batuque aqui, o som estridente dum cavaquinho ali, a voz melodiosa de uma feirante ensaiando uma morna aculá, e o cheiro da terra a ser ocupado progressivamente pelo da marzia, à medida que nos aproximávamos de Santa Maria. Chegados ao hotel, Morabeza de seu nome, alguns dos amigos tranquilizaram-se. Na sua simplicidade, tinha tudo o que um europeu espera de um hotel, mesmo em África... ginásio, salão de jogos, quartos amplos, piscina, aluguer de motas de água, aulas de wind surf e mergulho, etc, etc. A mim bastava-me como ele era... simples e pé na areia, com o mar logo ali, a umas dezenas de metros dos quartos. Um deles não conteve a curiosidade. Porque se chama Morabeza? Hum... Morabeza não tem tradução, não se explica, é como a nossa saudade, mas não é a mesma coisa. Há-de ter algum significado, insistiu, não satisfeito com a resposta. Tem, claro que tem, é uma palavra muito falada em crioulo e que pode querer dizer bem estar, gozar a vida, beleza, boa conversa, ou até nadar no mar, mais ou menos como os brasileiros empregam gostoso. Ah, afinal sempre tem tradução. Não, não disse isso, os caboverdianos dizem que Morabeza não se explica, sente-se, vive-se. Sorri, sabendo que no final da semana que ia começar em terras africanas, eles entenderiam o que era Morabeza. Só não saberiam explicá-la... e continuei a sorrir.

18.10.07

Há males que vêem por bem?

Não gosto dos males que vêem por bem. Gosto mais do bem que vem por bem. Nem tão pouco aprecio quando se escreve direito por linhas tortas, que as linhas devem ser tão direitas quanto a escrita e essa gosto dela direita, rectilínia, sem vacilos, mesmo quando de uma prosa sonhadora se trata. Evito, porque não gosto, do I hate to say I told you so. Se detestamos dizer, porque haveremos de fazê-lo? Para deixarmos claro que tínhamos razão? Devíamo-nos ficar pela sensação de a termos sem necessidade haver de humilharmos o prevericador. E isto tudo porquê? O assunto não é assim tão interessante quanto isso, apesar de ultimamente lhe prestar a atenção pelo facto do meu Banco estar nas bocas de toda a gente e nas manchetes dos jornais e revistas. Meu por dele ser cliente há mais de dezasseis anos e, já agora, por ser accionista, mesmo fazendo parte do lote dos míseros accionistas. As trocas e baldrocas, as situações mal explicadas, os perdões de dívidas, aparentemente indevidos ou à margem da lei que os estatutos do maior Banco privado impôs a si próprio... um sem número de episódios que tem deixado preocupados os grandes accionistas. Acções para cima, acções para baixo, guerras internas pelo poder, e os tubarões, claro, à beira de um ataque de nervos, ou pelo menos com eles em franja. Como estão os meus, mas por razões diferentes. Para eles a questão fundamental é o dinheiro. E a razão deve estar do seu lado, porque, como diz o anúncio, no Banco trata-se de dinheiro. Para mim a questão fundamental é a verdade... ou a mentira, ou a omissão, ou o que elas escondem. Falando de verdade, a verdade é que se não fosse por causa do dinheiro, a omissão, ou a mentira, não conheceriam a luz do dia. Se não fossem os Joes Berardos da praça e outros influentes (leia-se influente$), muitas coisas não se saberiam. Ora bolas, afinal, apesar de não gostar, sempre se escreve direito por linhas tortas... ou se calhar... nem tanto, que em casos como este, a escrita é tão torta como as linhas... quando são os Joes Berardos a escrevê-la, a escrita é sempre torta. E continuo a não gostar dos males que vêem por bem.

17.10.07

Nas tuas mãos.

Das tuas mãos me larguei para dar os primeiros e tímidos passos.
E recebi o afago que me conduziu ao sono.
Das tuas mãos me larguei para dar as primeiras braçadas no mar revolto.
E me larguei, convicto, para dar as primeiras pedaladas.
Das tuas mãos recebi a primeira medalha, celando a primeira vitória.
E recebi a primeira espingarda.
Das tuas mãos recebi os primeiros ensinamentos de como conduzir.

Das tuas mãos recebi muito, mesmo sendo pouco. Por ser uma dádiva.
Por ser uma dádiva, não foi das tuas mãos, antes nas tuas mãos.

Nas tuas mãos aprendi a andar. E adormeci serenamente.
Nas tuas mãos aprendi a nadar. E aprendi a andar de bicicleta.
Nas tuas mãos senti o primeiro sabor da vitória.
E aprendi a caçar e a pescar.
Nas tuas mãos aprendi a conduzir. E a conduzir a minha vida.

Nas tuas mãos aprendi o sentido da vida, quando a morte se preparava para nos separar. E aprendi que a morte não nos separou. Não tive um pai. Tenho um pai. Apenas deixei de o ver.

18.10.2007, comemorando o teu 78º aniversário.

16.10.07

Eu, curioso, sinto-me desapontado.

No virar do novo milénio, 191 líderes mundiais aprovaram unanimemente oito objectivos – os objectivos do milénio – a serem alcançados até 2015. Um desses objectivos, erradicar a probreza e fome extremas, assinala-se hoje, dia 17 de Outubro, Dia da Erradicação da Pobreza. Neste dia, em 1989, Javier Perez de Cuellar, então Secretário Geral da ONU, abraçou oficialmente a causa iniciada, dois anos antes em Paris, pelo padre Joseph Wresinski. O Dia Internacional existe, as estratégias também deverão existir, teorias concebidas, também. A práctica deveria caber a todos, governantes e cidadãos. Eu, curioso por saber que acções serão levadas e efeito a nível nacional e internacional, sinto-me desapontado por não saber que papel me cabe, o que fazer, que passo dar, por onde começar...

15.10.07

Fazes-me bem, filho.

Pai, escolhi gestão, diz-me ele com simplicidade mas orgulhoso, e guardando a melhor notícia para mais tarde. Podia escolher economia, marketing, comunicação (não vás por aí, meu filho), mais uns quantos cursos, desses modernos que não havia no meu tempo e que não decorei, sinal que... sinal que nada, sinal que estou a ficar senil ou que nesta idade se faz um filtro especial que retém apenas o que é relevante. E olha pai, escolhi o ISCTE... a média (15,8) dava para entrar na Nova e no ISEG, mas escolhi o ISCTE. Porquê? Porque conheço lá mais gente, porque estão lá os meus amigos. Fazes bem, filho. Fazes-me bem, filho. E quendo começas as aulas? Para a semana... boa, então ainda dá tempo para “derretermos” uns karts em Palmela, esta semana, em jeito de comemoração.

12.10.07

África (XIII). A aventura inesquecível dos big five.

Alvorada às cinco e meia da manhã, já com o céu iluminado por um sol prestes a dar sinal de vida ao fundo dum horizonte a perder de vista na savana africana, em pleno coração do território Masai. Tempo para um pequeno-almoço furgal e rápido, que o verdadeiro breakfast viria depois, por volta das nove horas. Um Houstous irrepreensível e sorridente esperava-me junto de uma Bedford mal humorada e resingona que não manifestava a mínima vontade de se fazer ao mato, numa manhã em que os objectivos eram ambiciosos. Houstous tinha cismado que não partiríamos de Masai Mara sem me proporcionar o troféu tão desejado que são os big five. Outrora, um caçador que prezasse a sua reputação teria que expor os big five como troféu supremo, nos dias de hoje, o troféu é simbólicamente registado pela máquina fotográfica... e ainda bem que é assim. O troféu é simbólico mas a viagem não se reveste de menor adrenalina que outrora. O meu estimado guia alertou-me para o facto de ser raro conseguir os big five na mesma manhã, principalmente porque os rinocerontes habitam lugares difíceis para automóveis, quanto mais para a preguiçosa Bedford, e os leopardos são animais de uma timidez extrema, ou não fossem eles os príncipes das trevas no reino animal, sempre a coberto de uma vegetação inexpugnável. A teimosia de Houstous foi compensada, para minha felicidade, e nessa manhã, antes de voltar ao lodge, tive o privilégio de ter visto os elefantes, os guardiões da savana, junto ao rio, uma família enorme com os adultos numa atitude protectora em relação às crias, os traiçoeiros búfalos a pastarem serenos mas sempre alerta, leões, a fazerem jus ao título de reis da selva, ainda sonolentos, um rinoceronte solitário (um espécime absolutamente majestoso, com um porte invejável), e um casal de leopardos que, segundo o meu guia, se preparavam para acasalar e, concerteza contrariados pela falta de oportunidade dos humanos que lhes haviam estragado o arranjinho, tornaram-se invisíveis em menos de quinze segundos... o tempo suficiente para a máquina fotográfica registar o momento, alcançando o objectivo dos big five. De volta ao lodge, um guia sorridente e orgulhoso da sua competência e um viajante feliz por ter realizado uma vontade sonhada, desejando que o odor da terra africana se perpertuasse, o pó da savana se acumulasse nas pestanas e o sol, já radioso e impiedoso lhe queimasse a pele, de quem havia vivido uma aventura inesquecível.

11.10.07

Einstein era um génio.

As reflexões de Albert Einstein sobre o que mais tarde o levaram à criação da Teoria da Relatividade começaram quando ele tinha 16 anos. Consta que tudo começou numa carta que o jovem enviou a um tio, na qual juntou alguns trabalhos sobre problemas que ocupavam a sua mente... precoce a bem dizer. Mais tarde, muito mas tarde, Prémio Nobel da Física, eleito uma das personalidades do Século XX, com o seu nome dado a um elemento químico e a uma unidade de massa da fotoquímica, ao pedirem-lhe uma definição a relatividade, resumiu-a assim: “Põe a tua mão no forno durante um minuto e parece uma hora. Senta-te com uma mulher bonita durante um hora e parece um minuto. Isso é relatividade”. Que simplicidade brilhante. O homem era um génio ou não era?

EUA estendem a mão à junta birmanesa.

Este título não me surpreendeu e resume o ponto de vista da diplomacia norte-americana, que defende a possibilidade da actual junta militar continuar a desempenhar um papel no futuro, depois da transição de poder na Birmânia. A Time, na sua edição de 8 de Outubro, ilustrava a capa com um elucidativo “Praying for Burma”, desenvolvendo o título com um pequeno texto que terminava com um esperançoso “but the world is watching”, numa espécie de aviso ao regime ditatorial birmanês. O que me surpreendeu, e vá-se lá saber porque é que ainda caio na armadilha da surpresa nestes casos, foi o projecto de resolução apresentado pelas potências ocidentais ao Conselho de Segurança da ONU, nas quais, claro, se incluem as (maiores) democracias europeias, em que essas grandes nações “lamentam profundamente” mas “não condenam” a repressão dos protestos pró-democracia em Rangum. O projecto apresentado apela à democratização da Birmânia e defende que o processo deverá contar com o apoio de um dos maiores, senão o maior, aliado da ditadura militar – a China. Tens que entender Mike, tu não percebes nada de diplomacia internacional, dos interesses que estão em jogo, principalmente quando uma China está envolvida, afinal há mais coisas muito mais importantes que devem ser acauteladas, não pode haver lugar para ingenuidades, etc, etc, etc. Não, não tenho que, nem devo entender... há coisas que não deviam ter preço e tenho a sensação de que hoje o povo brimanês está a pagar um bem elevado, mas as potências ocidentais também pagarão lá mais para a frente. E a ONU... o que dizer da ONU?... o problema não está apenas nos ditadores... Garry Kasparov tinha razão.

10.10.07

Errare humanum est.

A vida e como vivê-la cantada pelos R.E.M. em Madrid, um concerto que o meu irmão assistiu e se deixou encantar, eu invejando-o, pela Life and how to live it. Neste caso fez-se justiça no All-Time 100 que os editores da Time, Josh Tyrangiel e Alan Light elegeram com apertados critérios de selecção. Sim, constavam Otis Redding, Rolling Stones, Bob Dylan, Jimi Hendrix com o seu Experience, Beatles, David Bowie, Prince, The Clash, The Velvet Underground, U2, PJ Harvey e Nirvana, Miles Davies, Frank Sinatra, Van Morrisson, Muddy Waters, entre outros eternos. Mas não me dei ao trabalho de escutar as explicações que os editores, simpaticamente e muito profissionalmente dão para justificar a presença de Dolly Parton, Eminem e Oasis em detrimento dos Doors e Pink Floyd...

9.10.07

A mão de obra estrangeira subtrai emprego aos portugueses, não é pai? Não minha filha!

Os meus filhos foram, e têm sido, educados a respeitarem os valores da tolerância, assim como das diferenças do ponto de vista social, seja elas religiosas, sexuais, raciais, ou outras. No que diz respeito à diferença racial pouco ou nada poderiam fazer para renegar as origens de uma bisavó de raça negra e uma avó mestiça... omitir ou fingir que a bisavó não existiu já que nem a conheceram pessoalmente, era uma hipótese plausível. Mas, felizmente, que isto de educar às vezes prega-nos algumas partidas, não só não renegam essa diferença racial que as origens lhes impõem, como olham para ela como algo natural, que faz parte da vida deles. Posto isto, e para que não restem dúvidas sobre o que a seguir vai ser escrito, avancemos. Há dias a minha mais velha, menina recém formada a gozar um merecido período de descanso dos estudos, um dolce fare niente que ela teima em fare capoeira, dança, surf, Instituto Espanhol e sei lá mais o quê, colocou-me a questão da mão de obra estrangeira qualificada e não só, em Portugal... talvez preocupada com o que sabe que vai ter que penar para se empregar... Não estranhei a visão dela, comum à maior parte dos portugueses... sim, sei que já perceberam... “é de certa forma, mão de obra que subtrai empregos aos portugueses”... A recém doutora, conhecendo o pragmatismo do pai, não estranhou o rotundo estás completamente enganada minha filha, mas foi incapaz de esconder a sua surpresa face aos dados que lhe fui passando, acrescentando que, para além dos números, havia sempre outras questões em causa e que se prendem com a legítima aspiração do ser humano, a procura da dignidade e da melhoria das condições de vida. Dei-lhe como exemplo a nossa emigração nos anos sessenta. Os dados, ou números, como lhes quisermos chamar são claros. A economia portuguesa, entre 1995 e 2005, teria tido um crescimento negativo se não tivesse recebido o contributo da mão de obra estrangeira, com um aumento de cerca de 1,5% do PIB / per capita. Se não fosse essa mão de obra estrangeira, essa mesmo que olhamos de soslaio porque os nossos empregos vem roubar, a riqueza produzida por cada habitante teria diminuído a um ritmo de cerca de 0,6% ao ano. Ah, afinal as pessoas não sabem essas coisas e não sabem o que dizem, atira-me ela com um sorriso nos lábios, quiçà aliviada sem razões para tal (esta parte resolvi não comentar), enquanto caminhávamos por uma Lisboa que parece contrariar os números oficiais... pois, nesses números não constam os dados do sub-emprego, desemprego e situações de vida dramáticas vividas pelos imigrantes. Mesmo assim ainda lhe atirei à laia de conclusão que os estrangeiros que cá trabalham fazem o trabalho que os portugueses não querem fazer. Ela concordou, acrescentando, hoje já aprendi alguma coisa, pai... amanhã serei eu a aprender, filha. E ainda bem.

8.10.07

Que contrariedade... Agora torço pela Argentina!

Fim-de-semana negro para a modalidade... assim me respondeu um amigo, com a propriedade que a parcialidade de um fã de raguebi lhe confere, a quem mandei um sms depois de assistir com mágoa à derrota da Nova Zelândia às mãos de uma equipa francesa que, não sendo favorita, deu tudo o que tinha e não tinha para ganhar. E assim a melhor equipa do mundo e que nestes momentos encontra também artes e engenho para não saber ganhar e provar porque é considerada A melhor, ficou pelo caminho nos inglórios quartos de final. Antes a Austrália também sucumbira às mãos da Inglaterra, neste caso pés, já que nenhum ensaio foi realizado pelos súbditos de Sua Majestade... pois, mas aprendi que não se ganha nem perde mal, apenas se ganha ou se perde. A África do Sul passou um mau bocado mas não deixou os seus créditos por mãos e pés alheios e é a favorita para esse amigo, mas ontem, cá em casa, eu e o mais velho decidimos por quem vamos torcer... pela Argentina... apesar de termos a noção que estamos a torcer por uma equipa perdedora à partida. Mas gostamos deles, principalmente do fantástico pack avançado, quais formiguinhas incansáveis que não param um minuto e do já famoso e reputado médio de formação... que jogador... um Messi da oval... só por ele, torço pelos “celestes”.

Alguém merecia que Portugal não fosse ao Europeu de Futebol.

Amândio Carvalho, de acordo com o seu currículo que consta no site da Federação Portuguesa de Futebol, tem dedicado toda a sua vida ao desporto e ao futebol em particular, sendo já Vice-Presidente, cargo que ocupa hoje, em 1986, ano que para os mais jovens apenas representa uma participação de Portugal num Campeonato do Mundo, mas para mim, e mais alguns, estou certo, ano a que está associada a “pouca vergonha” de Saltillo. Ontem fui surpreendido por declarações suas, o que me leva a crer que este Vice-Presidente já passou tempo demais no futebol... como o vinho quando começa a passar-se, sabem?... declarações em que este responsável se referia ao castigo aplicado ao Seleccionador e que, afinal de contas, as instâncias desportivas internacionais até tinham sido benevolentes, tendo a pena sido reduzida. Acredita ele que, o facto do murro desferido pelo Scolari (acho que as palavras foram mesmo estas) não ter acertado no jogador adversário talvez tenha contribuído, felizmente, para isso. Fiquei incrédulo, pensei que não estava a ouvir bem, talvez fosse uma rábula dos Gatos Fedorentos... mas não. Era o Vice-Presidente da Federação a falar. O meu filho mais velho, ao meu lado, deu uma gargalhada e acrescentou um sonoro “que palhaço”. Os jogadores, porventura, não merecerão, os adeptos e o povo português também não, mas esta Federação merecia que a Selecção ficasse apeada do Europeu... bem, se calhar não ia mudar nada... é que ainda hoje não se sabe nada do inquérito que a Federação diz que instaurou a Scolari por causa do tal murro que, felizmente, não acertou... assim já nos safamos, pensarão os “chicos-espertos” dirigentes federativos... que tristeza, que probreza de atitude, que exemplo...

4.10.07

Quem diria?... entretanto fale com a sua filha antes que a indústria da beleza fale com ela.

China, Rússia e Índia, três grandes colossos, de populações gigantescas. Talvez por isso, sejam mercados apetecidos pelos principais executivos de produtos de luxo. De acordo com um Global Luxury Survey que me foi dado a conhecer pela revista Time através da sua versão Style & Design, a China é o mercado mais prometedor de todos os mercados emergentes, acreditando-se que o consumo de artigos de luxo ultrapasse os EUA em 2015. Relógios e cosméticos caríssimos, carros de luxo importados numa escala não prevista levam, por exemplo, a Armani a abrir mais 24 lojas no país de Mao, ou que já foi de Mao. Mas a Índia não se fica atrás, não só no desejo de ter marcas marcas caras, como, imagine-se, no consumo. E se a Índia não se fica atrás, a Rússia não dá mostras de se deixar bater nesta inglória(?) disputa, com as previsões a apontar para um crescimento de 15% das vendas de artigos de luxo nos próximos 5 anos. Para a geração dos 30 será uma coisa normal, para mim, que confesso uma sensação porventura deslocada, é estranho. China, Rússia e Índia e consumo de artigos de luxo em alta... quem diria? parece que o passado de Mao, Kruschev, Brejnev e Idira Gandhi foi há tão pouco tempo... entretanto, e porque estamos a falar de artigos de luxo, onde se insere também a indústria da beleza, fale com a sua filha, antes que essa indústria fale com ela... quem diz filha, diz sobrinha, irmã, afilhada, neta...

3.10.07

O problema não está apenas nos ditadores...

Altamente utópica, no meu ponto de vista, ainda sim merecedora de reflexão e, quem sabe, também merecedora de uma tentativa para a pôr em práctica, a visão de Garry Kasparov, ex-campeão mundial de xadrez durante mais de 20 anos, actualmente Chairman do United Civil Front, um grupo de democratas activistas com sede na Rússia (calculo sem vida muito fácil). Propõe Kasparov, a elaboração de uma Carta Magna global que previna, controle e trace as fronteiras para o que considera ser um comportamento promíscuo nas relações entre nações. E baseado em quê? em que teoria? Baseado numa observação objectiva assente no facto de, quando as democracias convivem com ditadores (e por vezes de uma forma delicodoce, acrescento eu), os piores regimes do mundo podem assassinar impunemente. Kasparov não é subtil no seu artigo, arremessando o seu discurso para as Nações Unidas. Mas não se fica por apontar o dedo, apresenta soluções e relembra que não é a construir muros isolando as populações de regimes autoritários que se leva a água ao (bom) moinho, referindo as consequências positivas e as reformas que o investimento e os incentivos proporcionaram a vários países de Leste na sua adesão à União Europeia, tornando-se países com mais e melhor esperança. Winston Churchill não era um teórico e no seu famoso discurso no Missouri em 1946 alertava já as recém fundadas Nações Unidas para o seu papel que deveria ser um exercício que fosse para além da retórica. Ele, Kasparov, insurge-se contra a hipocrisia, quando os líderes do chamado “mundo livre” (livre de quê?) promovem a democracia ao mesmo tempo que tratam os líderes dos regimes mais autoritários em plano de igualdade... Eu também. E estou de acordo com ele, quando diz que ainda se está a tempo de reconhecer a falha e enveredar por um, senão melhor (isso só o futuro dirá), novo caminho.

28.9.07

E com a fé não se brinca.

Conheci a Marília (o nome verdadeiro não é este, obviamente) em S. Paulo. Era uma das senhoras que tratava da limpeza e de servir os cafés na empresa onde trabalhei. Marília era (e espero que continue a ser) uma jovem mãe de três filhos, o mais velho era uma menina que devia ter na altura para aí 10 anitos. Os outros dois vinham em escadinha, como costumamos dizer. Jovem mãe e sozinha que o marido ao terceiro abalou (está visto que meteu saias) e ela nunca mais lhe pôs a vista em cima quanto mais numa mísera nota de cinco reais. A Marília vivia com os filhos na Favela Paraisópolis e, nas suas próprias palavras, rezava e dava graças a Deus todos os dias pelo menos por dois motivos: por ter um emprego (de empregada da limpeza!) à sua espera todas as manhãs e o salário no dia certo todas as quinzenas, e para que os filhos se mantivessem no caminho do bem e estudassem para terem empregos melhores que o dela. Um dia, daqueles em que à chuva se passa a chamar dilúvio, daquela chuva torrencial que arrasta tudo à sua frente, ouvi-a a rezar baixinho na copa da empresa, pedindo a Nossa Senhora Aparecida que lhe cuidasse da prole que tinha ficado sozinha em casa (o significado de casa nas favelas é algo diferente, para ser simpático, daquele que atribuímos quando nos referimos ao lar que nos espera no dito regresso a casa). Ela não me viu e eu, por respeito, ou por outro motivo que não consigo definir, afastei-me e deixei-a a sós na sua prece... a sós não, com a Nossa Senhora Aparecida. À hora de almoço, que o assunto não me saía da cabeça, comentei-o com um colega, acrescentando despropositadamente, a minha opinião sobre a situação insólita... feito estúpido, concluí eu, o senhor instruído, pouco depois de ouvir a explicação. Veja bem, caro Mike, ela não quer faltar ao emprego, o seu único ganha pão, pode até ter um celular, mas os filhos não têm de certeza e telefone em casa, se tem, o que eu duvido, hoje nem deve funcionar... veja bem companheiro, ela fica aqui num desespero e só volta para casa tarde, no final do dia, sem saber nada deles... e quando chega, o casebre está de pé e é recebida com os sorrisos dos seus três filhos... você está entendendo Mike?... depois de passar o dia a rezar a Nossa Senhora Aparecida... acha que ela deve isso a quem? que ela tem fé em quem? Entendi sim e engoli em seco... pois, vá-se lá dizer à Marília que a fé, tal como vem nos dicionários não existe... Eu cá nunca mais “brinquei” com a fé, principalmente com a dos outros.

Bem, haja fé num bom fim-de-semana, que é o que eu desejo a todos, incluindo a Marília.
;)

27.9.07

Será que tenho fé?

Fé... o mesmo que acreditar ou confiar, sem lhe estarem associadas evidências físicas reconhecidas pela comunidade científica. Fé... palavra que uso por vezes (não usamos todos nós?) desprovida de conteúdo, significado ou convicção religiosa. Tive fé que a minha filha se formasse, tive fé que o meu filho entrasse na faculdade, não tinha muita fé na adaptação do mais novo à nova escola, às vezes tenho fé no Sporting, outras não, não tenho muita fé (mas tenho alguma) que me saia o Euro Milhões este fim-de-semana... enfim, a minha fé parece que é diferente da fé verdadeira, da fé que vem nos dicionários, da fé de que se fala nas igrejas. Isso quer dizer que não é fé? É que ao meu acreditar ou confiar estão associadas evidências físicas reconhecidas pela comunidade científica. Tive fé na mais velha porque lhe reconheci trabalho e dedicação; tive fé no mais velho porque, a certa altura senti que ele acordou para a vida e o vi a estudar (e paguei explicações de matemática); não tinha muita fé na adaptação do caçula por isso mesmo, por ser caçula e porque mudanças de escolas antes dos três anos nunca são bem vindas (não preciso de nenhum psicólogo para saber isso); tenho fé no Sporting quando a equipa está a jogar bem, caso contrário a fé esbate-se ou vai-se, mesmo; e a pouca fé no Euro Milhões deixa de ser pouca para se transformar em nenhuma se não jogar (por falar nisso, há que pôr um lembrete no sacrista do zingarelho). Raios, alguém me ajuda? O que eu tenho é fé ou não? Então se é, como explicar o facto de lhe estarem associadas evidências físicas? Acho que o que eu tenho às vezes não é fé... é outra coisa qualquer. Então porque é que lhe chamo fé?

25.9.07

Os fins justificam os meios (?)

O título do artigo do Público, da autoria de José Victor Malheiros, é “50 por cento de notícias positivas”. O sub-título é “A ênfase nas notícias positivas tem fins diferentes na Rússia e no Ocidente, mas a tendência é a mesma”. Tentando resumir o artigo, e no que diz respeito ao lado russo, transcrevo a explicação que um editor da Russia News Service, a maior rede de rádio privada russa, deu ao New York Times: “Quando falamos de mortes, violência ou pobreza, isso não é positivo. Se a Bolsa subir, isso é positivo. Uma previsão meteorológica também pode ser positiva”. Para bom entendedor meia palavra basta e no Kremlin de Putin a liberdade, seja de imprensa ou outra qualquer, é um bem escasso, já a censura para perpetuar no poder que lá está e ampliá-lo, há de sobra. Ainda do lado russo e para finalizar esta tese do bem escasso, um director do diário Kommersant disse que o oposicionista Garry Kasparov (esse mesmo, o ex-campeão mundial de xadrez e actual chairman do United Civil Front) poderia perfeitamente ser entrevistado desde que concordasse em abster-se a fazer declarações extremistas. No Ocidente o ênfase nas notícias positivas é o mesmo em nome do interesse do público (não confundir com interesse público) e da necessidade de obtenção de lucros por parte das empresas. Aos jornalistas pedem-se notícias mais “positivas”, mais frescas, mais leves, mais alegres, com mais espaço para a beautiful people, de preferência sem pobres nem negros nas capas, etc, etc. Lá como cá, parece que os fins, apesar de diferentes, justificam os meios. E eu, que tal como o meu pai o fazia, olho de soslaio e com desconfiança para as notícias (não para os jornalistas), dou por mim quase a defender uma liberdade de imprensa que, sem me orgulhar disso, por vezes ponho em causa por muitas e variadas razões. Pelo sim, pelo não, acho que vou manter o papel de provedor em relação aos meus filhos, tal qual a censura que tanto critiquei no passado salazarista e continuo a criticar, no que diz respeito às notícias que lêem, ouvem e vêem. E não é que os fins justificam mesmo os meios?

19.9.07

Ela é a mais aterrorizadora Serial Killer que existe.

Anopheles é uma assassina solitária, actuando sozinha, geralmente em regiões rurais ou semi-rurais, no período da noite, entre o crepúsculo e o amanhecer. É temível, devastadora, mas até a desculpamos por não lhe reconhecermos a existência de inteligência, fazendo o que faz porque lhe está no sangue, o mesmo que procura nos humanos, infectando-o muitas vezes de forma irreparável ou fatal, principalmente quando de crianças se trata. Esta fêmea de mosquito, transmissora da malária não é inteligente, mas Jeffrey D. Sachs, director do Earth Institute da Universidade da Columbia, dá mostras de o ser, pela forma como aborda um dos 21 problemas na Foreign Policy – a Malária – e pela solução que preconiza para o debelar. A malária mata 7.000 crianças por dia (segundo o relatório da OMS, morre uma criança africana a cada 30 segundos!). Este ano, 1 a 3 milhões de crianças (o Continente africano é o mais devastado) morrerão, provavelmente como resultado da doença transmitida pelos mosquitos. Diz Jeffrey D. Sachs que não há desculpa para a falta de acção porque a malária é possível prevenir e é totalmente tratável. Na sua exposição, com uma óbvia carga humanitária, ele não deixa de abordar outros problemas colaterias como por exemplo o abrandamento da transição demográfica e o bloquear de passos para as populações sairem da probreza. No seu entender, um simples pacote de tecnologias poderia contribuir para se controlar a malária em toda a África até 2010. Ele e a sua equipa elaboraram cálculos que apontam para custos que uma África empobrecida nunca poderia pagar, mas que não passam de trocos para os países ricos. Estamos a falar de 3 dólares por pessoa, cerca de 2,5 euros, os quinhentos paus da ordem que não chegam para eu comprar os dois maços de tabaco que consumo por dia. Não há desculpa para a falta de acção. De facto, não há.

África (XII). A teoria (e a práctica) da batata (que ficou por explicar).

Samarra vestida e apertada até ao último botão, gola puxada para cima, gorro montanhês na cabeça e passa-montanha no bolso, não fosse o cacimbo apertar durante a viagem feita no robusto, barulhento e lento Willys, sem portas nem janelas que se fechassem, quanto mais chaufage que os aquecesse durante os 150 quilómetros que os esperavam. Tempo para uma breve despedida da mãe e do irmão que não conseguia esconder um olhar de inveja. O sol já se tinha posto e o pai, que gostava de conduzir de noite, levantou a cabeça para o céu carregado, prenúncio de uma viagem molhada. Sem chuva normalmente chegavam ao Balombo, onde dormiam em casa do tio Doro (na realidade o nome do tio era Teodoro), por volta das nove da noite, mas com chuva, mesmo que fosse a molha-tolos, não chegariam antes das onze. Poucas horas de sono até à alvorada sem despertador que a dormida era de portadas abertas e o sol não pedia licença para entrar. Nessas manhãs, lá no mato, até o velho e rabugento galo se enervava, tal era a madrugadora azáfama, mesmo antes dele afinar as cordas vocais para o cantar matinal. Rebolava-se a rir com a cara do pobre galo, de bico baixo e ramelas ainda nos olhos, quando uns sonoros pontapés na capoeira o faziam erguer da cama de palha na companhia de meia dúzia de damas que também alvoroçadas com as biqueiradas, cacarejavam loucas, ainda só um pedacinho do sol que se erguia se vislumbrava no horizonte a perder de vista. Sorriu quando o pai, depois de mirar o céu, desviou o olhar para ele. Estão duas batatas no jipe, pai. O sorriso retribuído pelo pai foi recebido com o orgulho de um rapaz feito homem, que os preparativos da caça eram responsabilidade sua e nunca, jamais, se poderia esquecer desse detalhe. Nessa noite era quase certo que dariam uso a pelo menos uma delas porque o limpa pára-brisas não era fiável e se a chuva se tornasse chuvada ou intempérie, a batata cortada ao meio e esfregada no vidro faria o seu efeito. Prontos para a aventura, que na cabeça dele a viagem tinha esse nome. Só faltava prender os cinturões um ao outro que cintos de segurança só os vira nos aviões, não fosse ele adormecer, terminando borda fora numa curva mais apertada. A chuva, ameaçadora, acabaria por chegar nessa noite, escura e sombria, iluminando o sorriso feliz do rapaz.

“Ao deixar que os mercados controlem os nossos destinos, perdemos de vista o que significa ser suficientemente rico”. (Howard Gardner)

Volto com a Foreign Policy agora partilhando um artigo de fundo, mais denso que o de Cuba de Fidel e que aborda um tema pertinente através das opiniões de pensadores reputados e credíveis: 21 Soluções para salvar o Mundo. Nesse artigo são colocados 21 problemas para os quais são apresentadas 21 soluções. Problemas relevantes que vão desde a convivência com regimes ditatoriais até à malária, passando pela pobreza, SIDA, segurança na internet, guerra contra o terror, desigualdade, etc. Escolhi a desigualdade onde Howard Gardner, professor de Conhecimento e Educação na Harvard Graduate School of Education aponta o dedo à situação dos “escandalosamente ricos” e expõe a solução por ele preconizada. Porquê? Porque me considero um liberal, por ser um defensor da liberdade dos mercados e porque o artigo teve o condão de me ter posto a pensar sobre estas minhas crenças. “Ao deixar que os mercados controlem os nossos destinos, perdemos de vista o que significa ser suficientemente rico”. É assim, com esta visão, que Howard Gardner abre as hostilidades àcerca do problema da desigualdade, desenvolvendo o tema com a propriedade de um estudioso, acrescentando que a acumulação e transmissão de riqueza entre gerações nos Estados Unidos já foi longe demais. Exemplos dá vários, mas retive aquele em que ele menciona a realidade de um jovem director dum hedge-fund conseguir levar para casa uma soma próxima do PIB de um pequeno país, acrescentando que quando isso acontece alguma coisa está errada. E está, de facto. Ou de um empreendedor que subiu a pulso (como eu aprecio) poder acumular uma fortuna que lhe permita, na realidade, comprar esse país. Por fim o catedrático aponta duas soluções pragmáticas (se bem que os números estejam longe da realidade que se vive por cá). Primeiro, nenhuma pessoa singular devia ser autorizada a levar para casa anualmente mais de 100 vezes o dinheiro que um trabalhador médio leva no mesmo espaço de tempo. Os números são estes: 40.000 dólares Vs 4 milhões de dólares. O rendimento que excedesse esse valor seria devolvido ao estado, revertendo para instituições de carácter social. Em segundo lugar, nenhum indivíduo devia ser autorizado a acumular um património 50 vezes superior ao rendimento anual autorizado, o que equivale a dizer que ninguém poderia transmitir aos seus herdeiros mais de 200 milhões de dólares, sendo que o excedente seguiria o caminho já apontado. Howard Gardner relembra àqueles que gritam “nem pensar” a tais limitações de riqueza pessoal, que há 50 anos atrás, apenas 50, tais propostas teriam parecido razoáveis e até generosas e acredita que seriam aceites rapidamente, com as pessoas a interrogarem-se porque não estavam já em vigor. Como ele e enquanto tecido social, acredito que nenhum indivíduo ou família deveria ter o direito de acumular riqueza sem limites. É que parte desses milhões, ou biliões poderiam ser aproveitados para, por exemplo, começar a resolver problemas e, quiçà, a salvar o mundo. Acho que voltarei aqui, com a Foreign Policy e mais alguns dos 21 problemas e respectivas soluções.

17.9.07

Foi Fidel bom para Cuba?

Há uns dias atrás tive o raro privilégio de ser a pessoa a quem foi emprestado o número zero de uma revista recentemente lançada, FP de seu nome (Foreign Policy), dedicada a assuntos de política global, economia e ideias em geral. Àparte a língua brasileira erudita com que são escritos a maior parte dos artigos, que aqui e ali soam... eu diria esquisitos (mas admito que a culpa seja dos meus ouvidos), apreciei ler alguns deles e passar os olhos noutros. Sou fã confesso desse pequeno país caribenho, dos cubanos, do carisma e da atmosfera de Havana, nem tanto do regime, que na adolescência colhia a minha simpatia, culpa do Chê e de Fidel, das suas aventuras, coragem e luta pela liberdade. Comecei por passar os olhos, na diagonal, e detive-me num artigo cujo título, uma pergunta que muitos de nós já colocámos, espicaçou a minha curiosidade, até porque o tempo do verbo ir é usado no pretérito, como que adivinhando o que um dia, que já esteve mais longe, acontecerá a Castro. Foi Fidel bom para Cuba? A resposta era dada no artigo em forma de debate entre dois respeitáveis intelectuais cubanos – Carlos Montaner e Ignacio Ramonet, com o primeiro a defender que não, que Fidel não tinha sido bom para a sua pátria e o segundo a cair em defesa do contrário. Montaner defendia a sua tese desenvolvendo quatro capítulos – O comunismo falhou em Cuba; Os cubanos estão pobres e escravizados; O fim de um triste capítulo e Cuba Livre. Ignacio, por sua vez, cai em defesa de El Comandante e do regime abordando e desenvolvendo diferentes capítulos – O futuro de Cuba está aqui; O invejável percurso de Castro; Vendo a verdade e Viva Fidel. Armei-me em juíz de uma causa que não é minha porque senti a necessidade de responder, apenas para mim, à pergunta que dava início às hostilidades, exigindo a mim próprio um sim ou não, como se não soubesse que a História é pródiga nestas coisas, e “nestas coisas”, há por vezes um talvez sim e um talvez não. Reli um dos capítulos (Cuba Livre), fixei-me em dois ou três parágrafos, peguei no martelo, mandei calar a audiência e proferi a sentença em silêncio: Não. Fidel não foi bom para Cuba. O que diziam esses parágrafos? “Julgar meio século de uma ditadura incompetente segundo as operações que faz às cataratas é um argumento fascista como o que caracterizava os apologistas de Franco: a sua ditadura foi boa porque os espanhóis conseguiram comer três vezes por dia. Argumento também utilizado pelo regime racista sul africano: o apartheid era bom porque os negros não eram tão pobres como os dos países vizinhos. A ditadura de Fidel foi boa porque emprestou médicos ao Terceiro Mundo”. A cegueira ainda não tomou conta de mim e sei reconhecer o que Fidel fez por Cuba, mas sim, conheço bem esse rol de argumentos... que nunca me sensibilizaram. E o bem que se fez não justifica o mal que se faz.

Que coisa mais fora de moda...

Amante de raguebi e ex-praticante, mas desconhecedor, confesso, de algo que li hoje num jornal, num artigo que fazia alusão ao desempenho da Selecção Nacional no Campeonato do Mundo que está a decorrer em França. Li eu, que um (quiçà o melhor) jogador de raguebi do mundo, neozelandês, claro, apesar de ser ainda jovem adiou a sua partida para paragens europeias, onde poderia jogar como profissional em equipas de tôpo francesas ou inglesas, por querer permanecer All Black por mais algum tempo. É simples: para se jogar na Selecção da Nova Zelândia, seja o melhor do mundo, ou um dos melhores do mundo, tem que se jogar no seu país. Quem joga lá fora deixa de poder ser All Black (a melhor equipa do mundo da actualidade). Irra, que mentalidade... que princípios mais esquisitos... que atitude mais fora de moda...

13.9.07

Africa (XI). A Terra é redonda.

O apelido de Joseph Thomson, o primeiro europeu a empreender a travessia de território queniano entre Mombassa, na costa oriental e banhada pelo Índico, e o Lago Vitória, deu o nome a umas quedas de água – Thomson Falls, que originalmente se chamavam Nyahururu Falls (e ainda se chamam). As Thomson Falls, assim me foram apresentadas pelo meu guia (esse mesmo, o Youstous) situam-se em pleno equador. Se olharmos para o mapa, meu companheiro inseparável nessa viagem, essa linha imaginária que divide o planeta em duas metades, atravessa as Thomson Falls, que incluí no itinerário da viagem sem saber bem porquê, mas não me arrependi de estar ali não só pelo que os meus olhos viam, mas também porque o meu pensamento me levou a imaginar a travessia daquele explorador nos finais do século XIX. Youstous, contudo, encarregar-se-ia, nesta altura as cerimónias já tinham ficado algures perdidas na savana africana, de tornar aquele dia inesquecível e não pelas razões ou belezas naturais que nos tinham ali levado. Perguntou-me se me podia levar até perto de Nanyuki, cidade conhecida pelos viajantes por ser lá que está o famoso Mount Kenia Safari Club, no qual consta uma lista de membros assinalável (Winston Churchill, Bing Crosby, Bob Hope, Hemingway, etc). Se é para me mostrares o Clube, agradeço-te mas não estou interessado. Sabes, quando marquei a viagem podia ter incluído uma noite lá... e tenho a certeza que deve ser fantástico, com uma atmosfera impressionante. Mas estás-me a ver, a mim, aqui no mato, a ter que vestir um blaser e a não poder usar jeans na sala de jantar? Ele deu uma gargalhada contagiante e ainda a rir balbuciou que não, que não estava a ver, mas insistiu em levar-me pela estrada que chega a Nanyuki pelo sul e atravessa o equador. Esclarecidas as coisas, porque não? vamos lá embora para não chegarmos, já noite, às tendas onde iríamos pernoitar. E fizemo-nos à estrada na Bedford matreira que nesse dia bufava que nem uma louca. Lembro-me de estar um calor insuportável, abafado. Já próximos de Nanyuki, a beira da estrada apinhada de gente, uns a vender, outros a comprar, motoretas carregadas, crianças a brincar, Youstous afastou-se do burburinho e parou. Enquanto se dirigia à bagageira da van ia dizendo, aqui passa o equador, aqui mesmo. Aí mesmo onde estão os seus pés, acrescentou quando me viu apeado, ele já de funil numa mão e garrafa de água na outra. Onde é o hemisfério norte? atira-me com um sorriso desafiador, eu ainda baralhado com tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo. Arrisquei e acertei. Venha comigo, vamos dar 50 passos daqui (da linha imaginária do equador) em direcção ao hemisfério norte. Fui seguindo as instruções: segurei o funil direito enquanto ele deitava água, olhei para a parte de dentro do funil e vi a água a sair. Para que lado roda a água no interior do funil? deixa lá ver... para a esquerda. porquê Youstous? Não houve resposta, apenas mais uma instrução. Agora caminhemos ao contrário, os mesmos 50 passos. Vamos fazer o mesmo mas no hemisfério sul... e não é que a água do funil, ao sair roda para a direita? Pasmei, ele riu-se, voltámos à Bedford e ao arrancar diz-me sem tirar os olhos da estrada e entre uma gargalhada bem disposta, a terra é mesmo redonda Mr. Mike. Eu sei Youstous, eu sei, já Plínio aceitava a ideia, Ptolomeu desconfiava e Pitágotas achava que sim. Mas tu mostraste-me à tua maneira, sem ter que ler num livro, ver num documentário ou numa fotografia do espaço tirada por uma qualquer nave espacial. Não me arrependi de ter ido para ali, de estar ali, nos confins de uma África onde não estão as minhas raízes.

Ele há jogos e jogos mas fair play devia haver sempre.

Ele há jogos, e quem gosta de futebol, percebe minimamente da coisa e costuma ir ao estádio ver jogos, aí temos uma noção diferente do que se passa em campo face ao que vemos na televisão, entenderá o que que eu quero dizer. Dizia eu, ele há jogos em que a equipa que está a ganhar, mesmo sem dominar o jogo, mas controlando-o, nos transmite uma sensação de segurança absoluta, deixando-nos tranquilos mesmo quando são marcados 2 ou 3 cantos seguidos perto da sua baliza. São daqueles jogos (e daquelas equipas) que, mesmo a um quarto de hora do fim já nos deixam a pairar o sentimento calado este já cá canta, os 3 postos já não fogem. Há outros jogos (e outras equipas) em que, mesmo estando a ganhar por 2-0 em casa a 5 minutos do fim e com um domínio aparente, nos deixam num constante sobressalto, sem conseguirmos afastar um pensamento pessimista. Se eles (os adversários) marcam agora ainda acabamos por perder nos descontos. Eu, sportinguista já estou habituado, sei bem do que falo, o que faz com que eu, português, não tenha que me habituar. Infelizmente. Independentemente de uns ou outros jogos (umas e outras equipas), há uma coisa que aprecio (proporcionalmente ao tempo que vai passando por mim), seja porque fui educado assim, seja pelo facto de ter sido desportista desde que me lembro: fair play. E há outra coisa que, fruto do pragmatismo cultivado ao longo do tempo desportivo e da vida, aprendi a assumir mesmo quando as circunstâncias o tornam penoso: não se ganha bem nem mal, ganha-se. O mesmo aplica-se nas derrotas e nos empates.

Aproveito para esclarecer que qualquer semelhança ou aproximação do que aqui está escrito com o jogo da Selecção Portuguesa de ontem é uma mera coincidência.

11.9.07

África (X). Às vezes o mar não estava pelos ajustes... havia que enfrentá-lo, sem medos.

Meninos armados em homens, que dos fracos não reza a história. Os rapazes mais cobardolas (conscientes) ficavam-se pelo olhar em terra firme, os mais temerários (inconscientes) avançavam, com um sorriso desafiador e postura de herói, para o mar revolto com as ondas a bater nas rochas ponteagudas do esporão. E não era água mole em pedra dura, era água rija com os salpicos severos e a espuma agreste a voar a muitos metros de distância. Coisa de machos (inconscientes), calções de banho vestidos com cinturão de chumbo à cintura, troncos nus, máscaras de mergulho nas caras (quem precisava de barbatanas e respirador?), um arpão já gasto pela ferrugem numa mão e a outra livre com uma luva calçada, de preferência com marcas de pescarias sub-marinas... quem conseguisse provar que eram mordeduras de moreias avessas a visitas inesperadas aos seus covis, era o mais respeitado. Três ou quatro corajosos (sempre que as palavras corajosos, temerários, intrépidos, etc, aparecerem aqui escritas, deve ler-se inconscientes) aventuravam-se a entrar no mar e os outros, os mais sensatos e os mais novos ficavam no esporão com as redes de recolha da pesca. A aventura começava logo na entrada para o mar, que não dava para mergulhar, sabia-se lá que rochas ele escondia e não fossem despedaçar-se contra uma delas... intrépidos mas não tanto, por isso havia que entrar na água com calma, o que fazia com que incorressem noutros perigos, como por exemplo, serem atirados de volta ao esporão por uma onda que, adivinhando os intentos da rapaziada, revelava uma amizade ancestral pelos pobres lagostins. Como é que é? vamos lá para dentro ou hoje ficas cá fora com a rede na mão? Este era o sinal, a trombeta que soava nos ouvidos e para a qual havia apenas uma resposta: vamos e é já! Duas horas passadas, que as águas tropicais são quentes mas o corpo pede a sua temperatura original depois de algum tempo no mar, e era vê-los, orgulhosos a sair da praia, atravessando a avenida de regresso a casa, já o sol ia alto, com os lagostins pescados (eles diziam caçados... coisa de meninos armados em homens) e que iam oferecendo à vizinhança até chegarem a casa, não fossem os pais saber que eles se tinham aventurado pelo mar dentro nesses dias em que ele não estava pelos ajustes... mar encapelado como se diz por cá.

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