A desconversar é que a gente se entende

segunda-feira, 30 de Junho de 2008

O hábito faz o monge. Que monge?

Desde cedo que as nossas vidas e os nossos quotidianos são feitos de hábitos que vão dando origem a rotinas. Porque a vida é mesmo assim, e mais vale convivermos bem com os hábitos que combatê-los de uma forma geral. Há prós e contras, mas a maneira usual de sermos ou fazermos e a forma acostumada de encararmos o dia-a-dia facilita a organização diária, sem a qual a nossas vidas seriam um desgoverno abeirando-se do caos. Depois há o hábito que faz o monge e com isso a rotina. Aquele caminho já trilhado e sabido, que tem tanto de confortável como de entediante, e que nos leva invariavelmente a uma prática constante, seguindo normas estabelecidas por outros ou por nós próprios. Há hábitos bons e hábitos maus, apesar da carga subjectiva que preside a esta afirmação. Este fim-de-semana, um dos títulos que tive a oportunidade de ler ao longe, no jornal Expresso que estava nas mãos de outra pessoa, era “porque nunca ganhamos?”, referindo-se, julgo eu pelas imagens, ao Campeonato Europeu de Futebol. Porque não adquirimos esse bom hábito, o de ganhar, pensei de imediato. Há outros hábitos bons por tudo aquilo que contribuem para o nosso bem. Ou seja, o hábito que faz o monge, pode ser um bom hábito e exercitá-lo deveria ser uma rotina, uma boa rotina. O hábito de ler, o de conversar, o hábito de dar afecto, o de pensar nos outros, o hábito de educar, o de fazer sexo, o hábito de nos alimentarmos bem, ou de levarmos uma vida saudável, ou de amar, e por aí adiante. Nem sempre estas práticas são desejadas ou nem sempre, e muitas justificações haverá, temos vontade de as colocarmos como rotinas nas nossas vidas. E quem não tem ou não pratica, não sente a falta e habitua-se a viver sem isso. A fronteira é muito ténue entre o que parecemos controlar e o que perdemos. O que acontece a quem perde o hábito de ler? ou a quem perde o hábito de conversar? Como se torna a vida de quem perde o hábito de dar afecto? ou de pensar nos outros? Que consequências advéem para quem perde o hábito de educar? ou de fazer sexo, ou amor?, chamem-lhe o que quiserem. Como será a saúde de quem perde o hábito de se alimentar bem ou cuidar dela? Depois há os maus hábitos, mas com o mal dos outros, ou os hábitos maus dos outros, passamos nós bem, por isso esses monges não são para aqui chamados. É bom de ver que se os hábitos nos levam às rotinas, também as há boas e más. E a tal fronteira é, também, muito ténue. O meu pai sempre me disse que não podemos estar à espera que alguma coisa mude se a fizermos da mesma maneira como sempre a fizemos. Algo a opor? Não me parece. Contudo desconfio sempre quando me falam em quebrar rotinas ou na necessidade de as quebrar. Então quando se trata de casais, a minha desconfiança toma proporções que fazem adivinhar a desgraça alheia. Nem sempre pensei assim e, durante muitos anos, vivi ansiando por quebrar rotinas. Hoje adopto outro comportamento, orientado por uma atitude diferente e que requereu disciplina e exercício. Ao invés de as quebrar, prefiro saboreá-las. A essas mesmo, às rotinas que tantas vezes ansiamos quebrar em vez de as saborar.

11 comentários:

ana v. disse...

Boa reflexão, Mike. Também acho que a ânsia de mudança permanente vai abrandando com o tempo e a maturidade, como aconteceu consigo e como acontece com quase toda a gente. Concordo que as boas rotinas devem ser alimentadas e saboreadas, porque nos equilibram e dão segurança. Mas as más rotinas devem, sim, ser quebradas, porque nos adormecem para nós próprios e sobretudo para os outros. Há automatismos que são perigosos (não é o caso de nenhum desses que refere, evidentemente), que nos tornam preguiçosos e desatentos, avessos às mudanças que temos de encarar.
Por algum mecanismo estranho, é mais fácil que os maus hábitos se transformem naturalmente em rotinas do que os bons, que exigem mais atenção. Porque será?
E mesmo as boas rotinas se podem temperar com alguma inovação, para não descambarem em tédio e indiferença.

Júlia Moura Lopes disse...

vou ler melhor amanhã, estou com sono e não consigo concentrar-me.

para já, concordo com a Ana :-)

Luísa disse...

Mike, estou a pressupor que distingue os hábitos das rotinas, no sentido de que tem hábitos quem faz sempre e tem rotinas quem faz sempre da mesma maneira. Neste sentido, sou muitíssimo favorável aos hábitos. Mas menos às rotinas, que reservaria para o que pode fazer-se mecanicamente, não exigindo especial envolvimento intelectual ou emocional (como a higiene, a prática desportiva, etc.). Acho, de resto, que o que sustenta os hábitos de conversar, de ler, de dar afecto (em todas as suas modalidades…), de educar ou de trabalhar é o sentimento de que nos trazem sempre algo de novo. Ou seja, saborear uma rotina implica negar-lhe o factor rotineiro. Mas estou cada vez mais enrolada no pensamento, Mike. É a falta de hábito... ou a cedência à rotina. :-)

O Réprobo disse...

Questão prévia. Quem me dera ser tão optimosta como a Luísa e ver em toda a gente a higiene feita mecanicamente...
Depois, não discordando de nada do que foi dito, parece-me que as repetições na intimidade são apaziguadoras ou odiosas conforme a noção do Parceiro (é o vocábuloo do momento, neste mundo de batota, não?) que se esteja a formar inconscientemente seja agradável ou insatisfatória. Quer dizer, num casal o conteúdo positivo ou negativo do repetir não é causa, mas consequência.
Abraço

ana v. disse...

Acho que a Luísa toucou no ponto certo: há que distinguir hábitos de rotinas, e repetições conscientes e voluntárias de puras mecanizações.

mike disse...

Ana, Luísa e Caro Réprobo, contrariando um bom costume da blogosfera - e assim se quebra um (bom) hábito ;) - a minha resposta não será individual. Acrescente-se a Júlia que, apesar do sono, diz concordar com a Ana. Estamos de acordo com um ponto prévio: hábitos são uma coisa e rotinas são outra. Talvez devesse ter sido mais claro. :) Sobre os hábitos, e apenas motivado pela leitura do Expresso alheio, o que queria dizer é que os bons devem ser cultivados e exercitados sob pena de se perderem coisas que nos são gratas ou necessárias. Como por exemplo o uso do cérebro, que considero erradamente um músculo. Não se exercita, pára ou fica preguiçoso. Outros exemplos haverá mas acho que os meus queridos comentadores são belíssimos entendedores por isso 1/4 de palavra chega. Relativamente às rotinas, todos as temos e todos as construímos. No meu caso muito pessoal, o que queria dizer é que, no passado e envolto pelo stress diário, o banho das crianças, por exemplo, poderia tornar-se num tormento. Hoje, apaziguado e com a devida dose de exercício interior, saboreio essa rotina. Em resumo, que esta resposta per si está a transformar-se noutro post, o que queria dizer é que depende de cada um de nós vestirmos o hábito certo e tornarmo-nos num monge melhor, de acordo com a consciência de cada um.
Ah, e um dos bons hábitos, que não quero perder, antes cultivar, é agradecer os vossos comentários enriquecedores. :)

Júlia Moura Lopes disse...

Oh, Mike esta discussão é mesmo boa.
Lembrei ontem ao deitar que Freud dizia que "o hábito é uma segunda natureza".

Na verdade, eu apesar do sono, afinal entendi tudo direitinho,mas não sabia (saberei?) o que pensar.
Umas vezes sou uma mulher de hábitos, outras odeio repetições. Acredito em Nistche, nada se repete, mas já repeti até namorado!!!

há rotinas boas e más.

mike disse...

Júlia, :)
Eu também já repeti namorada. E desconfio de algumas verdades absolutas de alguns filósofos que, dependendo do momento em que as lemos, nos parecem acertadas. :)

Júlia Moura Lopes disse...

mas eu tripliquei :-)

portanto, "estou feitó monge" :-)))

ligia disse...

gostei muito do seu blog

posso copiar seu artigo sobre hábitos para o meu blog?

e como faço pra te seguir, seguir teu blog?

Anónimo disse...

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