17.11.09

Muros.

Exceptuando os muros que os meus pais ergueram no legítimo exercício de educadores, eu não tive um muro, como a Luísa e a Cristina descrevem, partilhando memórias gratas de uma infância feliz. Gostei de ler, mas não gosto de muros. Em Angola não era hábito construirem-se muros. Ao contrário das suas aldeias, os colonos idos da Metrópole encontraram quimbos sem muros. As fotografias que a minha mãe me mostra de cidades com casas sem muros no interior de Angola nos anos 20, levam-me a crer que quem para lá foi absorveu a cultura africana e a mentalidade dos nativos. A quinta da família do meu pai, em Chaves, tinha muros. Mas nunca os considerei meus, nem nunca gostei ou me habituei a eles, e foram tantos os que encontrei quando cheguei a Portugal. Os muros têm algo de medieval que não me agrada. Tal como as aldeias. A minha aldeia, aquela que a GJ gentilmente inventou para mim, não tem muros. Ao contrário do que acontece por estas paragens, em que o mar parece ter fim quando toca o céu, na minha aldeia a linha do horizonte permanece o que é. Imaginária. Até quando faço construções de Lego com o meu mais novo raramente sobram peças para se erguerem muros. Excepção feita às fortalezas construídas para os Gormitis, mas aí estamos a brincar às guerras. Entendem-me?

11 comentários:

fugidia disse...

Ah!, mas com os muros que construímos, reais ou verdadeiros, não estamos sempre a brincar "às guerras", Mister...?
:-)

Patti disse...

Entendo Mike.
Mas ia dizer quase o mesmo que a Fuji: os muros que nascem têm muito a ver com guerras bem fechadas, infelizmente. E têm muito pouco de horizonte limpo e aberto.

GJ disse...

Interessante o que diz. A ideia com que eu fiquei após este tempo no Brasil foi a mesma. Ainda ontem eu fazia o seguinte comentário: aqui tudo se esconde e não é possivel trabalhar lado a lado com a concorrência, colher informação e discutir ideias. Em S. Paulo, num dos locais onde estive, ninguém telefonou a dizer que iamos subir e a entrada numa área que aqui seria muito sensível, era de perfeita abertura. Todo o outsourcing que é entendido, não apenas como prestação de serviços, mas como espaços que podem ser partilhados sem medo que o outro leve o projecto ou o venda a terceiros. E também a não necessidade de identidades e empresas demarcadas por espaços fisicos.
Também fiquei com a ideia que os muros não têm lugar e também é por isso que em casos extremos, e do lado negativo se considera o espaço público de todos podendo-se usurpar o que não nos pertence.

Mike, desculpe este post que vou ter de fazer no meu lugar, porque também não sei se se entende bem o que estou para aqui a dizer:)))

Mike disse...

Fugidia,

Pois estamos. E foi (e continua a ser) o que estranhei em Portugal quando cá cheguei. Vizinhos parecendo que estão em guerra. Bastam 3m de quintal e levanta-se um muro. :/

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Patti,

Quase diria que temos aqui, também, um mistério. Mas não. Houve coisas que não mudaram passados 35 anos. Sabe que é disso que continuo a sintir falta quando penso em África? Do que isso representa. :)

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GJ,

Então não havia de entender? Sabe que a minha mais velha encontrou um continente onde há poucos muros e isso a deixa feliz? :D

p.s. - não desculpava se não tivesse escrito (antecipado) o post. ;)

Luísa disse...

Mike, permita que lhe aponte alguns subtis «sinónimos» de muro: tapume, sebe de buxo, escritura de propriedade, xixi de leão… São «separadores de águas», Mike, e também existem na natureza. Se eu tivesse uma casinha de campo, rodeava-a de roseiras,… das que têm os seus espinhos. ;-)))

Mike disse...

Obrigado, Luísa.

Por momentos pensei que incluiria contentores... uff!
Saiba que gostei dos subtis sinónimos de muro. ;D
Vou pensar como rodearia a minha casinha de campo... (risos)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

aqui, quando não há muros, inventamos.

Mike disse...

Pois, Carlos... nem mais.

cristina ribeiro disse...

Tudo depende do muro; se há coisa linda nesta aldeia onde vivo, são os muros antigos, de granito escurecido pelo tempo, com heras a trepar - visualmente, um encanto, e não simbolizam qualquer separação entre as pessoas.
Muitos deles protegem-nos de cair aos campos, que estão sempre num nível mais baixo. E " naquele " meu muro havia flores roxas. E fetos.

Mike disse...

Bem sei, Cristina.
Já disse de minha justiça, cuidando de respeitar a justiça de outros... como a sua.
Obrigado pelo seu comentário. :)

bacouca disse...

Mike,
Se o compreendo: também não gosto nem estou habituada a muros! Mas e felizmente muito poucas vezes, quando me sinto ameaçada é muro e fosso (à medieval!)
Xi

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