15.9.09

Gosto desta história, igual a muitas outras de África.

Ela era uma menina de educação esmerada, pertencendo a uma certa fidalguia, casada com um músico talentoso, regente de orquestra. Partiram para África, acompanhados do filho, um jovem adulto empertigado. Angola foi o destino escolhido, depois de terem decidido virar as costas à balbúrdia da primeira república. Monárquicos convictos, jamais se adaptaram ao novo regime. Viveram no interior de Angola, abandonando o conforto material, com a mesma dignidade, optimismo e atitude como tinham vivido, principescamente, em Alcobaça. Os princípios e valores, se dúvidas houvesse, revelaram-se quando a lavadeira, uma bonita jovem preta deu à luz uma menina mestiça, filha do jovem empertigado. Enfrentando o embaraço social (estamos a falar dos anos 20) e sem hesitarem, manifestaram abertamente a sua postura. Não interessa se é filha da lavadeira, o que interessa é que é nossa neta. E criaram-na. A lavadeira, iletrada e analfabeta, desejou para a filha mais do que a vida lhe tinha proporcionado e deixou que os avós cuidassem da menina. Quem viveu em África sabe que não foi uma decisão nada, mas mesmo nada, fácil. Lá, por mais paradoxal que pareça, as mulheres têm a primazia. A menina cresceu, fez-se mulher, casou-se com um jovem trasmontano que tinha decidido, também ele, fazer pela vida naquelas longínquas paragens. Tiveram dois filhos, que são a quarta geração de uma história que me é grata.

Foto: Bimbe (Lobito ao amanhecer)

32 comentários:

cristina ribeiro disse...

Que linda homenagem aos seus avós ( e há quem diga que os portugueses são racistas!... ) e aos seus pais, Mike :)

Mike disse...

Obrigado, Cristina. :))
No meu caso, esta homenagem estende-se aos bisavós, os monárquicos que abalaram para Angola e deixaram vincado o seu carácter nos anos 20. A minha avó materna era a lavadeira, que mostrou ser uma senhora, apesar de analfabeta. :)

Luísa disse...

A história já me era parcialmente familiar, Mike (sabe que Portugal é uma aldeia e Trás-os-Montes um lugar). Mas é sempre muito interessante, e frequentemente muito bonito – como é o caso - ir recuando mais e mais no tempo. :-)

GJ disse...

O mais bonito da história é a forma como o bisneto vive o relato que lhe contaram.:-)

Mike disse...

Oh meu Deus!... a Luísa tem uma costela trasmontana e conhece a história do meu pai, e da família do meu pai, e da minha mãe, e da minha família toda, e... (riso nervoso miudinho) ;)
Eu não sou, como também já deve saber, pessoa para grandes recuos no tempo, mas a filha da lavadeira encarrega-se disso. :))

Mike disse...

GJ, :))

GJ disse...

As mães, Mike, as mães... andam sempre a contar as mesmas histórias...assim ficam com a certeza que os filhos não as esquecem ;)
Mãe tem sempre a redea curta, vai é dando umas folgas de vez em quando!

Dulce Braga disse...

Linda história, contada por este filho do Lobito e neto do Bailundo!

mike disse...

As mães são uma praga, GJ. (muitos risos)
... acho que este comentário me vai sair caro, não acha? (glup) ;)

mike disse...

Acertou, Dulce. :)
Mas a menina já sabia, não é? ;)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Lobito? Há qualquer coisa aqui que me é familiar...

GJ disse...

Acertou, ainda vai ficar mais entalado com esta do que com a globalização (risos)

mike disse...

Carlos,

Não querem lá ver isto? A Luísa, sabe a história toda da minha família trasmontana, a Dulce é angolana, da terra da minha mãe, ao Carlos o Lobito é-lhe familiar... olhe se me tivesse dado para inventar... ;)

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GJ, até estou com nervoso miudinho. (risos)

cristina ribeiro disse...

Ao dizer avós, Mike, é claro que incluía os seus bisavós :)

mike disse...

Cristina,

Ao reler o seu comentário, já depois de lhe ter respondido, fiquei com essa percepção. :)

Dulce Braga disse...

Sei não Mike, se a sua avó não é do meu Kimbo?!?!?

ana v. disse...

A ternura e o orgulho na história da família traem a tua mania de desvalorizar o passado e as memórias. Gosto disso.
E com isto começas a dar-me razão: competência, em matéria de sentimentos, não chega! Falta-lhe a emoção, que aqui abunda...
(mas admito que chegou para a forma como contaste a história, que é muito bonita)
:-)

Patti disse...

Fantástica história, Mike. Esse orgulho e emoção com que fala, revela um homem bom.
E isso hoje, é difícil de se ver.

mike disse...

(gargalhada)
Lisa, se calhar é. :D

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Ai Ana lá vens tu com a mania de mandar a competência abaixo, miúda. Safa que és teimosa, moça. ;)
Obrigado. :)

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Obrigado, Patti.
Sou um anjo, está a ver? Ou será que há diabinhos com asinhas? ;)

ana v. disse...

Eu não mando a competência abaixo, miúdo. Apenas a remeto à sua real dimensão, nada mais... :-)

Mike disse...

Está bem, pronto. Mas és teimosa, livra. (risos)

Dulce Braga disse...

Xiiihhh... Mike...estes comentários tão deixando vc doidinho! Lisa por acaso sou eu? :)))

GJ disse...

Mais um bocado e estamos no tema da aldeia e da terra. Eu bem sabia que a terra era algures. Trás-os-Montes, pois claro.
E olhe, que os seus antepassados bem que os levaram e transmitiram. Transmontano é casmurro e de poucas palavras, mas que é directo e verdadeiro, e honra a palavra também é verdade.:)

fugidia disse...

Igual, igual... mais ou menos: a minha é mais rebuscada e vai buscar um filho ilegítimo de um altíssimo cargo na Índia "portuguesa" que se juntou com uma cabo-verdiana de quem teve quatro filhos: despachou-a, ficou com os filhos e mandou vir esposa de portugal :-D
A mais velha dos quatro (minha avó) casou com um cavalheiro fantástico de Viseu e a filha dela (minha mãe) com um transmontano; ok, aqui a parte já é igual e eu até sou de Benguela :-)

mike disse...

Dulce,

A culpa é vossa. Vocês dão comigo em doido! (riso nervoso)

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Mike disse...

GJ,

A senhora tinha que vir com essa conversa da terra e da aldeia. Sobre a minha terra (sim que eu tenho terra, está é longe) já escrevi em tempos, mas aldeia não tenho e também já disse (e expliquei) que não sou fã de aldeias. ;)

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Fugidia,

Cá me parece que a menina também é arraçada. (muitos risos)

bacouca disse...

Mike,
Em África tudo é (ou era) possível!
Eu nasci lá, precisamente em Angola, e amigos dos Pais a quem chamavamos Tios ( Sou cota? SOU!)tinham histórias idênticas à sua. Sabe que eu acho que para África emigrou dois tipos de pessoas: os corajosos e os que pretenciam a uma certa classe social. Diferente de emigração para França, Suiça, etc. Eram também corajosos mas mais humildes.
Um beijinho

Mike disse...

Bacouca,

Entendo o que diz mas não seria tão assertivo. Direi que o seu (nosso) círculo de pessoas com quem nos demos era assim. Mas olhe que conheci muita gente humilde em Angola. Desta vez não posso concordar a 100% consigo. :)

p.s. - mas se me perguntar se acho que, entre os corajosos que emigraram, os aventureiros foram para África, digo-lhe que sim, que acho. :)

Lisa Nunes disse...

Que bela história de vida tiveram os seus bisavós.Adorei a forma como você discorreu os fatos.Me emocionei. Um abraçÃO

Mike disse...

Obrigado, Lisa.
Muito simpático da sua parte. :)

GJ disse...

Ratos e cavalos são teimosos e voltam à carga sempre que podem...(gargalhada)

Mike disse...

Ele há cavalos que são mais teimosos que alguns ratos. (muitos risos)

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