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20.4.10

Rua Latino Coelho, 1, Lisboa. A melhor vista panorâmica de Lisboa.

Acedi ao convite sem hesitar. O espaço está lá há muito tempo mas esquecemo-nos que, provavelmente, é a melhor vista panorâmica de Lisboa, fazendo jus ao nome do restaurante. Uma vista deslumbrante, em que o casario se estende, ondulante, parecendo ter vida própria, numa vénia prolongada ao rio que o acolhe, sorridente, com uma cumplicidade rara e num caleidoscópio de cores que, segundo dizem, apenas Lisboa nos consegue oferecer, principalmente quando nos encontramos no tôpo do Hotel Sheraton. O Panorama está diferente. Mais descontraído, mais arejado e mais cosmopolita, predominando um ambiente casual chique. Almocei muito bem e apreciei a lounge music que nos acompanhou à refeição. Aderi ao peixe do dia, garoupa, seguindo o conselho do chef, muito simpático, e com quem tivemos a oportunidade de trocar impressões gastronómicas por breves momentos. Abri as hostilidades com uma heresia e encerrei-as da mesma forma. Bebi cerveja ao almoço, contrariando o conselho da Cila do Carmo, que teve a amabilidade de fazer o convite, e dispensei os deliciosos pastéis de nata à sobremesa. Reavivou-se um magnífico espaço, outrora esquecido, e que reúne os principais elementos para uma excelente refeição.

Sugestão: a galeria de fotos do site do Hotel não faz, nem de perto, nem de longe, jus à vista deslumbrante de que podemos desfrutar no Panorama. Eu corrigiria esse “detalhe”.

24.6.09

Rua Amauri, 319, São Paulo.

Era, pelo menos enquanto vivi em São Paulo, um dos locais da badalação no fervilhante Itaim e ostentava a grife Fasano, tendo como um dos proprietários o empresário João Paulo Diniz, herdeiro da gigantesca cadeia Pão de Açúcar. A decoração é moderna e é um dos atractivos da casa, e foi criada pelo arquitecto Isay Weinfield. As paredes transportam o nosso imaginário para o cinema italiano e são decoradas a preceito por posters da sétima arte transalpina. Mas o charme da Forneria San Paolo, para mim, é o imenso balcão de vinte e dois metros de madeira envelhecida. Este restaurante é o local ideal, na capital paulistana, para uma refeição supostamente leve, depois de uma ida ao teatro. Do cardápio destaco o delicioso panini em pão de miga, com muzzarella, tomate fresco e manjericão, e o panini na massa de pizza com queijo brie, peito de peru, tomate fresco e azeitonas pretas. Não deixamos que a sede se apodere de nós e, para quem não aprecia cerveja, há bom vinho servido a jarro. Da cozinha também saem pizzas, pastas, saladas, carpaccios, carnes e deliciosas sobremesas. Também há os clássicos italianos que fazem sucesso, como o hamburguer com queijo cheddar e o hot dog com salsicha especial, feitos com massa de pizza e assados no forno de lenha. Uma delícia. Para quem deseja apenas uma sandwich, a lista é enorme e de fazer crescer água na boca. Confeccionadas pelo chef Rodrigo Gonçalves em pão de miga, em pão chapata, ou em massa de pizza, com mais de 30 opções de recheio, acompanhadas de salada ou batatas fritas. A partir da meia-noite, uma jukebox com 600 músicas entra em acção e a selecção é feita pelos próprios clientes, através duma ementa levada à mesa pelos empregados, quer dizer, pelos garçons. Resta-me acrescentar que a Forneria San Paolo é muito bem frequentada.

19.4.09

Rua Haddock Lobo, 1738, São Paulo.

Somos recebidos por uma majestosa figueira que, dizem, tem mais de cento e trinta anos. São cinquenta metros de altura e oito metros de diâmetro de árvore, e uma sombra que nos apazigua e nos estende os braços quando chegamos. O restaurante, com uma concepção descontraída sem abdicar de uma atmosfera sofisticada, convida a uma refeição no exterior, sem antes passar pelo Oyster Bar, onde nos são servidas ostras frescas que chegam diariamente de Santa Catarina, preparadas com molhos de ervas e acompanhadas por champagne. O Figueira resgata a cozinha primitiva dos fornos feitos de barro e das panelas de ferro. O resultado são deliciosos pratos originais, como o pargo assado, o polvo aplastado, o caixote marinho (polvo, vieiras, camarão, lula e peixes), o nhoque de batata com ossobuco e a bisteca de vitela, levados à mesa em cumbucas marroquinas e travessas francesas de ferro esmaltado. Uma cozinha requintada, feita de contrastes e para ser saboreada sem que o tempo dê sinais de si, acompanhada por uma das sete mil garrafas de vinho da garrafeira a que a revista Wine Spectator atribuiu o prémio Best of Ward of Excellence. A sobremesa é um momento único, ao qual nos entregamos incondicionalmente. A mousse de maracujá não nos deixa pensar e deixamos que o tempo passe sem pressa, que os puros e as conversas não foram feitos para correrias e sim para serem apreciados. Como o Figueira, um dos melhores e mais belos restaurantes onde já estive.

6.3.09

Praça Antônio Prado 1952, São Paulo.

Não conheci Vittorio Fasano, um italiano de Milão, e apenas conheço parte da história da sua vida depois de ter chegado a São Paulo em 1902 e ter inaugurado a Brasserie Paulista, estabelecendo uma tradição familiar gastronómica que o filho Ruggero se encarregou de dar continuidade. Conheci Rogério, a quarta geração da família, que expandiu o negócio da restauração e criou o Fasano que eu tive o privilégio de conhecer, ainda na Rua Haddock Lobo, no Bairro dos Jardins, e antes de passar a fazer parte do hotel da família, uma referência na América do Sul, para ser comedido no elogio. No restaurante Fasano respira-se uma atmosfera única em que o projecto do arquitecto Isay Weinfeld impõe uma simplicidade austera mas acolhedora, onde o ambiente está, acima de tudo, ao serviço do desfrutar da mesa, cuja responsabilidade está a cargo do chef Salvatore Loi, que executa com o seu toque delicado e contemporâneo, receitas com mais de duzentos anos. Ele e Rogério deliciam-nos com uma cozinha inspirada nos sabores de várias regiões de Itália, regada superiormente por vinhos de uma adega administrada com requinte e ciência por Manoel Beato, e que Rogério se incumbe, ele próprio, de pesquisar nas viagens que faz às regiões de Piemonte e Toscana. Não existe uma só Cozinha Italiana, há várias, costuma dizer Rogério Fasano, acrescentando que quando se fala de gastronomia, a Itália é uma colcha de retalhos. E que bela colcha, Rogério. Uma colcha em que o requinte e a sobriedade dos retalhos nos fazem viver uma experiência única e inesquecível. Razão tem a revista Condé Nast Traveller, quando na sua edição The Best in the World, inclui e referencia, com toda a justiça, o restaurante Fasano.

16.1.09

Rua Sobre o Douro, 1 - A, Porto.

Sente-se a presença do antigo Convento de Monchique enquanto apreciamos a decoração sóbria mas de extraordinário bom gosto, e nos deixamos embriagar pela vista deslumbrante, sublime e única do rio Douro. Os culpados pela atmosfera encantadora, de uma simplicidade desarmante têm nome: o chef Francisco Meireles e o arquitecto Lourenço Roqui. As paredes de pedra convivem harmoniosamente com o mobiliário de linhas rectas, como eu gosto, disposto geometricamente e com rigor ao longo da sala, que é iluminada a preceito pela luz que trespassa a janela, ou por discretos candeeiros, tornando o restaurante acolhedor à hora de almoço e romântico quando a refeição é o jantar. O Francisco, avesso a misturar muitos alimentos e privilegiando a pureza do aroma, garante-nos a ausência de formação clássica na área, mas isso não impede que a sua cozinha suplante as nossas expectativas, parecendo criar de acordo com a sua inspiração do momento, e surpreendendo-nos com paladares inusitados. Sapateira com pêra abacate, Rodovalho com espargos ou Cabidela de capão? Já nem sei, às vezes prefiro escolher o vinho primeiro, no Sessenta Setenta, um dos meus restaurantes incontornáveis da Cidade Invicta, e deixar que o Douro me inspire.

12.1.09

Rua da Palmeira, 15, Lisboa.

Considero-me um bom garfo... garfo, faca, colher, o que estiver à mão e for mais apropriado para me deleitar com um belo manjar. Há uns anos a esta parte, apenas com os jantares, excluindo os sociais, me relaciono de forma comedida. Quando me falaram de vegetariano torci o nariz mas já era tarde porque quem me convidou conhece as minhas preferências e fê-lo na rua, à porta do Terra, numa noite fria, destas que nos têm assolado. O restaurante estava cheio e gostei logo da atmosfera que se vivia. Simples, acolhedor, despretensioso e vivido, o Terra recebeu-me como eu gosto, com o som das conversas e o ruído dos talheres sem ultrapassar os decibéis que tornam o ambiente animado e convidativo. A comida? Uma agradável surpresa, quer no que diz respeito à diversidade, quer à confecção e paladar. A sangria de champanhe e frutos silvestres? Uma delícia. No final do jantar, enquanto bebia o café, notei com curiosidade uma inscrição na saqueta de açúcar que citava alguém de que não me lembro, e que fazia referência a quanto menor a mente, maior o preconceito. Sorri, sorrimos. Fora mais um bom jantar e um preconceito a menos.