25.6.15

Dias e balanços


Há dias em que tudo parece estar em jogo, nas mais pequenas mas tantas decisões que se podiam contabilizar ao minuto. E nesses minutos que vão passando e transformando-se em horas são tantas as vezes que não damos conta do que se joga. Precisamos parar e, mesmo cansados da jornada, mesmo com a lucidez turva pela energia - ou pela falta dela - fazer um balanço: o balanço do dia. O silêncio ajuda, ele é o companheiro que se queda a nosso lado assim mesmo, em silêncio, como se ouvisse os nossos pensamentos e, aqui e ali, os pusesse em ordem, sem que uma palavra tenhamos que dizer. São dias em que parece que tudo esteve em jogo: um pedaço da nossa dignidade, a ética, e lealdade, o controle ou a solidariedade e a educação, porque tantas são as vezes em que somos empurrados para o que julgamos serem becos sem saída nas decisões que têm que ser tomadas. Como se houvesse apenas uma coisa em jogo, ou só essa coisa fosse a única que importasse ou tivesse que reger o nosso comportamento. Há dias extraordinariamente difíceis, desagradáveis e muito pouco ou nada gratificantes. Felizmente há balanços que são exactamente o contrário. Amanhã é outro dia. Espera-se e deseja-se que não haja necessidade de balanço. Seria bom sinal. 

Poesia, prosa, teatro, cinema

A poesia está para a prosa como o teatro está para o cinema. Um filme vê-se, um livro lê-se. E satisfazem-nos ou divertem-nos. 
A poesia e o teatro não; têm que ser muito bons. Quando a poesia e o teatro se lêem e se vêem são uma merda. 

Isto vem a propósito de um jantar de lançamento de uma obra inédita de Fernando Pessoa - Orpheu III - e onde se homenageou o autor.

23.6.15

Palavras


Tenho saudades e vontade de escrever; de lhe escrever. Mais ainda de dizer; e ainda mais de ouvir; lhe dizer, a ouvir. As palavras vejo-as, oiço-as, sinto-as, mas elas fogem-me; tento apanhá-las, arrebanhá-las como ovelhas tresloucadas que se dispersam. O silêncio é um manto onde me abrigo, esperando que as palavras voltem. Mas só para as ver, para as ouvir, para as sentir.  

Faz-se assim

O chefe diz faça-se assim, sem que a fundamentação faça algum sentido. O empregado discorda, explica e fundamenta (fazendo todo o sentido). Impera o "manda quem pode e obedece quem deve": e faz-se assim. Corre bem, ou melhor, como o chefe tinha dito para se fazer.

Vês como eu tinha razão?
Não, não tinhas. Eu é que sou bom no que faço e, acima de tudo, sou um funcionário leal.

22.6.15

Dias


Foi um dia longo, muito longo e cansativo. Parte da responsabilidade foi minha, de tão desconcentrado que estive, há que admiti-lo; como se as sinapses se recusassem a colaborar ou andassem por outras paragens. Seria mais fácil acusar o cansaço - o que até nem seria totalmente falso - mas seria uma meia-verdade, ou um terço, ou um quarto de verdade... vá-se lá saber. A verdade é que estive num sítio e a cabeça e o espírito noutro. E isso cansa.

18.6.15

Dias

Um dia como os outros? Não! Um dia inesperadamente diferente. 
Um dia que, sem ter sido mau - longe disso - se tornou num dia melhor. 
Por ter sido inesperadamente diferente? Também! O inesperado foi apenas o sal... que temperou uma voz. 

17.6.15

Vida II

Tenho as mesmas preocupações e objectivos de todas as pessoas: como será o futuro dos meus filhos; se terão coragem e preserverança para serem felizes; viver com o suficiente - é de bens materiais que falo - e com saúde, para ter uma vida digna mesmo que chegue ao fim dessa vida velho; não me tornar um fardo para ninguém; ser íntegro e digno enquanto cá andar. Mas já sonho pouco ou quase nada; ou com pouco e com quase nada, que é o mesmo que dizer que já não sonho. É que os sonhos, para serem sonhos, mais do que serem alimentados, têm que ser partilhados.

[Há uns anos atrás, ou talvez meses, sentir-me-ia abalado por admitir e verbalizar - neste caso escrever, o que vai dar ao mesmo - que deixei de sonhar. E não sei quando, e se, o sonho voltará a ser-me devolvido. Por ora, e ao contrário do que dizia o meu querido Mário Quintana, à minha vida basta ser vivida, com as mesmas preocupações e objectivos de todas as pessoas; mas sem sonhar.]