29.10.07

África XVII. E por falar nos flagelados do vento-leste...

... aqueles a quem o poeta caboverdiano Ovídio Martins presta homenagem, gente da sua terra e gente que, por essa África fora sorri na probreza e da pobreza, e da vida dura de quem nasce flagelado pelos ventos, habituada que está a ter as costas voltadas e não os braços abertos, numa África abandonada quando não é cobiçada... eles são assim, os flagelados do vento-leste...

Eles são os flagelados do Vento-Leste!
A seu favor não houve campanhas de solidariedade
não se abriram os lares para os abrigar
e não houve braços estendidos fraternalmente
São os flagelados do Vento-Leste!
O mar transmitiu-lhes a sua preserverança
aprenderam com o vento o bailar na desgraça
as cabras ensinaram-lhes a comer pedras para não perecerem
São os flagelados do Vento-Leste!
Morrem e ressuscitam todos os anos
para desespero dos que os impedem a caminhada
teimosamente continuam de pé
num desafio aos deuses e aos homens
e as estiagens já não lhes metem medo
porque descobriram a origem das coisas
São os flagelados do Vento-Leste!
Os homens esqueceram-se de lhes chamar irmãos
e as vozes solidárias que têm sempre escutado
são apenas as vozes do mar que lhes salgou o sangue
as vozes do vento que lhes entranhou o ritmo do equilíbrio
e as vozes das suas montanhas
estranha e silenciosamente musicais
Eles são os flagelados do Vento-Leste!

(Adaptado do poema de Ovídio Martins, poeta caboverdiano).

26.10.07

África (XVI). Naquela tarde matei saudades do mar dos flagelados do vento-leste.

O jipe aos solavancos na estrada que mais parecia um caminho de cabras, a caminho de Pedra Lume, uma pequena povoação com meia dúzia de casas. A bruma seca, uma espécie de nevoeiro causado pelo vento quente e seco que transporta as areias do Saara, já se acalmara quando chegámos à porta de casa do José. Mão na buzina, que de tanto gritar já só gemia baixinho, suplicando que lhe déssemos tréguas. Zé, oh Zé, levanta-me esse traseiro da cama. Estás a ouvir Zé? A buzina já não ouvia concerteza, que essa, entretanto já se calara, sucumbindo à nossa teimosia. Aquele malandro ou está na sorna ou está agarrado à patroa. Oh Zé larga lá a patroa, deixa isso para mais logo. Zé, nós vamos aí buscar-te... Não foi preciso, o Zé Lopes apareceu à porta com o bom e velho motor Mercury ao ombro. Então pá? Então o quê? eu ouvia os senhores mas estava a preparar-me. Já se habituara que lhe tocassem à porta para pescar no pequeno barco dele. Temos que passar pela casa do Jaime, e assim fizémos que a partir daquele momento quem comandava era o Zé, homem conhecedor dos mares daquelas paragens e experiente pescador apesar da sua juventude. Pelo caminho combinámos o pagamento, uma parte em dinheiro e outra em peixe. A regra de ouro manter-se-ia naquela tarde: só se pescava para pagar ao Zé e para o nosso jantar, que já estava tudo combinado com o Américo, ele cobrava-nos as bebidas e uma taxa adicional para o serviço, que o peixe com que nos havíamos de deliciar levávamos nós. Os amigos ainda incrédulos mas ansiosos por se fazerem ao mar, mergulhando nas suas profundezas, iam vestindo os fatos de mergulho, calçando as barbatanas, colocando os cinturões de chumbo, enquanto o teco-teco do Zé se afastava vagarosamente da costa. Bóia sinalizadora lançada ao mar, alguns conselhos prácticos e úteis instruções, e os nossos corpos, um a um, abandonaram o barco, mergulhando na escuridão das águas do oceano. Nessa tarde deixei a espingarda de caça submarina a bordo... não me apetecia matar os peixes, apenas matar as muitas saudades do mar, daquele mar imenso, sem fim, que banha a terra dos flagelados do vento-leste, como lhes chama o poeta caboverdiano Ovídio Martins.

25.10.07

Sou um péssimo cidadão. Sou um hipócrita. E o pior é que, se calhar, não sou único.

Hoje amanheci de consciência pesada. Mas já me passou, não que a sinta mais leve, apenas porque passei o peso para trás das costas, que é como quem diz, não penses mais nisso, o que não abona nada em meu favor. O peso da minha consciência matinal tem um nome: ambiente, ou fenómeno ecologia, como lhe queiremos chamar. Um assunto para o qual as pessoas minimamente informadas prestam parte da sua atenção, manifestando legítimas preocupações e, a par da informação e da teoria, procuram ou deviam procurar seguir as boas prácticas. A culpa do peso é da Visão e da sua “edição verde” de hoje... e minha, claro, que a revista mais não fez que avivá-la. No que diz respeito a este assunto sou um péssimo cidadão. Pior, bem pior que os não informados, exactamente por não informados serem. Senão vejamos: o meu carro é a gasolina e de uma cilindrada nefasta para o ambiente; separo o lixo mas há dias em que nem sempre o faço, quando não estou para aí virado ou a pressa desviou a minha atenção para outras paragens; se construísse uma casa na praia ou no campo, uma das minhas últimas prioridades eram os amigos painéis solares; fumo desalmadamente e, asseguro-vos, depois de fumados, deito cigarros na rua... e por aí adiante. E não há desculpa, senão vejamos (dois): os carros híbridos, que já foram espécimes raros, complicados e caros, já não o são. Um Honda Civic híbrido custa 23.500 €, quase menos 2.000 € que um 1.8 a gasolina da mesma marca e modelo. Mas eu preferi o meu 6 cilindros a gasolina. Tenho em casa aquele caixote para separar o lixo mas na verdade, preocupação mesmo a sério é com o bem estar e futuro dos meus filhos, cumprimento dos horários escolares, idas ao pediatra, etc... irónico não? Em relação à casa de campo ou de praia, as prioridades seriam o conforto, o número de quartos, a orientação solar e, esticando o orçamento, a piscina no jardim. Energia?... o bom e velho esquentador ou caldeiras eléctricas. Os cigarros... não tenho vícios, posso ter um?... e faço o quê aos cigarros fumados? ando de cinzeiro portátil no bolso?... e por aí adiante. Pois é, o ambiente está dependente de estratégias e políticas ambientais... pois está. Mas diz respeito a cada um de nós, que nos dizemos sensíveis ao assunto, preocupados e minimamente informados. Assumindo que não sou o único a agir assim, o futuro não se apresenta muito risonho para o dito ambiente. Sou um hipócrita, é o que eu sou... ou será que devia empregar o termo na primeira pessoa do plural?

22.10.07

África (XV). Eu? eu vou para o pontão.

Mesa posta cuidadosamente, as toalhas de um branco imaculado ofereciam-nos um pequeno-almoço farto, um belo mata-bicho, como se diz para aqueles lados. Um sol magnífico, brilhante e radioso, recebeu-nos mal passámos a porta dos quartos. A brisa marítima atenuava a força castigadora do calor que nos empurrara para fora das camas e abria-nos o apetite. Era cedo mas a sala estava já composta, para não dizer cheia. Os amigos organizavam-se, tentando chegar a um consenso sobre como ocupar o dia, ainda reféns de um quotidiano preenchido que nem há vinte e quatro horas fazia parte das suas vidas. Eu ouvindo, divertido, e observando. Cinco minutos bastavam para poder afirmar a pés juntos quem tinha acabado de chegar e quem estava prestes a partir, e não era apenas pela visão da tez morena e dos corpos bronzeados que, tal como o algodão, não enganavam. Podia afirmar, bastando para isso atentar à indumentária dos turistas. As camisas, calções, sandálias e acessórios e relógios de marca dos que tinham acabado de chegar, haviam dado lugar a t-shirts simples, calções de banho e chinelos, ou nem isso, nos que se preparavam para partir, convertidos que estavam à simplicidade daquela terra e daquelas gentes. As senhoras queriam estender-se ao sol, ávidas que estavam de bronzear os corpos; eles na dúvida, uns querendo saber o preço do aluguer das motas de água, outros desejando iniciarem-se no mergulho e outros ainda curiosos sobre como se sairiam no desafio do instável equilíbrio sobre as pranchas de wind surf. Também havia quem quisesse alugar um jipe para dar uma volta à ilha ou dar um passeio a cavalo. O que é que achas Mike? Passei a mão pelo queixo, desviei o olhar lá para fora, através da vidraça, e os meus olhos quedaram-se no envelhecido e gasto pontão de madeira, como um braço do areal que parecia querer abraçar o mar. Desviei o olhar para o horizonte, onde se podiam avistar as pequenas embarcações dos pescadores dirigindo-se a terra. Eu vou para o pontão. Vou assistir à chegada dos pescadores, ao desembarque do atum e à pescaria dos meninos crioulos. E senhoras, mesmo que consigam, e eu tenho algumas dúvidas, antes do meio dia saiam do sol, se querem chegar bronzeadas a Lisboa. E senhores, temos tempo, temos muitas horas durante esta semana para fazermos todas essas outras coisas. E se não as fizermos aqui, podemos fazê-las no Guincho, em Lisboa, na Ericeira ou em Cascais. Relaxem, não se apressem, usufruam, aproveitem para viver cada minuto, não como se do último se tratasse. Eu vou para o pontão, se calhar até encontro o Américo, ele que é cioso do peixe que serve no seu humilde restaurante e que ele próprio gosta de escolher. E depois? vais fazer o quê? Encolhi os ombros e sorri... sei lá, depois logo vejo. E os amigo acharam que depois logo veriam também, juntando-se a mim a caminho do pontão para assistir ao desembarque do atum e à pescaria dos meninos.

20.10.07

África (XIV). Morabeza?... Morabeza não se explica, sente-se, vive-se.

Abrem-se as portas do avião e chega o primeiro choque, que é térmico, o ar quente cá fora, contrastando com o ar condicionado que nos acompanhou durante a viagem. Uma Lisboa cinzenta, tristonha, fria e chuvosa, ficara a duas horas e meia de distância e a descida da escada de apoio, uns quantos degraus que nos separam do asfalto da pista, são suficientes para nos colar as camisas aos corpos. Estão em África, amigos, é o bafo dos trópicos. Mas o céu até está meio encoberto... pois está, mas a humidade deve rondar os 90%. Não era a primeira vez para mim, nem foi a última, mas era a primeira visita de amigos a Cabo Verde... e também não foi a última. Tinham feito questão de terem a minha companhia. É que tu és de lá... não, não sou, eu sou de Angola... isso não interessa, és de África... sem saberem quão perto estavam da verdade, deixei a argumentação para outro momento mais apropriado, que aquela África não era a das minhas raízes mas, sendo África meridional, era minha também. Não tinha sido suficientemente persuasivo quando lhes disse que não precisavam de mim para nada, que não iam visitar nenhuma capital europeia ou algum museu que necessitasse de uma espécie de visita guiada. Mas tanto insistiram (não foi preciso insistirem muito) que lhes disse que sim.
O segundo e o terceiro choque não foram térmicos. As impressões que a vista alcançava eram verbalizadas com uma sinceridade... como dizer?... europeia. Isto é tão desolador, tão pobre, tão árido... mas as pessoas são sorridentes e bem dispostas... Eu calado, deixando-me levar por memórias e por outros sentidos. Uma batida dum batuque aqui, o som estridente dum cavaquinho ali, a voz melodiosa de uma feirante ensaiando uma morna aculá, e o cheiro da terra a ser ocupado progressivamente pelo da marzia, à medida que nos aproximávamos de Santa Maria. Chegados ao hotel, Morabeza de seu nome, alguns dos amigos tranquilizaram-se. Na sua simplicidade, tinha tudo o que um europeu espera de um hotel, mesmo em África... ginásio, salão de jogos, quartos amplos, piscina, aluguer de motas de água, aulas de wind surf e mergulho, etc, etc. A mim bastava-me como ele era... simples e pé na areia, com o mar logo ali, a umas dezenas de metros dos quartos. Um deles não conteve a curiosidade. Porque se chama Morabeza? Hum... Morabeza não tem tradução, não se explica, é como a nossa saudade, mas não é a mesma coisa. Há-de ter algum significado, insistiu, não satisfeito com a resposta. Tem, claro que tem, é uma palavra muito falada em crioulo e que pode querer dizer bem estar, gozar a vida, beleza, boa conversa, ou até nadar no mar, mais ou menos como os brasileiros empregam gostoso. Ah, afinal sempre tem tradução. Não, não disse isso, os caboverdianos dizem que Morabeza não se explica, sente-se, vive-se. Sorri, sabendo que no final da semana que ia começar em terras africanas, eles entenderiam o que era Morabeza. Só não saberiam explicá-la... e continuei a sorrir.

18.10.07

Há males que vêem por bem?

Não gosto dos males que vêem por bem. Gosto mais do bem que vem por bem. Nem tão pouco aprecio quando se escreve direito por linhas tortas, que as linhas devem ser tão direitas quanto a escrita e essa gosto dela direita, rectilínia, sem vacilos, mesmo quando de uma prosa sonhadora se trata. Evito, porque não gosto, do I hate to say I told you so. Se detestamos dizer, porque haveremos de fazê-lo? Para deixarmos claro que tínhamos razão? Devíamo-nos ficar pela sensação de a termos sem necessidade haver de humilharmos o prevericador. E isto tudo porquê? O assunto não é assim tão interessante quanto isso, apesar de ultimamente lhe prestar a atenção pelo facto do meu Banco estar nas bocas de toda a gente e nas manchetes dos jornais e revistas. Meu por dele ser cliente há mais de dezasseis anos e, já agora, por ser accionista, mesmo fazendo parte do lote dos míseros accionistas. As trocas e baldrocas, as situações mal explicadas, os perdões de dívidas, aparentemente indevidos ou à margem da lei que os estatutos do maior Banco privado impôs a si próprio... um sem número de episódios que tem deixado preocupados os grandes accionistas. Acções para cima, acções para baixo, guerras internas pelo poder, e os tubarões, claro, à beira de um ataque de nervos, ou pelo menos com eles em franja. Como estão os meus, mas por razões diferentes. Para eles a questão fundamental é o dinheiro. E a razão deve estar do seu lado, porque, como diz o anúncio, no Banco trata-se de dinheiro. Para mim a questão fundamental é a verdade... ou a mentira, ou a omissão, ou o que elas escondem. Falando de verdade, a verdade é que se não fosse por causa do dinheiro, a omissão, ou a mentira, não conheceriam a luz do dia. Se não fossem os Joes Berardos da praça e outros influentes (leia-se influente$), muitas coisas não se saberiam. Ora bolas, afinal, apesar de não gostar, sempre se escreve direito por linhas tortas... ou se calhar... nem tanto, que em casos como este, a escrita é tão torta como as linhas... quando são os Joes Berardos a escrevê-la, a escrita é sempre torta. E continuo a não gostar dos males que vêem por bem.

17.10.07

Nas tuas mãos.

Das tuas mãos me larguei para dar os primeiros e tímidos passos.
E recebi o afago que me conduziu ao sono.
Das tuas mãos me larguei para dar as primeiras braçadas no mar revolto.
E me larguei, convicto, para dar as primeiras pedaladas.
Das tuas mãos recebi a primeira medalha, celando a primeira vitória.
E recebi a primeira espingarda.
Das tuas mãos recebi os primeiros ensinamentos de como conduzir.

Das tuas mãos recebi muito, mesmo sendo pouco. Por ser uma dádiva.
Por ser uma dádiva, não foi das tuas mãos, antes nas tuas mãos.

Nas tuas mãos aprendi a andar. E adormeci serenamente.
Nas tuas mãos aprendi a nadar. E aprendi a andar de bicicleta.
Nas tuas mãos senti o primeiro sabor da vitória.
E aprendi a caçar e a pescar.
Nas tuas mãos aprendi a conduzir. E a conduzir a minha vida.

Nas tuas mãos aprendi o sentido da vida, quando a morte se preparava para nos separar. E aprendi que a morte não nos separou. Não tive um pai. Tenho um pai. Apenas deixei de o ver.

18.10.2007, comemorando o teu 78º aniversário.