... aqueles a quem o poeta caboverdiano Ovídio Martins presta homenagem, gente da sua terra e gente que, por essa África fora sorri na probreza e da pobreza, e da vida dura de quem nasce flagelado pelos ventos, habituada que está a ter as costas voltadas e não os braços abertos, numa África abandonada quando não é cobiçada... eles são assim, os flagelados do vento-leste...
Eles são os flagelados do Vento-Leste!
A seu favor não houve campanhas de solidariedade
não se abriram os lares para os abrigar
e não houve braços estendidos fraternalmente
São os flagelados do Vento-Leste!
O mar transmitiu-lhes a sua preserverança
aprenderam com o vento o bailar na desgraça
as cabras ensinaram-lhes a comer pedras para não perecerem
São os flagelados do Vento-Leste!
Morrem e ressuscitam todos os anos
para desespero dos que os impedem a caminhada
teimosamente continuam de pé
num desafio aos deuses e aos homens
e as estiagens já não lhes metem medo
porque descobriram a origem das coisas
São os flagelados do Vento-Leste!
Os homens esqueceram-se de lhes chamar irmãos
e as vozes solidárias que têm sempre escutado
são apenas as vozes do mar que lhes salgou o sangue
as vozes do vento que lhes entranhou o ritmo do equilíbrio
e as vozes das suas montanhas
estranha e silenciosamente musicais
Eles são os flagelados do Vento-Leste!
(Adaptado do poema de Ovídio Martins, poeta caboverdiano).
26.10.07
África (XVI). Naquela tarde matei saudades do mar dos flagelados do vento-leste.

25.10.07
Sou um péssimo cidadão. Sou um hipócrita. E o pior é que, se calhar, não sou único.
Hoje amanheci de consciência pesada. Mas já me passou, não que a sinta mais leve, apenas porque passei o peso para trás das costas, que é como quem diz, não penses mais nisso, o que não abona nada em meu favor. O peso da minha consciência matinal tem um nome: ambiente, ou fenómeno ecologia, como lhe queiremos chamar. Um assunto para o qual as pessoas minimamente informadas prestam parte da sua atenção, manifestando legítimas preocupações e, a par da informação e da teoria, procuram ou deviam procurar seguir as boas prácticas. A culpa do peso é da Visão e da sua “edição verde” de hoje... e minha, claro, que a revista mais não fez que avivá-la. No que diz respeito a este assunto sou um péssimo cidadão. Pior, bem pior que os não informados, exactamente por não informados serem. Senão vejamos: o meu carro é a gasolina e de uma cilindrada nefasta para o ambiente; separo o lixo mas há dias em que nem sempre o faço, quando não estou para aí virado ou a pressa desviou a minha atenção para outras paragens; se construísse uma casa na praia ou no campo, uma das minhas últimas prioridades eram os amigos painéis solares; fumo desalmadamente e, asseguro-vos, depois de fumados, deito cigarros na rua... e por aí adiante. E não há desculpa, senão vejamos (dois): os carros híbridos, que já foram espécimes raros, complicados e caros, já não o são. Um Honda Civic híbrido custa 23.500 €, quase menos 2.000 € que um 1.8 a gasolina da mesma marca e modelo. Mas eu preferi o meu 6 cilindros a gasolina. Tenho em casa aquele caixote para separar o lixo mas na verdade, preocupação mesmo a sério é com o bem estar e futuro dos meus filhos, cumprimento dos horários escolares, idas ao pediatra, etc... irónico não? Em relação à casa de campo ou de praia, as prioridades seriam o conforto, o número de quartos, a orientação solar e, esticando o orçamento, a piscina no jardim. Energia?... o bom e velho esquentador ou caldeiras eléctricas. Os cigarros... não tenho vícios, posso ter um?... e faço o quê aos cigarros fumados? ando de cinzeiro portátil no bolso?... e por aí adiante. Pois é, o ambiente está dependente de estratégias e políticas ambientais... pois está. Mas diz respeito a cada um de nós, que nos dizemos sensíveis ao assunto, preocupados e minimamente informados. Assumindo que não sou o único a agir assim, o futuro não se apresenta muito risonho para o dito ambiente. Sou um hipócrita, é o que eu sou... ou será que devia empregar o termo na primeira pessoa do plural?
22.10.07
África (XV). Eu? eu vou para o pontão.

20.10.07
África (XIV). Morabeza?... Morabeza não se explica, sente-se, vive-se.

O segundo e o terceiro choque não foram térmicos. As impressões que a vista alcançava eram verbalizadas com uma sinceridade... como dizer?... europeia. Isto é tão desolador, tão pobre, tão árido... mas as pessoas são sorridentes e bem dispostas... Eu calado, deixando-me levar por memórias e por outros sentidos. Uma batida dum batuque aqui, o som estridente dum cavaquinho ali, a voz melodiosa de uma feirante ensaiando uma morna aculá, e o cheiro da terra a ser ocupado progressivamente pelo da marzia, à medida que nos aproximávamos de Santa Maria. Chegados ao hotel, Morabeza de seu nome, alguns dos amigos tranquilizaram-se. Na sua simplicidade, tinha tudo o que um europeu espera de um hotel, mesmo em África... ginásio, salão de jogos, quartos amplos, piscina, aluguer de motas de água, aulas de wind surf e mergulho, etc, etc. A mim bastava-me como ele era... simples e pé na areia, com o mar logo ali, a umas dezenas de metros dos quartos. Um deles não conteve a curiosidade. Porque se chama Morabeza? Hum... Morabeza não tem tradução, não se explica, é como a nossa saudade, mas não é a mesma coisa. Há-de ter algum significado, insistiu, não satisfeito com a resposta. Tem, claro que tem, é uma palavra muito falada em crioulo e que pode querer dizer bem estar, gozar a vida, beleza, boa conversa, ou até nadar no mar, mais ou menos como os brasileiros empregam gostoso. Ah, afinal sempre tem tradução. Não, não disse isso, os caboverdianos dizem que Morabeza não se explica, sente-se, vive-se. Sorri, sabendo que no final da semana que ia começar em terras africanas, eles entenderiam o que era Morabeza. Só não saberiam explicá-la... e continuei a sorrir.
18.10.07
Há males que vêem por bem?
Não gosto dos males que vêem por bem. Gosto mais do bem que vem por bem. Nem tão pouco aprecio quando se escreve direito por linhas tortas, que as linhas devem ser tão direitas quanto a escrita e essa gosto dela direita, rectilínia, sem vacilos, mesmo quando de uma prosa sonhadora se trata. Evito, porque não gosto, do I hate to say I told you so. Se detestamos dizer, porque haveremos de fazê-lo? Para deixarmos claro que tínhamos razão? Devíamo-nos ficar pela sensação de a termos sem necessidade haver de humilharmos o prevericador. E isto tudo porquê? O assunto não é assim tão interessante quanto isso, apesar de ultimamente lhe prestar a atenção pelo facto do meu Banco estar nas bocas de toda a gente e nas manchetes dos jornais e revistas. Meu por dele ser cliente há mais de dezasseis anos e, já agora, por ser accionista, mesmo fazendo parte do lote dos míseros accionistas. As trocas e baldrocas, as situações mal explicadas, os perdões de dívidas, aparentemente indevidos ou à margem da lei que os estatutos do maior Banco privado impôs a si próprio... um sem número de episódios que tem deixado preocupados os grandes accionistas. Acções para cima, acções para baixo, guerras internas pelo poder, e os tubarões, claro, à beira de um ataque de nervos, ou pelo menos com eles em franja. Como estão os meus, mas por razões diferentes. Para eles a questão fundamental é o dinheiro. E a razão deve estar do seu lado, porque, como diz o anúncio, no Banco trata-se de dinheiro. Para mim a questão fundamental é a verdade... ou a mentira, ou a omissão, ou o que elas escondem. Falando de verdade, a verdade é que se não fosse por causa do dinheiro, a omissão, ou a mentira, não conheceriam a luz do dia. Se não fossem os Joes Berardos da praça e outros influentes (leia-se influente$), muitas coisas não se saberiam. Ora bolas, afinal, apesar de não gostar, sempre se escreve direito por linhas tortas... ou se calhar... nem tanto, que em casos como este, a escrita é tão torta como as linhas... quando são os Joes Berardos a escrevê-la, a escrita é sempre torta. E continuo a não gostar dos males que vêem por bem.
17.10.07
Nas tuas mãos.
Das tuas mãos me larguei para dar os primeiros e tímidos passos.
E recebi o afago que me conduziu ao sono.
Das tuas mãos me larguei para dar as primeiras braçadas no mar revolto.
E me larguei, convicto, para dar as primeiras pedaladas.
Das tuas mãos recebi a primeira medalha, celando a primeira vitória.
E recebi a primeira espingarda.
Das tuas mãos recebi os primeiros ensinamentos de como conduzir.
Das tuas mãos recebi muito, mesmo sendo pouco. Por ser uma dádiva.
Por ser uma dádiva, não foi das tuas mãos, antes nas tuas mãos.
Nas tuas mãos aprendi a andar. E adormeci serenamente.
Nas tuas mãos aprendi a nadar. E aprendi a andar de bicicleta.
Nas tuas mãos senti o primeiro sabor da vitória.
E aprendi a caçar e a pescar.
Nas tuas mãos aprendi a conduzir. E a conduzir a minha vida.
Nas tuas mãos aprendi o sentido da vida, quando a morte se preparava para nos separar. E aprendi que a morte não nos separou. Não tive um pai. Tenho um pai. Apenas deixei de o ver.
18.10.2007, comemorando o teu 78º aniversário.
E recebi o afago que me conduziu ao sono.
Das tuas mãos me larguei para dar as primeiras braçadas no mar revolto.
E me larguei, convicto, para dar as primeiras pedaladas.
Das tuas mãos recebi a primeira medalha, celando a primeira vitória.
E recebi a primeira espingarda.
Das tuas mãos recebi os primeiros ensinamentos de como conduzir.
Das tuas mãos recebi muito, mesmo sendo pouco. Por ser uma dádiva.
Por ser uma dádiva, não foi das tuas mãos, antes nas tuas mãos.
Nas tuas mãos aprendi a andar. E adormeci serenamente.
Nas tuas mãos aprendi a nadar. E aprendi a andar de bicicleta.
Nas tuas mãos senti o primeiro sabor da vitória.
E aprendi a caçar e a pescar.
Nas tuas mãos aprendi a conduzir. E a conduzir a minha vida.
Nas tuas mãos aprendi o sentido da vida, quando a morte se preparava para nos separar. E aprendi que a morte não nos separou. Não tive um pai. Tenho um pai. Apenas deixei de o ver.
18.10.2007, comemorando o teu 78º aniversário.
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