Demos mergulhos, jogámos na água, mas não entrei. Só que ele já lhe tomou o gosto; aquele vício inexplicável de se fazer ao mar e às ondas: perde-se uma, apanha-se outra, reservamo-nos para uma onda grande mas só conseguimos apanhar a seguinte, enfim... coisas do mar e de quem apanha ondas, como ele. Eu fiquei a vê-lo, ou melhor, a deliciar-me a observá-lo, persistente e feliz; aquele corpo de menino em cima da prancha, lá ao longe, onde as ondas se formavam, subindo na crista e deslizando na espuma. E eu, alheado de tudo à minha volta e sorrindo.
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6.6.15
3.6.15
Momentos
Foi um dia estranho, o de hoje. Um dia improdutivo, em que quase nada correu bem e que começou onde quase todos evitamos começar: nas Finanças e a pagar! Bom, podia ser pior se tivesse começado num hospital e ainda lá estivesse em vez de estar aqui a escrever. Mas acabou bem... (vá lá). Como acabam quase todas as terças-feiras, especialmente hoje que arranjei tempo para uma caminhada em passo acelerado no Estádio Universitário e ainda assisti ao final do treino de vólei da mais nova. Jantámos fast food, como quase sempre fazemos. Não gosto mas não me queixo - que valor havia de dar ao pequeno sacrifício de comer comida de plástico quando no outro prato da balança está a companhia da minha filha? Nenhum! Falamos que nos fartamos, quer dizer, eu falo que me farto, o que, devo confessar, me deixa espantado. E são momentos como este que, afinal de contas, fazem os dias. Um dia estranho, improdutivo, em que quase nada correu bem, que começou onde eu não queria que começasse, mas que acabou devolvendo-me a serenidade de que eu estava necessitado.
Como diz o ditado (acho que é mais ou menos assim, pelo menos no conteúdo): no fim tudo acaba bem; se não está bem é porque ainda não acabou. *
29.3.11
Ela, a neta, descreveu-A assim. Eu, o filho, não A descreveria melhor.
Se há uma característica que distingue a avó Edith (e também distinguia o avô Miguel) das outras pessoas é o seu abraço. E os que tiveram a sorte de um dia sentir a energia do xi-coração da avó Edith, sabem do que estou a falar. Esta energia é mais do física e vai até ao ponto mais profundo do seu coração. O seu amor é tão infinito que não há forma alguma de, ao lembramo-nos dela, sentirmo-nos sós ou tristes. E estando perto dela fisicamente, paz é a sensação que se apodera de nós. Apesar de ser avó, e de estar neste mundo há tanto tempo, é a pessoa com a mente mais aberta que já conheci. Capaz de compreender o mundo e cada ser deste planeta, com uma abertura indescritível, a vovó Edith ensinou-me a ser tolerante, respeitadora e (por mais complicado que isso possa ser para uma pessoa como eu) paciente. Não existe barreira para a sua capacidade de compreensão para com qualquer situação e, naturalmente, todos os problemas têm uma solução para a avó Edith. Diz-me que essa solução está dentro de nós, que só precisamos de concentrarmo-nos no que há de positivo para encontrarmos a resposta. E, acrescenta, se não consegues vislumbrar nada de bom, então respira fundo e sente! Sente o amor que te rodeia e vais ver que tudo ficará mais claro. Ambas acreditamos na força do espírito e do sentir. E por isso, mesmo longe tanto tempo (e tão, tão longe), cada vez que falávamos eu dizia Tu sabes que eu te amo, não sabes avó? e a vovó Edith respondia Eu não sei filha... eu sinto. E hoje, sem poder estar aí convosco e apesar de me custar não poder abraçar os que tanto amo, eu digo Eu não sei avó... eu sinto e sempre sentirei o teu amor.
6.3.11
Acerca de terapia.
Um homem passa as semanas numa gestão milimétrica do tempo, esse luxo precioso nos dias que correm. Uns dias em Paris metido em salas de reunião, outros dias em Londres entre quatro paredes, que poderemos chamar, também, salas de reunião, e eis que chega a sexta-feira. Tardia, mas chega. E com ela sonhamos com o sábado que está prestes a receber-nos para um merecido repouso. Às 08:30h desse sábado o homem é acordado com um convite que soa a forte e irrecusável recomendação. Para caminhar. A tal terapia de que já vos falei. Caminhar junto ao mar. Dez quilómetros, no total. A meio da caminhada, já sem ter a certeza se os músculos das pernas me tinham abandonado algures, quase juraria que as virilhas tinham decidido apanhar um táxi de volta ao estacionamento. Algo que deveria ter feito também. Mas o orgulho, esse maldito companheiro, quer dizer, a terapia, essa abençoada companhia, levaram-me a decidir o contrário. Mal sabia eu que no sábado tínhamos ficado a meio da terapia. Amanhã coloco um anúncio, dando alvíssaras a quem encontrar uns músculos destroçados e umas virilhas cansadas, lá para os lados de Cascais.
28.11.10
Parabéns filha.


Há mais de um ano que foi para longe e há mais de um ano que não nos abraçamos. Ficámos os dois a saber o significado de antípodas, para além do que nos dizem os livros. Estamos mais longe, mas não estamos menos próximos. Hoje (lá onde ela está é quase amanhã), faz 26 anos. Hoje é o dia de aniversário da minha menina mais velha.
(Um dia destes voltarei aqui para vos falar da experiência dela).
22.9.10
Pois tenho.
Tenho um bom filho. Um bom menino. Menino que é como quem diz, que já vai a caminho dos vinte e dois anos. Há muito que queria dizê-lo, escrevê-lo. Companheiro de vida. Gosto deste meu filho que comigo vive nesta casa, que agora nos parece grande e de quem tão pouco dou a conhecer. Tenho um bom filho. E sorrio ao dizê-lo. Apeteceu-me escrever, assim, simplesmente, e sem muitas palavras. Por não sentir falta delas, bastando-me o que sinto. Tenho um bom menino. Pois tenho.
19.9.10
Nós...
... hoje fizemos as perguntas que devíamos ter feito um ao outro quando nos conhecemos. E rimo-nos. Com as respostas e um para o outro. Hoje não era um dia especial. Passou a ser. Para nós.
3.8.10
Eu e a mais nova gostamos.
1.8.10
Criatividade, ou...
Há dias, depois de várias tentativas em vão para entrar em contacto com a mais nova pelo telemóvel, a conversa ao chegar a casa foi breve e desenrolou-se assim:Olha lá menina, porque tens o telemóvel desligado?
Tirei o cartão, pai.
E porque raio tiraste o cartão, podes explicar-me?
Para tocar guitarra... é que não encontro a minha palheta.
(...) ?!?!?!?! (...)
Fui ao quarto do mais velho buscar uma palheta de estimação, que me foi oferecida pelo Jorge Ben Jor, e entreguei-a explicando-lhe quem fora o dono da palheta. Sorriu, agradeceu-me, colocou o cartão no telemóvel e continuou a tocar guitarra, feliz, como se nada tivesse acontecido. Criatividade ou um pai a tentar entender-se com uma filha pré-adolescente? Estou pronto a escutar opiniões dos mais diversos quadrantes.
4.7.10
Programa familiar.
Foi bonita a 8ª Gala de Boxe Olímpico, com o Pavilhão Casal Privilégio engalanado para receber inúmeros apoiantes e apaixonados pela nobre arte. O orgulho do meu irmão, escondido com dificuldade, tinha origem no facto de ser o treinador de alguns dos atletas que representavam o nosso clube e não por ser o gerente de algo que inicialmente não passava de um velho barracão e hoje é, depois de esforços incalculáveis e de uma dedicação extrema, um respeitável clube de boxe amador da Grande Lisboa. Estou certo que é com muita dificuldade e hercúlea compreensão que alguém possa entender a ida a uma gala de boxe amador como um programa familiar. Mas foi assim ontem, com três gerações sentadas na primeira fila. A minha mãe nunca foi e não é agora, aos oitenta e dois anos, que se irá tornar apreciadora. Mas sente que cumpre uma missão, ao apoiar um dos filhos. Eu não, eu sempre fui fã mesmo de antes de praticar. Para o mais novo foi a sua estreia de boxe ao vivo, aos cinco anos. E gostou, principalmente quando pediu dois pares de luvas ao tio e subiu com o pai ao ringue, depois da gala ter terminado e o pavihão ser só nosso. Gosto de boxe, principalmente de boxe amador. Mas isso não interessa agora. O que importa é ter gostado de rever o Pelé, um dos meninos que "tirámos da rua". Venceu o seu combate e teve uma performance fantástica (está a combater muito bem o miúdo). Foi gratificante constatar que se mantém humilde e respeitador e sentir o meu momento de orgulho silencioso e solitário quando me disse que tinha passado o ano com muito boas notas. Afinal... afinal ainda há esperança.
12.1.10
Há algo de errado aqui...


Ela tem vinte e cinco anos. Eu trabalho há mais de trinta. Ela está a fazer o mestrado em comunicação nas antípodas. Eu continuo a trabalhar como um mouro na terrinha. Ela tem coragem, estuda e trabalha a servir às mesas. A mim talvez tivesse faltado a coragem em alguns momentos, mas também já fiz de tudo um pouco. Ela telefonou-me hoje e disse-me que a casa nova dela tinha piscina. Eu perguntei-lhe se estava a chover muito por lá e se tinha tido uma inundação. Ela respondeu-me que não, que tinha mesmo uma piscina. Eu retorqui, perguntando-lhe se estava metida em algum negócio ilícito e obscuro. Ela riu-se muito e garantiu-me que não. Não desisti e, desconfiado, perguntei-lhe se se tinha mudado com as amigas para um condomínio com piscina. Ela voltou a rir-se e respondeu-me que viviam numa casa. E acrescentou que era a 10 minutos a pé da praia e o do trabalho e a 15 minutos da universidade. Perante o meu silêncio incrédulo, acrescentou que estavam a pagar menos de 100 euros por semana de renda. Pareceu-me feliz mas, ainda assim, perguntei-lhe se estava. Disse-me que sim, que estava com saudades, mas estava feliz. Conversámos, rimo-nos e despedimo-nos. Fiquei a pensar que só podia haver algo de errado aqui. Aqui, onde vivemos, neste belo e pitoresco país, repleto de história, beleza natural, genuinidade, de gentes amáveis e de clima temperado. Temperado? Voltou a ideia dos frangos que, se não for bem sucedida, posso sempre agarrar-me ao volante de um carro de praça. Continuo a achar que há algo de errado aqui. Vocês não acham?15.10.09
Partiu.
Partiu hoje. Partiu como nós dois queríamos que tivesse partido. Partiu sorrindo e acenando-me da porta de embarque. Partiu depois de nos termos rido os dois, enquanto esperávamos pela hora em que o abraço tomaria o lugar da espera. Partiu como se fosse até ali e voltasse no domingo. Partiu sem lágrimas. Partiu feliz, sentindo que o mundo a aguardava, num desafio incontornável e inadiável. Senti o abraço ainda mais forte quando lhe disse que tinha muito orgulho nela. Partiu confiante e corajosa, sem receio de me olhar e acenar uma última vez, com o mais belo sorriso do mundo. Partiu. Partiu e não consigo explicar, nem espero que alguém me entenda, que sou um pai feliz.Foto tirada da net.
30.9.09
Brandos costumes, brando futuro.*
*Postado há cerca de um ano. Somos uma população envelhecida porque nascemos velhos. Veneramos os anciãos e esquecemo-nos de dar a mão aos mais novos. Pior, parece que os obrigamos a pensar e a agir como as gerações passadas. Ainda pior, temos dificuldade em acolher os que pensam e agem de maneira diferente da nossa, a mesma dos nossos avós. Não questionamos e temos relutância em conviver com quem o faz. Não somos inquietos, rejeitamos a inquietação e refugiamo-nos na placidez e quietude dos actos e do pensamento. Temos terror em errarmos e falta-nos coragem para enfrentarmos e lidarmos com o que é novo. O pavor de falhar tolhe-nos os movimentos e as decisões, deixando-nos, invariavelmente, no mesmo lugar. E normalmente não conseguimos esconder um sorriso mordaz quando alguém erra, entre um murmurar "eu bem te avisei", vibrando com uma vitória assente na falha de alguém. A vitória dos derrotados que não conseguem escapar ao sentimento de inveja de quem falha, recomeça e sucede. O queixume invade-nos e entranha-se na alma, inquinando quase tudo o que vem lá de dentro. O verbo que norteia as nossas vidas é o verbo aceitar. Damos os mesmos passos de quem segue à nossa frente por não nos atrevermos a ultrapassá-lo. O início preferido das nossas frases é "no meu tempo", ou "sou do tempo". Pensamos hoje como pensávamos no passado, agiremos amanhã como agimos hoje. Baixamos sempre a fasquia e vangloriamo-nos quando a passamos, esquecendo-nos que a passámos mas continuamos na mediocridade. Tinha curiosidade em ouvir a explicação de um antropólogo sobre desde quando e as razões de sermos assim. Porque Afonso pensava por ele e tinha convicções inabaláveis, cometendo a heresia de questionar e desafiar gerações anteriores. Era inquieto e idealista mas abraçou uma causa, não se ficando pela conversa numa qualquer ameia do castelo. Aqui neste país de brandos costumes, brando pensamento e branda coragem, os jovens só são bons depois de chegarem a velhos e alguns velhos só são bons depois de mortos. Fazemos das amarras grilhetas e parece que só sabemos lançar as âncoras, nunca recolhê-las. Reclamamos mudança mas jamais abdicamos de fazer as coisas da maneira como sempre as fizemos. E teremos o futuro que merecemos. Um futuro como nós. Brando, como gostamos e achamos bem. Brando.
Talvez também por isto, a minha mais velha decidiu partir. No caso dela “isto” não vai lá com a luz única e especial de Lisboa, com a beleza do casario da capital ou com oitocentos anos de História. Diz-se cansada, não só de Portugal, mas do Velho Continente. Decidiu partir e rumar para bem longe, para as antípodas. A Austrália, essa mesmo onde ponderei acabar os meus dias a assar frangos, espera por ela. Caramba, isto para um pai, digo pai, pai mesmo, com quem ela vive desde os dezasseis anos, não é fácil, não acham? Que raio, bem que podia ir para Londres, ou Madrid, sei lá, qualquer outra cidade onde duas ou três horas de vôo abrissem perspectivas de nos vermos de vez em quando. Mas não, logo a Austrália. Mas sabes o que te digo, filha? Sabes porque já to disse. Vai, não hesites, nem olhes para trás. Vai.
Talvez também por isto, a minha mais velha decidiu partir. No caso dela “isto” não vai lá com a luz única e especial de Lisboa, com a beleza do casario da capital ou com oitocentos anos de História. Diz-se cansada, não só de Portugal, mas do Velho Continente. Decidiu partir e rumar para bem longe, para as antípodas. A Austrália, essa mesmo onde ponderei acabar os meus dias a assar frangos, espera por ela. Caramba, isto para um pai, digo pai, pai mesmo, com quem ela vive desde os dezasseis anos, não é fácil, não acham? Que raio, bem que podia ir para Londres, ou Madrid, sei lá, qualquer outra cidade onde duas ou três horas de vôo abrissem perspectivas de nos vermos de vez em quando. Mas não, logo a Austrália. Mas sabes o que te digo, filha? Sabes porque já to disse. Vai, não hesites, nem olhes para trás. Vai.
29.7.09
Já sabíamos o que a casa gasta.
O breve discurso de um primo meu, no fim do almoço, tendo ao seu lado o senhor responsável pela logística do evento, ainda meio atordoado, levou a que todos, sem excepção, incluindo as pessoas que não pertenciam ao grupo, a aplaudissem. Ela ficou feliz e agradeceu humildemente. Passa a ser a pessoa mais idosa a fazer a descida do Tejo numa canoa. Foram nove quilómetros a remar no kayak do meu irmão, entre Constância e algures, passando pelo castelo de Almourol, onde se fez uma breve paragem. Oitenta e um anos bem rijinhos e cheios de uma fibra que sempre nos contagiou. Para ser sincero, nem eu, nem o meu irmão, ficámos assim tão espantados. Como se costuma dizer, sabemos bem o que a casa gasta. E no caso dela, o que a casa gasta está para durar. Que senhora rija me saiu a minha mãe.Foto tirada da net.
30.6.09
Por mais que me custe admiti-lo, penso o mesmo.
"A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates. O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria prima de um país. Porque pertenço a um país onde a esperteza é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais. Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal e se tira um só jornal, deixando-se os demais onde estão. Pertenço ao país onde as empresas privadas são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos e para eles mesmos. Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos. Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito; onde os directores das empresas não valorizam o capital humano; onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos; onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros; onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é “muito chato ter que ler”) e não há consciência nem memória política, histórica nem económica. Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar alguns. Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser “compradas”, sem se fazer qualquer exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar. Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão. Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes. Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta. Como “matéria prima” de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa. Esses defeitos, essa “chico-espertice portuguesa” congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós. Eleitos por nós. Nascidos aqui, não noutra parte. Fico triste. Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada. Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, nem serve Sócrates e nem servirá o que vier. Qual é a alternativa? Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror? Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa “outra coisa” não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados, igualmente abusados. É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda. Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias. Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer. Está muito claro. Somos nós que temos que mudar. Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos. Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e, francamente, somos tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir) que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e estou seguro de que o encontrarei quando me olhar ao espelho. Aí está. Não preciso procurá-lo noutro lado. E você, o que pensa?"Eduardo Prado Coelho
5.5.09
Cor de rosa, claro.
Ontem foi o aniversário da Maggy. É natural que não se lembrem dela, mas, de uma penada, recordo-vos. A Maggy é a minha mais que candidata a nora, a professora do mais novo. Como se já não bastasse a azáfama do fim do dia com a criançada, esta manhã levantámo-nos mais cedo, eu e o caçula, para comprarmos flores para a Maggy. Pude constatar o sorriso com que foi recebido pela sua Maggy, seguido de um afago e um agradecimento ao menino que, consta, foi o único a levar-lhe as flores, que ele próprio escolheu. E tive a oportunidade de observar o ar compenetrado do rapazinho ao entregar-lhe as rosas. Sim, ele escolheu rosas cor de rosa. Com um são flores para uma menina, pai, deu-me a conhecer, sem hesitar, o critério de escolha da cor. Ser um cavalheiro é coisa que nasce connosco, mas não custa nada cultivar. Ainda assim agradou-me o facto de o ver empolgado com a festa de aniversário da Beatriz, uma coleguinha. É que o rapaz ainda é novo e o caso com a Maggy está a tomar proporções demasiado sérias, e um pai, por vezes, não sabe como lidar com algumas situações. Alguém tem sugestões? É que, por enquanto, ele ainda prefere a zona das guloseimas à dos frescos.
22.4.09
Coisas de meninas?
Pai, quando me deres a mesada de Dezembro podias dar-me também a de Janeiro.Porquê?
Porque sim.
Porque sim não é resposta.
Deixa lá, se não quiseres dar-me, não dês.
Anda cá minha menina, que conversa é essa?
Deixa lá pai.
Eu tenho aqui as mesadas, só estou à espera que me dês uma boa razão para tas dar.
Ah, esquece, coisas de meninas, não ias entender.
(...) ????
(Afinal estava a juntar dinheiro para comprar um pc. E desde quando um pc é uma coisa de meninas? Meninas de dez anos... já me tinha esquecido disso... estou frito!)
Desabafo com alguns meses, depois de uma tentativa de diálogo com a minha mais nova.
(Afinal estava a juntar dinheiro para comprar um pc. E desde quando um pc é uma coisa de meninas? Meninas de dez anos... já me tinha esquecido disso... estou frito!)
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