Quem acompanha a desconversa que vou mantendo com quem me lê, já lá vão mais de dois anos, sabe que a política é um tema arredio por estas bandas. E, acreditem, também o é na minha vida pessoal, pelo menos de uma forma apaixonada e mercuriana. Prefiro o pragmatismo do quotidiano a conjecturas políticas, muitas vezes suportadas por jogos pouco claros ou nada transparentes. A respeito da vida política nacional e destas eleições, que eu me lembre, toquei duas vezes no assunto. Uma, a que me levou a este título, para relembrar todos os críticos de José Sócrates, nos quais me incluo, a admitirem publicamente que o povo português é tolo, ignorante e tem o que merece, aliás sempre teve. Outra fazendo menção a Manuela Ferreira Leite e manifestando a minha insatisfação por ter como expectro um primeiro ministro que devia estar em casa a cuidar nos netos e que não abria perspectivas positivas para o país. MFL, tal como o PSD, é uma marca gasta, envelhecida e conotada com uma vertente premium nociva, aburguesada, distante e pouco sedutora, por liderar um partido de barões. Marcas e produtos com estas características arriscam-se a perder. O consumidor não se identifica com elas e não as compra. Se juntarmos a isto uma campanha deplorável, sem nervo, com erros graves e sem uma, apenas uma, promessa com poder de conquista, então o mais provável é, e foi, ver as costas e não o sorriso dos consumidores. O povo é quem mais ordena e ordenou, tal como os consumidores são, em última instância, os juízes que declaram o sucesso ou o fracasso de uma marca ou de um produto. Apesar disso não nos esqueçamos, nem nos iludamos: quem sabe o que é melhor para uma marca é quem manda nela, ou seja, o markteer, e não o consumidor. Barak Obama, personalidade por quem não nutro simpatia, parece não se ter esquecido disso, mas o mesmo não aconteceu com o PSD e a MFL. O consumidor não é muito esperto, nem tão pouco muito inteligente. Acham que o povo, principalmente o português, o é? Obama deu a volta aos americanos porque foi competente, porque lhes prometeu o que eles desejavam e os convenceu. E o PSD e a MFL? Foram incompetentes e deixaram que o povo mais ordenasse. E o povo fez o quê? Ordenou!
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27.9.09
O povo é quem mais ordena.
Quem acompanha a desconversa que vou mantendo com quem me lê, já lá vão mais de dois anos, sabe que a política é um tema arredio por estas bandas. E, acreditem, também o é na minha vida pessoal, pelo menos de uma forma apaixonada e mercuriana. Prefiro o pragmatismo do quotidiano a conjecturas políticas, muitas vezes suportadas por jogos pouco claros ou nada transparentes. A respeito da vida política nacional e destas eleições, que eu me lembre, toquei duas vezes no assunto. Uma, a que me levou a este título, para relembrar todos os críticos de José Sócrates, nos quais me incluo, a admitirem publicamente que o povo português é tolo, ignorante e tem o que merece, aliás sempre teve. Outra fazendo menção a Manuela Ferreira Leite e manifestando a minha insatisfação por ter como expectro um primeiro ministro que devia estar em casa a cuidar nos netos e que não abria perspectivas positivas para o país. MFL, tal como o PSD, é uma marca gasta, envelhecida e conotada com uma vertente premium nociva, aburguesada, distante e pouco sedutora, por liderar um partido de barões. Marcas e produtos com estas características arriscam-se a perder. O consumidor não se identifica com elas e não as compra. Se juntarmos a isto uma campanha deplorável, sem nervo, com erros graves e sem uma, apenas uma, promessa com poder de conquista, então o mais provável é, e foi, ver as costas e não o sorriso dos consumidores. O povo é quem mais ordena e ordenou, tal como os consumidores são, em última instância, os juízes que declaram o sucesso ou o fracasso de uma marca ou de um produto. Apesar disso não nos esqueçamos, nem nos iludamos: quem sabe o que é melhor para uma marca é quem manda nela, ou seja, o markteer, e não o consumidor. Barak Obama, personalidade por quem não nutro simpatia, parece não se ter esquecido disso, mas o mesmo não aconteceu com o PSD e a MFL. O consumidor não é muito esperto, nem tão pouco muito inteligente. Acham que o povo, principalmente o português, o é? Obama deu a volta aos americanos porque foi competente, porque lhes prometeu o que eles desejavam e os convenceu. E o PSD e a MFL? Foram incompetentes e deixaram que o povo mais ordenasse. E o povo fez o quê? Ordenou!
30.6.09
Por mais que me custe admiti-lo, penso o mesmo.
"A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates. O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria prima de um país. Porque pertenço a um país onde a esperteza é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais. Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal e se tira um só jornal, deixando-se os demais onde estão. Pertenço ao país onde as empresas privadas são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos e para eles mesmos. Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos. Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito; onde os directores das empresas não valorizam o capital humano; onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos; onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros; onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é “muito chato ter que ler”) e não há consciência nem memória política, histórica nem económica. Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar alguns. Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser “compradas”, sem se fazer qualquer exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar. Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão. Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes. Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta. Como “matéria prima” de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa. Esses defeitos, essa “chico-espertice portuguesa” congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós. Eleitos por nós. Nascidos aqui, não noutra parte. Fico triste. Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada. Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, nem serve Sócrates e nem servirá o que vier. Qual é a alternativa? Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror? Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa “outra coisa” não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados, igualmente abusados. É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda. Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias. Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer. Está muito claro. Somos nós que temos que mudar. Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos. Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e, francamente, somos tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir) que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e estou seguro de que o encontrarei quando me olhar ao espelho. Aí está. Não preciso procurá-lo noutro lado. E você, o que pensa?"Eduardo Prado Coelho
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