

Ela tem vinte e cinco anos. Eu trabalho há mais de trinta. Ela está a fazer o mestrado em comunicação nas antípodas. Eu continuo a trabalhar como um mouro na terrinha. Ela tem coragem, estuda e trabalha a servir às mesas. A mim talvez tivesse faltado a coragem em alguns momentos, mas também já fiz de tudo um pouco. Ela telefonou-me hoje e disse-me que a casa nova dela tinha piscina. Eu perguntei-lhe se estava a chover muito por lá e se tinha tido uma inundação. Ela respondeu-me que não, que tinha mesmo uma piscina. Eu retorqui, perguntando-lhe se estava metida em algum negócio ilícito e obscuro. Ela riu-se muito e garantiu-me que não. Não desisti e, desconfiado, perguntei-lhe se se tinha mudado com as amigas para um condomínio com piscina. Ela voltou a rir-se e respondeu-me que viviam numa casa. E acrescentou que era a 10 minutos a pé da praia e o do trabalho e a 15 minutos da universidade. Perante o meu silêncio incrédulo, acrescentou que estavam a pagar menos de 100 euros por semana de renda. Pareceu-me feliz mas, ainda assim, perguntei-lhe se estava. Disse-me que sim, que estava com saudades, mas estava feliz. Conversámos, rimo-nos e despedimo-nos. Fiquei a pensar que só podia haver algo de errado aqui. Aqui, onde vivemos, neste belo e pitoresco país, repleto de história, beleza natural, genuinidade, de gentes amáveis e de clima temperado. Temperado? Voltou a ideia dos frangos que, se não for bem sucedida, posso sempre agarrar-me ao volante de um carro de praça. Continuo a achar que há algo de errado aqui. Vocês não acham?


