12.1.10

Há algo de errado aqui...




Ela tem vinte e cinco anos. Eu trabalho há mais de trinta. Ela está a fazer o mestrado em comunicação nas antípodas. Eu continuo a trabalhar como um mouro na terrinha. Ela tem coragem, estuda e trabalha a servir às mesas. A mim talvez tivesse faltado a coragem em alguns momentos, mas também já fiz de tudo um pouco. Ela telefonou-me hoje e disse-me que a casa nova dela tinha piscina. Eu perguntei-lhe se estava a chover muito por lá e se tinha tido uma inundação. Ela respondeu-me que não, que tinha mesmo uma piscina. Eu retorqui, perguntando-lhe se estava metida em algum negócio ilícito e obscuro. Ela riu-se muito e garantiu-me que não. Não desisti e, desconfiado, perguntei-lhe se se tinha mudado com as amigas para um condomínio com piscina. Ela voltou a rir-se e respondeu-me que viviam numa casa. E acrescentou que era a 10 minutos a pé da praia e o do trabalho e a 15 minutos da universidade. Perante o meu silêncio incrédulo, acrescentou que estavam a pagar menos de 100 euros por semana de renda. Pareceu-me feliz mas, ainda assim, perguntei-lhe se estava. Disse-me que sim, que estava com saudades, mas estava feliz. Conversámos, rimo-nos e despedimo-nos. Fiquei a pensar que só podia haver algo de errado aqui. Aqui, onde vivemos, neste belo e pitoresco país, repleto de história, beleza natural, genuinidade, de gentes amáveis e de clima temperado. Temperado? Voltou a ideia dos frangos que, se não for bem sucedida, posso sempre agarrar-me ao volante de um carro de praça. Continuo a achar que há algo de errado aqui. Vocês não acham?

11.1.10

O início da presidentA, o nosso final # 2.

Vai daí, antes de vos dizer o que resolveram, deixem-me que vos diga que esta história está muito mal contada. Tem um conteúdo delicioso e está escrita com a habitual mestria da presidentA, mas cá me parece que este inesperado rigor com a dieta alimentar está a servir de camuflagem a algo que só mais tarde poderá ser revelado. Adiante, que não tenho nada a ver com isso e ainda sou acusado de levantar suspeitas ditas infundadas. Reza o final do início que sem o inestimável préstimo de amigos, jamais os dois amantes se voltariam a refeiçar. Vai daí, resolveram ser mais cuidadosos e não inquietarem as famílias Sericchaio e Bifeleto, e esperarem por uma oportunidade especial para se refeiçarem. É verdade que contaram com o inestimável préstimo de Patate Fritti, um amigo de ambos que, por ser tão redondo e caseiro, lhe chamavam “Frei Patate”, e do inebriante e bem disposto Vino Rosso que aconselhou o jovem Bifeleto a fazer regime e exercício físico, para se ver livre de adiposidades indesejáveis, abrindo-lhe, com esse propósito, as portas do ginásio À La Planche. Patate Fritti, durante um passeio campestre com a bela Sericchaia, sugeriu-lhe dar menos ouvidos às ameixas doces que a rodeavam, afiançando-lhe que deveria estar mais atenta e dar-se mais com as ameixas de gosto mais misterioso e atrevido. E como sofreram os dois amantes com a separação e a ansiosa espera do reencontro. Bifeleto deixou parte da gordura na grelha e Sericchaia não conseguiu evitar o rubor nas faces e o sangue em ebulição ao ouvir as conversas das ameixas mais atrevidas, conversas que o pudor me impede de transcrever. Passado algum tempo, Bifeleto, esbelto e irresistível, chega à pitoresca e romântica vila Ares Della Mia Grazia montado no seu imponente Uovo, o garanhão que o patriarca dos Bifeletos lhe tinha oferecido. Por aqui poderão ver que a história não está muito bem contada. É que nenhum de nós consegue imaginar, como diz a presidentA, o Uovo a cavalo do garboso Bifeleto. Seguindo, senão perco-me. Os Amici, que anteriormente o tinham rejeitado, deram, entretanto, permissão que os jovens passeassem de mãos dadas, à vista de todos pela Tavolo, praça principal da romântica vila, e que jantassem juntos e a sós essa noite, em que Bifeleto iria pedir a mão de Sericchaia. E foi nessa mesma noite que, entre olhares trocados, sorrisos cúmplices, segredos íntimos e pensamentos libidinosos, Bifeleto e a bela Sericchaia, sucumbindo ao desejo e à paixão, se refeiçaram.

Porque hoje é segunda-feira, os meus filmes.

Robert e Francesca tinham chegado a um ponto das suas vidas em que as expectativas faziam parte do passado. Contudo... contudo a vida, como quase sempre, tem contornos inesperados. Para Robert e Francesca foi tarde, apesar de glorioso. Mas para nós As Pontes de Madison County é um filme extraordinário, que chega sempre a tempo de ser visto ou revisitado.

8.1.10

Bom fim-de-semana.

Foto: Outros Olhares

7.1.10

Quando as peças encaixam...

... as pessoas são felizes. As peças encaixam porque as pessoas são felizes ou são felizes porque as peças encaixam? Sei lá. O que importa, ou deveria importar, é que as pessoas sejam felizes, encaixem as peças ou não.

Imprescindíveis?

Queremos muitas vezes acreditar que somos, mas nas nossas vidas são poucas as situações, mesmo considerando as mais dramáticas, em que realmente o somos. Profissionalmente desejamos acreditar porque nos transmite segurança, mas nós vamos, como os anéis, e as empresas ou instituições ficam, como os dedos. Nos casamentos, ou nas relações, há momentos em que achamos que sim, mas elas acabam e a vida continua, mostrando-nos que não éramos ou nunca o fomos. Até nas amizades assim acontece. Quando racionalizamos, quando a lucidez não nos é tolhida pela emoção, temos a perfeita noção que quase nunca somos imprescindíveis. Vivido quase meio século, não tenho mais essa ilusão. Como não tenho a ilusão dos poucos (únicos?) momentos em que me sinto imprescindível. Um deles é na tarefa que a vida me agraciou, no papel de pai. O outro, mais recente e que tenho vindo a descobrir com o tempo, é também uma dádiva da vida. O papel de filho. Se a tarefa de ser pai a vivo há vinte cinco anos, a de filho sinto que só comecei a vivê-la há cerca de quatro. Descoberta recente, como disse, despertada pelo que a minha mãe me contou, relembrando as palavras sábias da minha avó preta, quando já no final da sua vida lhe dizia minha filha, minha mãe. Imprescindíveis? só somos como pais ou mães e como filhos ou filhas.

4.1.10

Porquer hoje é segunda-feira, os meus filmes.

Um filme que afectou o próprio Steven Spielberg, que colocou na tela a história de Oskar Schindler, um checo que salvou a vida de mais de um milhar de judeus. A prática cruel que os nazis consideraram como “a solução final” aconteceu apenas há pouco mais de sessenta anos atrás. A Lista de Schindler para mim é um filme eterno. Por tudo.