Passei os últimos tempos da minha vida de relance. E num relance, como foram os últimos tempos da minha vida. Poucas pessoas, muito poucas, me fazem sorrir ou rir. Penso, preocupado, que nunca precisei de ninguém que me fizesse sorrir. Só precisava de mim. “Tens que treinar, tens começar hoje”, diz-me com um sorriso quem me faz rir. Diz-me quem amo. Dei como adquirido o sorriso e o riso, mas a vida, por vezes, tem outros projectos para nós. Quiçá para nos pôr à prova. Deve ser isso, ela gosta de nos pôr à prova. Mas o riso treina-se? Pergunto, vacilante, aos meus dois neurónios. Claro, responde-me um deles sem hesitar, que o outro continuava de cara fechada. O sorriso e o riso são como os músculos do nosso corpo e o nosso cérebro: têm que ser exercitados. Vou dar início aos treinos, mas primeiro sozinho e isolado, não vá alguém achar que devia ser internado. Devia andar sempre com os livros do Calvin & Hobbes e era remédio santo. E podia sempre dizer que tinha dois personal trainers estrangeiros.
6.10.13
1.10.13
Cidades
Há pessoas que, logo num primeiro contacto, mostram o que são: desorganizadas e desordenadas, iletradas, incultas, pobres e que emanam uma felicidade e uma descontracção que, inevitavelmente, consideramos irresponsável. Há outras pessoas que são diferentes. E que conseguem fazer com que levemos tempo até percebermos que afinal não são. Excepção feita à felicidade e descontracção. Emanam uma tristeza e um ar sério que, equivocadamente, consideramos responsável. Descobri que com as cidades também é assim. Talvez por serem habitadas por pessoas diferentes.
2.8.13
Sobre o sacrifício.
Só conheci uma pessoa que me falava dos sacrifícios da vida com um sorriso nos lábios. Um sorriso apaziguador e que nos embalava como se fossem dois braços firmes e calorosos. E que nos fazia esquecer os sacrifícios. É preciso que a vida passe por nós para percebermos o verdadeiro significado do que essa pessoa nos queria transmitir quando citava Mohandas Karamchand Gandhi. “Uma vida de sacrifício é o cume supremo da arte; é cheia de alegria verdadeira”. Porque uma vida de sacrifício significa que nos entregámos a causas e, mais importante, aos outros, não é mãe?
1.8.13
Hoje.
Hoje.
Hoje lavei a alma. E a alma sorriu-me mais forte que ontem.
Sorriu, tímida, com um sabor inesperado a sal. Hoje lavei a alma.
Hoje voltei aqui, depois de mais de dois anos sem desconversar.
Hoje. E amanhã? Amanhã é amanhã, certo?
30.3.11
29.3.11
Ela, a neta, descreveu-A assim. Eu, o filho, não A descreveria melhor.
Se há uma característica que distingue a avó Edith (e também distinguia o avô Miguel) das outras pessoas é o seu abraço. E os que tiveram a sorte de um dia sentir a energia do xi-coração da avó Edith, sabem do que estou a falar. Esta energia é mais do física e vai até ao ponto mais profundo do seu coração. O seu amor é tão infinito que não há forma alguma de, ao lembramo-nos dela, sentirmo-nos sós ou tristes. E estando perto dela fisicamente, paz é a sensação que se apodera de nós. Apesar de ser avó, e de estar neste mundo há tanto tempo, é a pessoa com a mente mais aberta que já conheci. Capaz de compreender o mundo e cada ser deste planeta, com uma abertura indescritível, a vovó Edith ensinou-me a ser tolerante, respeitadora e (por mais complicado que isso possa ser para uma pessoa como eu) paciente. Não existe barreira para a sua capacidade de compreensão para com qualquer situação e, naturalmente, todos os problemas têm uma solução para a avó Edith. Diz-me que essa solução está dentro de nós, que só precisamos de concentrarmo-nos no que há de positivo para encontrarmos a resposta. E, acrescenta, se não consegues vislumbrar nada de bom, então respira fundo e sente! Sente o amor que te rodeia e vais ver que tudo ficará mais claro. Ambas acreditamos na força do espírito e do sentir. E por isso, mesmo longe tanto tempo (e tão, tão longe), cada vez que falávamos eu dizia Tu sabes que eu te amo, não sabes avó? e a vovó Edith respondia Eu não sei filha... eu sinto. E hoje, sem poder estar aí convosco e apesar de me custar não poder abraçar os que tanto amo, eu digo Eu não sei avó... eu sinto e sempre sentirei o teu amor.
15.3.11
A sério??? Digam-me que ouvi mal!
É provável que tenha ouvido mal, porque apanhei a notícia já no final e estava a conduzir. O IVA dos campos de golfe vai passar a ser de 6% em vez de 23%? Por uma boa causa, claro. O turismo é importante. Ah pronto, o leite e outros bens de consumo não são assim tão importantes. Pelo menos não tão importantes como o golfe... quer dizer, como o turismo. Como se para quem joga golfe, isso fizesse uma grande diferença. Já agora: com os campos de futebol de salão das autarquias, normalmente alugados a jovens que gostam de praticar esse desporto popular, não houve contemplações: o IVA passou para 23%. Vou admitir, e desejar, ter ouvido mal.
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