30.4.09
Sabedoria popular: entre a realidade e o que devia ser.
29.4.09
As mulheres, o Diabo e o Anjo. (VI)
Considero-me, por natureza e ensinamentos, um condutor cauteloso, aquilo a que os ingleses chamam safe driver. A isso acrescem os trinta e um anos de carta de condução, mais trinta e sete de condução (não, não me enganei), para além de muitas centenas de milhares de quilómetros palmilhados não só em Portugal, mas por essa Europa fora. As passadeiras dos peões são sagradas para mim, apesar de nem sempre o serem para eles próprios. São sagradas e clamam por uma atenção redobrada quando atravessadas por idosos, jovens, ou qualquer ser humano que continue a falar ao telemóvel enquanto as atravessa. São raríssimas as vezes que retomo a marcha sem que os peões estejam no passeio, malgrado as buzinadelas com que sou, amiúde, brindado. No caso dos idosos porque fico sempre com a sensação que se podem desequilibrar, nos outros casos porque a sensação é outra, a de inversão repentina da marcha dos peões distraídos. Adiante, que tenho uma história para contar e daqui a nada não tenho leitores para a ler. Hoje de manhã parei numa passadeira para deixar que uma senhora idosa, apoiada numa bengala, a atravessasse. Segui à risca os procedimentos que descrevi, só que ela se desequilibrou e tombou na passadeira, à minha frente. Accionei os quatro-piscas, saí do carro e fui socorrê-la. Estava calma e aparentemente bem, apesar do tombo. Aproximaram-se populares e podem imaginar o que se seguiu enquanto me inteirava do estado da senhora. Passei de suspeito a arguido e de arguido a réu à velocidade do ponteiro dos segundos do relógio. E de réu a culpado em menos de um minuto. Mantive-me calmo, ignorando o veredicto dos jurados, e concentrando-me na senhora que já estava de pé ao meu lado. Quando estava prestes a ser condenado eis que se levanta a voz protectora da “atropelada” em minha defesa, num fazem o favor de se calar e pararem de dizer disparates? não têm mais que fazer? vão à vossa vida e deixem o moço em paz que a culpa não foi dele, foi destas minhas cansadas pernas. Ofereci-lhe o meu braço, que ela aceitou com um sorriso e, imunes ao trânsito, às buzinas e ao ajuntamento, fomos para o passeio. Já composta e com um sorriso que fez adivinhar uma mulher outrora muito bela, mas ainda bela, olhou-me nos olhos, enquanto alisava as vestes, e seguiu-se um rápido e aprazível diálogo.Ó filho diga-me uma coisa, estou muito despenteada?
Não, a senhora continua impecável e está linda, quero dizer, é muito bonita. Tem a certeza que está bem?
Eu estou óptima e já ganhei o dia, por ter estado nos braços de um jovem tão garboso.
Ora essa, simpatia sua.
Ela, um anjo de senhora, retorquiu, após um suspiro e um sorriso maroto, que gostava de saber a que horas da manhã eu passava por ali para atravessar a passadeira à mesma hora. Sorri, disse-lhe a hora e despedimo-nos. O trânsito estava um caos, mas o tribunal popular já tinha debandado. Pelo sim, pelo não, amanhã tomo outro caminho para o escritório, não vá cruzar-me de novo com aquele anjo de senhora. Anjo? Não restem dúvidas para ninguém que era uma senhora.
Entre ciúmes, acho que tenho tido sorte.
Receio ou despeito de certos afectos não serem exclusivamente para nós. Inveja, receio. Isto não é nada bonito, nada mesmo. E se não é nada bonito, eu devia ter vergonha, mas não tenho. Sempre admiti que sou ciumento, não aquele ciúme com os filhos ou com os amigos, mas aquele ciúme com mulheres, com a minha e outros homens. “A minha” já soa mal e lido, então, nem é bom falar. Ciúme, aquela coisa parva que não sabemos explicar, sem conseguirmos encontrar as razões para ela, e sem que alguém nos dê, objectivamente, motivos para tal. E o pior é que, para além de assumir, sempre manifestei os meus ciúmes. Uma tolice pegada. Dou por mim a implicar com uma saia – não tens uma saia mais curta? podias levar um cinto dos meus, ou com um decote mais ousado – podias tapar-te mais um bocadinho, não vá alguém ficar com problemas de visão. Isto para não falar de trocas de olhares, conversas entre sorrisos com outros homens. Mas tenho tido sorte, porque estes meus ciúmes sempre tiveram como resposta um sorriso ou uma gargalhada, um beijo ou um afago e um tchau não sejas assim, com um alegre bater de porta no meu nariz. Por vezes fico com a sensação que não me levam a sério, ou que os meus ciúmes até são bem vindos. Vá-se lá perceber as mulheres. Eu já desisti de as tentar entender, como por exemplo os anjos que, a certa altura, desistem de tentar compreender o diabo. Fico-me com os meus ciúmes e não tenho que me lamentar porque, assim como assim, até tenho tido sorte. Talvez haja ciúmes e ciúmes, sei lá, e os meus sejam apenas ciúmes.
28.4.09
Gosto das mulheres de Botero.
Respira fundo porque está decepcionada? Ou olha pela janela à espera do homem que ainda não chegou? Pelo (pouco) trajar dir-se-ia que o espera uma boa surpresa, mas pelo olhar (de poucos amigos) adivinha-se um exigir de explicações seguido de uma inevitável briga. Mas se ainda é dia, estará a vê-lo partir, destroçada? Destroçada ou a pensar que nunca mais o quer ver? Não se consegue perceber se a cama está feita ou desfeita, e isso é um pormenor importante. Será que é assim tão importante? Fico sempre intrigado. O que sente e em que estará a pensar tão encantadora e fascinante criatura, de formas belas e generosas, postura irrepreensível e coxas roliças? Será que é o ar misterioso que a torna ainda mais deliciosa? Não sei, deve ser de tudo um pouco, mas, definitivamente, gosto das mulheres de Botero.
27.4.09
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