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25.11.09

Precisamos ter uma conversa.

As mulheres não são complicadas. Nós homens é que somos primários e desmazelados. Elas têm uma inteligência emocional superior e uma intuição aguçadíssima. E testam os homens com uma mestria cirúrgica fazendo-se valer de uma arte de manipulação fascinante. Precisamos ter uma conversa é uma frase que nós, homens, quando ouvimos, dá-nos a sensação de ter sido proferida pelo Diabo. Sim, que um Anjo nunca nos arremessaria com tal frase. E tem razão quem diz que, neste tipo de conversas, apenas Elas saem vencedoras. Quando a avassaladora frase é pronunciada, nós homens fazemos uso de todos os subterfúgios e desculpas, a maior parte delas tão esfarrapadas quanto a vestimenta do mais mendigo dos mendigos. Nesse momento colocamos o som da televisão mais alto, esquecendo-nos que o comando não é nosso e só está nas nossas mãos por uma momentânea benevolência. Vamos para a casa de banho, achando que Elas se esquecem do assunto, ou fingimo-nos cansados, esperando uma tolerância inexistente, ou uma misericórdia que nunca aparece. Os brasileiros têm uma palavra que tem tanto de carinhosa como irónica para o precisamos ter uma conversa. Chamam-lhe papo-cabeça. Só há, no meio disto tudo, uma coisa que nunca entendi. Conhecendo Elas as nossas fraquezas, sabendo Elas como nos manipular e tendo uma inteligência emocional e uma intuição superiores, e sendo Elas mais a encarnação do Diabo que dos Anjos, porque razão nunca tentam proferir essa maldita frase, dando início ao papo-cabeça, sentadas ao colo dos homens de lingerie, entre afagos e sorrrisos. Era vê-los conversar, até do que não desejariam. Um dia ainda alguém me há-de fazer entender, estou certo. E há-de ser começando por proferir a frase precisamos ter uma conversa.

1.8.09

As mulheres, o Diabo e o Anjo (VII)

Chegou a casa e atirou com a mala para o sofá esquecendo-se que não a tinha fechado, depois de ter tirado a chave de casa. Uma mala de senhora, nestas circunstâncias assemelha-se a uma granada e esta não foi excepção. Os impropérios não são descritíveis. O anjo, que estava na cozinha a fazer o jantar, estremeceu e lançou-se num vôo célere até à sala. O diabo resmungou depois do susto, ele que estava refastelado no sofá a ver televisão, bebendo cerveja e a comer amendoins. O anjo, pousado no ombro dela, desconsolada e furiosa, perguntou-lhe, num sussurro, o que se estava a passar. O diabo não se mexeu, olhando-os de soslaio enquanto se dedicava aos amendoins ruidosamente. Sem controlar a fúria respondendeu ao anjo, vociferando, que o Fabrice a tinha traído. Estava de tal forma exaltada que só um ágil bater de asas evitou que o anjo despencasse do ombro abaixo. O diabo não conseguiu evitar uma risadinha malévola. Sem ligar às palavras solidárias e carinhosas do pequeno anjinho, ela conduziu toda a raiva para o diabo. Estás a rir-te porquê? achas bem o que ele fez? (os impropérios continuavam e cada vez mais impróprios). Ora, ora, nada que tu não tenhas já feito, minha linda, respondeu-lhe o diabo, agora com um ar sério. O anjo caiu em defesa dela, exaltando todas as suas virtudes. Cala-te!, arremessou o diabo, o que sabes tu disso, anjo chato? O anjinho preparou a resposta mas foi interrompido com uma pergunta demolidora. Alto aí, tu por acaso já traíste? Cruzes, credo, nunca!, respondeu o anjo sem conseguir evitar o rubor da face. Ela voltou à carga, tirando os amendoins das mãos do diabo e gritando-lhe que não era verdade, que ela jamais fizera algo semelhente. Gerou-se uma confusão digna de um jogo da NBA e de uma disputa de bola debaixo do cesto, só que neste caso a bola era o saco dos frutos secos. Ela furiosa e o anjo divertido. O diabo pareceu desistir. Olhou-a nos olhos e arremessou, implacável: semelhante, semelhante, talvez não tenhas feito... é que o Fabrice é homem e não soube foi fazer as coisas, mas vocês mulheres sabem fazê-la, ó minha menina... tu atraiçoas sem sequer beijar e já o traíste com o Nicolas vezes sem conta, ou pensas que eu não sei? Como te atreves a acusar-me? atirou-lhe ela com a voz trémula. Desmente-me, vá, desmente-me, mas não te esqueças que tens o teu anjinho querido pousado no ombro, respondeu-lhe o diabo com um ar desafiante. Fez-se um silêncio sepulcral na sala e o desmentido...

29.4.09

As mulheres, o Diabo e o Anjo. (VI)

Considero-me, por natureza e ensinamentos, um condutor cauteloso, aquilo a que os ingleses chamam safe driver. A isso acrescem os trinta e um anos de carta de condução, mais trinta e sete de condução (não, não me enganei), para além de muitas centenas de milhares de quilómetros palmilhados não só em Portugal, mas por essa Europa fora. As passadeiras dos peões são sagradas para mim, apesar de nem sempre o serem para eles próprios. São sagradas e clamam por uma atenção redobrada quando atravessadas por idosos, jovens, ou qualquer ser humano que continue a falar ao telemóvel enquanto as atravessa. São raríssimas as vezes que retomo a marcha sem que os peões estejam no passeio, malgrado as buzinadelas com que sou, amiúde, brindado. No caso dos idosos porque fico sempre com a sensação que se podem desequilibrar, nos outros casos porque a sensação é outra, a de inversão repentina da marcha dos peões distraídos. Adiante, que tenho uma história para contar e daqui a nada não tenho leitores para a ler. Hoje de manhã parei numa passadeira para deixar que uma senhora idosa, apoiada numa bengala, a atravessasse. Segui à risca os procedimentos que descrevi, só que ela se desequilibrou e tombou na passadeira, à minha frente. Accionei os quatro-piscas, saí do carro e fui socorrê-la. Estava calma e aparentemente bem, apesar do tombo. Aproximaram-se populares e podem imaginar o que se seguiu enquanto me inteirava do estado da senhora. Passei de suspeito a arguido e de arguido a réu à velocidade do ponteiro dos segundos do relógio. E de réu a culpado em menos de um minuto. Mantive-me calmo, ignorando o veredicto dos jurados, e concentrando-me na senhora que já estava de pé ao meu lado. Quando estava prestes a ser condenado eis que se levanta a voz protectora da “atropelada” em minha defesa, num fazem o favor de se calar e pararem de dizer disparates? não têm mais que fazer? vão à vossa vida e deixem o moço em paz que a culpa não foi dele, foi destas minhas cansadas pernas. Ofereci-lhe o meu braço, que ela aceitou com um sorriso e, imunes ao trânsito, às buzinas e ao ajuntamento, fomos para o passeio. Já composta e com um sorriso que fez adivinhar uma mulher outrora muito bela, mas ainda bela, olhou-me nos olhos, enquanto alisava as vestes, e seguiu-se um rápido e aprazível diálogo.

Ó filho diga-me uma coisa, estou muito despenteada?
Não, a senhora continua impecável e está linda, quero dizer, é muito bonita. Tem a certeza que está bem?
Eu estou óptima e já ganhei o dia, por ter estado nos braços de um jovem tão garboso.
Ora essa, simpatia sua.


Ela, um anjo de senhora, retorquiu, após um suspiro e um sorriso maroto, que gostava de saber a que horas da manhã eu passava por ali para atravessar a passadeira à mesma hora. Sorri, disse-lhe a hora e despedimo-nos. O trânsito estava um caos, mas o tribunal popular já tinha debandado. Pelo sim, pelo não, amanhã tomo outro caminho para o escritório, não vá cruzar-me de novo com aquele anjo de senhora. Anjo? Não restem dúvidas para ninguém que era uma senhora.

21.4.09

As mulheres, o Diabo e o Anjo. (V)








Onde vamos?
Leva-me apenas, leva-me para onde quiseres.
Não digas isso outra vez.
Porquê?
Porque te levo para minha casa.

(silêncio)

(Ela pensativa. Quem me fala assim? será um Anjo ou o Diabo? Deve ser um Anjo, porque me sinto segura e serena. Serena? mas se me tremem as pernas só de me sentir olhada por ele... aquele olhar que me despe não pode ser de um Anjo. Deve ser o Diabo. E se me sinto nas nuvens ao pé dele, tem que ser um Anjo. Mas se ardo de desejo, ele só pode ser o Diabo. O rosto é angelical mas o sorriso é diabólico.)

Dá-me um beijo.

(Ela deu, atordoada, sonhando que beijava um Anjo mas sentindo que era beijada pelo Diabo. E entregou-se ao desejo. Sem pudor. Numa derradeira e infrutífera tentativa, mas já sem conseguir pensar, apenas se lembra de ter perguntado em silêncio... quem és tu homem? Um Anjo ou o Diabo?)

14.4.09

Evil is on details.

Se o assunto requer sensibilidade é natural que as mulheres estejam lá. Creio que todos concordamos com isso. Se é do sexto sentido que se discute, é de mulheres que se trata. Acredito que ninguém levante dúvidas sobre isso. Se estamos em presença de uma questão minuciosa, quem se atreve a dizer que não há mulheres envolvidas? Se é de detalhe que se fala, está fora de questão duvidar que as mulheres sejam ouvidas e estejam presentes. Também ninguém ousa questionar que na vida, seja o assunto pessoal ou profissional, Evil is on details. E se Evil is on details, então quem será, quase sempre esse Evil? Alguém tem dúvidas? Creio que não.

24.2.09

As mulheres, o Diabo e o Anjo. (IV)

Olá linda. Como foi o teu dia?
Para esquecer. Não dei por ti mas deves ter andado por aí a rondar.
Enganas-te. Estive todo o dia a jogar Play Station com o Anjo.
Bela vida a vossa.
Não me posso queixar, mas bela, bela és tu.
Diabo, preciso da tua ajuda para passar de nível.
Já aí vou Anjo. Não vês que estou a falar com a garota?
Não lhe dês ouvidos, rapariga, que ele não é de fiar.
E dou a quem? a ti?
Sim, claro. Já te dou atenção. Ó Diabo, anda cá.
Que chato. Vou a caminho ó andorinha.
Mais respeito, Lúcifer.
Olhem lá vocês dois, desliguem essa porcaria. Raios partam o Fabrice, que trouxe essa geringonça cá para casa. Abençoados patins que meti nos pés daquele anormal.
Não sejas assim tão cruel, que ele até é bom rapaz e gosta de ti.
Cala-te, Anjo, não sejas tão anjinho. Ele gosta é de companhia e da minha sala, aquele inútil.
Eu avisei-te, mas não me deste ouvidos. I hate to say I told you so.
Tu também podias manter essa boca fechada, Diabo.
Ainda se ele gostasse também do teu quarto...
Do quarto também gostava. E da cama, mas só para dormir.
(Uma gargalhada diabólica soou na sala)
Agora a tua crueldade está a tornar-se devassa.
Só dizes disparates, Anjo. E já te disse para desligares essa coisa.
Espera um minuto. Deixa-me ajudar este pacóvio a passar de nível e salvar o jogo.
Salvar o jogo? Salvar o jogo? Acho que é desta que nem o jogo, nem a Play Station se salvam. Vão já para o lixo.
E pões em que caixote da reciclagem?
Anjo, estás a esticar a corda. Olha que ela não está nos seus dias.
Só perguntei porque achei importante.
(Um suspiro angelical ouviu-se na sala)
Quero-vos daqui para fora. Agora! Quero paz. Esta é a minha casa, caramba!
És mesmo parvo, Anjo. Estás a ver o que arranjaste?
Agora a culpa é minha?
É sempre tua, pá. Se ela me tivesse dado ouvidos a esta hora estava nos braços do Patrick e nós podíamos estar a jogar.
O Patrick? esse cafageste que lhe fez a vida negra?
Antes a dela que a nossa.
Não, Diabo. Não contes comigo para essas diabruras. Eu não sou assim. Ou já te esqueceste que sou o Anjo? A minha missão é mantê-la longe das trevas.
Que é para onde vais, não tarda.
Não saberia lá viver, Diabo.
Eu ensino-te, não te preocupes.
Ainda estão na conversa? não vos disse para se porem a andar?
Lá fora está frio e está a chover.
(Em uníssono)
Quero lá eu saber disso para alguma coisa. Rua!
(Bater de porta da entrada)
Safa, estava a ver que não me via livre daqueles dois.
(Corpo atirado para o sofá, pés descalços em cima da mesa e olhar indeciso no telemóvel)
Patrick? Olá. Queres vir jogar Play Station cá a casa?
(Sorriso maroto no rosto)
Play Station? Tu compraste uma Play Station?
Não, foi um Anjo que a cá deixou.

5.2.09

As mulheres, o Diabo e o Anjo. (III)

Acordou sobressaltada e olhou, com os olhos semi-cerrados para o despertador pousado na mesa de cabeceira, constatando a hora tardia. Com os vodkas da noite anterior esquecera-se de ligar o despertador. Assumiu que o atraso não era recuperável por isso não valia a pena correr. Vestiu o roupão e dirigiu-se à cozinha. Um guronsan é remédio santo, e devia ter tomado um ontem, pensou. Tropeçou numa garrafa de vodka, atirando-a contra a parede com estrondo, quase partindo-a. O Anjo abriu um olho a custo e voltou a fechá-lo, escondendo a cara com vergonha, sem antes lhe desejar um bom dia com uma voz rouca. Estava num estado lastimável, com uma asa para cada lado e olheiras até aos joelhos. Ela nem queria acreditar no estado em que a sala estava. Garrafas espalhadas pelo chão, cheiro a tabaco e cinzeiros a transbordar de beatas e de restos de outros cigarros ilícitos. O seu desabafo contém impropérios que não me atrevo a escrever. O Anjo, com esforço, ainda lhe conseguiu dizer que não tinha fumado. O Diabo resmungou. Podem fazer menos barulho? haja respeito por quem descansa, caramba. Ela nem hesitou e atirou-lhe com a água destinada ao guronsan. Mais impropérios indescritíveis, desta vez de um Diabo estupefacto de cor vermelha e azulada do frio. Ela encolheu os ombros, não tardava chegaria a empregada e aqueles dois haviam de se ver com ela. Depois de um duche demorado, a toilete matinal enquanto pensava o que vestir. Decidiu-se por um tailleur Prada de saia curta e cor vermelha. Volta à sala, fazendo-se notar com os saltos altos dos sapatos. O Anjo abriu os olhos e resmungou – não tinhas uma saia que te tapasse mais as pernas? Ela nem olhou para ele, ignorando a observação. O Diabo sorriu e, com um assobio desafinado, manifestou a sua aprovação. Estás de arrasar – disse entre dentes e voltando à sua cor original. Só acho que esse decote não valoriza o teu belo peito – definitivamente o Diabo estava a recompôr-se. O Anjo tentou levantar-se para fazer valer a virtude, mas foi em vão. Ela continuou a caminhar em direcção à porta, ignorando a desaprovação de um e os elogios de outro. Estava farta daqueles dois. Um não conseguia deixar de ser anjinho por umas horas e o outro era incapaz de ser mais do que diabinho, nem que fosse por uns momentos. E os minutos a passar. Bateu com a porta, meteu-se no elevador e olhou-se ao espelho. Antes de sair no piso térreo, mirou o espelho pela última vez e, num acto de cumplicidade, usou o dedo indicador da mão direita para afrouxar a ponta do decote da blusa, deixando antever um pouco mais do seu peito firme de pele clara. Maldito Diabo!, pensou sem evitar um sorriso travesso.

18.1.09

As mulheres, o Diabo e o Anjo. (II)

Entrou na sala e livrou-se-se dos sapatos de salto alto enquanto se encaminhava para o gravador de mensagens. Apertou o botão e pensou quão obsoleto era o aparelho, mas nunca tinha tido vontade de separar-se dele. Deixou que o peso do corpo a atirasse para o confortável sofá, que a recebeu lânguido, e fechou os olhos escutando as mensagens. O Diabo apressou-se a pendurar-se num dos ombros com um sorriso conhecido por ela. Olhou para o outro ombro e reparou que o Anjo já lá estava, sentado com a cabeça apoiada nas mãos. Sorriu. Conhecia bem aqueles dois, como conheceu de imediato as vozes que o gravador debitava, do Patrick primeiro, e do Fabrice a seguir, com propósitos diferentes. Liga ao Patrick – adiantou-se o Diabo. Não vais fazer isso, pois não? – perguntou-lhe de pronto o Anjo. Precisas de te divertir, liga ao Patrick – insitiu o Diabo. Precisas é de ter juízo – retorquiu o Anjo. Não vás na conversa-mole desse Fabrice, é um chato – o Diabo não desarmava. Sabes o que te espera com o Patrick – disse-lhe o Anjo, levantando a voz. Não há quem vos aguente, vocês são uns chatos. Levantou-se bruscamente, fazendo-os tombar desamparadamente. Ei, o que é te deu? – perguntou o Anjo combalido. A culpa é tua – grita o Diabo enfurecido com o Anjo. Vou buscar um vodka. São servidos? Isto não está a tomar um bom caminho – sussurrou o Anjo com ar preocupado. Isto está a compor-se, pensou o Diabo. Está a tomar um bom caminho e eu também tomo, mas é um vodka contigo. O Anjo abanou a cabeça em sinal de reprovação. Ela voltou à sala com dois copos. O Diabo esperava-a com um sorriso maléfico e o Anjo com um ar desconsolado. Não se deixou abater e, pulando para o ombro dela, segredou-lhe porque não devia ligar ao Patrick. Ela esboçou um sorriso e sentiu um arrepio. O copo do Diabo esvaziou-se enquanto ele esfregava um olho. O Anjo aproveitou para lhe dizer porque devia responder ao Fabrice e ela suspirou desinteressadamente com os olhos fixos no tecto. O Diabo sentiu que a noite seria dele. Vou buscar a garrafa – disse entre dentes – de certeza que não queres um copo, anjinho chato? Ele tem razão, às vezes és um chato, sabias? – disse ela fitando o Anjo que, não se contendo, largou um sonoro palavrão. Então? estás a passar-te? que linguagem és essa? O Anjo corou e pediu-lhe desculpa. O Diabo rebolava de tanto rir a ponto de quase deixar cair a garrafa. Chegou à sala com um sorriso triunfal e perguntou-lhe, seguro de si, se queria mais um vodka antes de telefonar ao Patrick. Vá serve-me mais um copo – responde-lhe ela com um ar fatigado. Eu também quero um – disse-lhes o Anjo. Seja o que Deus quiser, pensou, encolhendo os ombros. Fez-se silêncio na sala. Então? a quem vais telefonar – perguntaram o Diabo e o Anjo em uníssono. A ninguém! Vou-me deitar, estou farta daqueles dois. E de vocês também. Levantou-se, caminhou decidida para o quarto e deitou-se, aninhando-se nos lençóis, abandonando-os na sala, que aos outros dois já tinha abandonado, só que o Diabo e o Anjo ainda não sabiam.

6.1.09

As mulheres, o Diabo e o Anjo. (I)

As mulheres são seres únicos na sua desmedida vontade de tudo querer, nunca se contentando com o que têm. Se há ombros onde o Diabo e o Anjo repousam constantemente são nos delas, segredando, à desgarrada, conselhos aos seus ouvidos. E elas, curiosas como são, ouvem-nos, umas vezes mordendo o lábio inferior, outras com um sorriso cândido e romântico. Mas ficam num tumulto ao cederem à sua curiosidade, ouvindo-os e falando com eles, mesmo se, aqui e ali, não evitem dar-lhes uns raspanetes de dedo em riste. Elas sentem-se seguras no abraço do Anjo, mas sonham com os braços do Diabo em volta do seu corpo. Decidem subir ao altar com o Anjo, mas sentem uma atracção incontrolável e não resistem entregar-se ao Diabo. Gostam de passeios românticos de mão dada com um, mas é com a mão quente do outro na pele sedosa da cintura que sentem as pernas trémulas. O Anjo é sério, racional e bem comportado. É nele que elas confiam e é com ele que se sentem protegidas e seguras. O Diabo, não. É misterioso, exacerba os sentidos, mas apenas os cinco que o sexto deixa-o a cargo do Anjo, para que dele elas se esqueçam e o ignorem. Com o Anjo caminham serenas para o lar e com o Diabo caminham num desassossego rumo a um paraíso infernal. As mulheres sofrem a bom sofrer e passam arrelias com um e com outro. Anseiam viver na virtude com o Anjo e desejam sucumbir à paixão e ao pecado com o Diabo. E às vezes perdem as estribeiras e dizem ao Anjo que vá para o Diabo que o carregue, coitado. Mas não deixam que o Diabo se ria durante muito tempo, mostrando-lhe o dedo anelar da mão esquerda, do qual ele foge mais depressa que da cruz. As mulheres sonham com brincadeiras carnais entre os lençóis com o Diabo, e adormecer com o Anjo. Sentem-se mulheres devassas com um e senhoras exemplares com o outro. As mulheres, o Diabo e o Anjo, um trio diabólico e angelical.