
Foto: Bimbe (Báia Azul, Benguela)
(Em especial para quem lá nasceu, mas não se lembra da Baía Azul.)
Há cerca de dezoito anos os afazeres profissionais empurraram-me amiúde para o Porto. Empurrado me senti nas primeiras idas, conquistado fiquei ao fim de umas quantas visitas. Não sei se acontece com todos os que não são tripeiros, mas comigo este namoro não nasceu de um amor à primeira vista, trata-se antes, posso dizê-lo hoje, de um enamoramento. A nossa relação é como aquelas que duram, entre namorados que vivem longe um do outro. Dir-me-ão porventura uns quantos portuenses que assim é exactamente porque a minha relação com a Invicta não é diária e por isso não esmorece num quotidiano que, provavelmente, acabaria por nos desgastar. É óbvio que aceito a explicação, por razões também óbvias. Então nada mais me resta senão considerar-me um privilegiado, um felizardo, que por força deste enamoramento, me continuarei a entregar à cidade que o Douro banha e que a Foz abraça. O Porto é uma senhora em toda e na verdadeira acepção da palavra. Uma senhora que não teve uma infância e juventude fáceis, e que tudo o que conseguiu na vida foi conquistado com sacrifício, devoção e crença. Mas nunca deixou de sorrir abertamente ou mesmo dar uma genuína gargalhada, mas só a dá com quem a ela se entrega. Uma senhora culta, excelente conversadora, e sedutora por natureza, que sabe viver a vida porque sabe o que quer dela. E aos meus olhos, e gostos não se discutem, uma mulher bela, muito bonita. Não direi que seja de uma beleza delicada e frágil, que o que é belo nessa mulher é o seu carácter firme mas de um eterno e desconcertante romantismo.
Ela era uma menina de educação esmerada, pertencendo a uma certa fidalguia, casada com um músico talentoso, regente de orquestra. Partiram para África, acompanhados do filho, um jovem adulto empertigado. Angola foi o destino escolhido, depois de terem decidido virar as costas à balbúrdia da primeira república. Monárquicos convictos, jamais se adaptaram ao novo regime. Viveram no interior de Angola, abandonando o conforto material, com a mesma dignidade, optimismo e atitude como tinham vivido, principescamente, em Alcobaça. Os princípios e valores, se dúvidas houvesse, revelaram-se quando a lavadeira, uma bonita jovem preta deu à luz uma menina mestiça, filha do jovem empertigado. Enfrentando o embaraço social (estamos a falar dos anos 20) e sem hesitarem, manifestaram abertamente a sua postura. Não interessa se é filha da lavadeira, o que interessa é que é nossa neta. E criaram-na. A lavadeira, iletrada e analfabeta, desejou para a filha mais do que a vida lhe tinha proporcionado e deixou que os avós cuidassem da menina. Quem viveu em África sabe que não foi uma decisão nada, mas mesmo nada, fácil. Lá, por mais paradoxal que pareça, as mulheres têm a primazia. A menina cresceu, fez-se mulher, casou-se com um jovem trasmontano que tinha decidido, também ele, fazer pela vida naquelas longínquas paragens. Tiveram dois filhos, que são a quarta geração de uma história que me é grata.
A semana passada habituei-me a vê-lo a atravessar o páteo da escola numa correria desenfreada de braços abertos e sorriso rasgado no rosto de menino, gritando até que o fôlego guardado no seu peito de criança esgotasse a palavra pai. Na sexta-feira, depois de uma semana atribulada em que a gestão do quotidiano roçou muitas vezes o insustentável, reservámo-nos ao direito de saborear um gelado e lá fomos, de mãos dadas, pela avenida acima, até ao café mais próximo, conversando sobre o dia de ambos. Interrompe-me, lambusado e ainda mais pegajoso.Esta senhora e este senhor marcaram irremediavelmente o meu gosto pela música. São, há muito tempo, meus companheiros inseparáveis. Num momento que creio ser raro, juntaram-se e cantaram ao vivo. Dois animais de palco, como já não há muitos. Dois músicos capazes de incendiar uma multidão enquanto o Diabo esfrega um olho. Tina Turner e David Bowie a cantarem o eterno Let’s Dance. Quem não sentir o pézinho a mexer acautele-se, porque não deve estar bem. Quem sentir uma súbita vontade de dançar, está bem de saúde e recomenda-se.