8.7.09

Meus companheiros inseparáveis (XXI)

Ray Charles

Preconceito é quase sempre prejuízo. Em África quase foi. Quase...






Quando atravessamos a savana, em plena região Masai, essa terra árida e intocada no interior do Quénia, não adivinhamos o que nos espera à chegada. Fiz a viagem contrariado, pensando que nada poderia compensar aquele abraço do ar quente e o afago do pó da estrada, ou o fascinante e arrebatador pôr do sol que pintava o céu de um vermelho que só África é capaz de pintar. A ideia do desvio, forçada pelo meu guia, o simpático Houstous, não me agradava, mesmo sabendo que iria pernoitar ao lado da segunda montanha mais alta de África, depois do Kilimanjaro. Tinha ido ao Quénia para ir a Mara, para viver África em todo o seu explendor e plenitude e não para me submeter às regras que me esperavam no Safari Club. Tentei demovê-lo, mas o seu poder de persuasão foi maior que o meu preconceito. Chegámos com o sol a despedir-se de nós sussurrando à lua que esperasse mais uns momentos antes de fazer a sua aparição, e que deixasse que aqueles tons vermelhos se perpetuassem. O Safari Club é um oásis naquela interminável e grandiosa savana. Um oásis requintado onde nada é deixado ao acaso e onde as regras, rígidas demais para meu gosto, me impediriam de jantar num dos salões em que a etiqueta obriga a fato escuro, imagine-se. Foi no outro salão, onde o traje casual é permitido, que jantei. Um casual restrito que fecha os olhos a umas jeans compostas, mas obriga os cavalheiros a usar um blazer. Jantei bem e não contive um acesso de rebeldia, acabando a garrafa de um bom vinho sul-africano na varanda, com uma vista magnífica para o Monte Kenya, enquanto saboreava, demoradamente, um Montecristo Churchill, tendo apenas como companhia a aragem que se ia suavemente levantando. A mesma varanda que me acolheu ao pequeno-almoço, com um cortejo de girafas elegantes a dar-me os bons dias lá ao longe, no sopé da montanha, num caminhar em que a fleuma britânica parecia notar-se. Partimos de seguida, tendo como destino a fronteira com a Tanzânia, onde o Homem, com um traço no mapa, separou as regiões de Mara e do Serengueti, para sempre unidas pela Natureza. Interrompendo o meu silêncio, o meu guia perguntou-me, olhando pelo espelho retrovisor, se tinha gostado. Respondi-lhe que tinha sido uma experiência curiosa e engraçada. "Ou seja, não gostou", respondeu-me ele de pronto. Retorqui, sorrindo e dizendo-lhe que estava grato pelo facto do seu poder de persuasão ter sido mais forte que o meu preconceito. Ele sorriu com os olhos postos na estrada poeirenta, conduzindo o jipe em mais uma jornada pela inóspita e inesquecível região Masai.

7.7.09

O que é nacional é bom. (VIII)

O rapaz nasceu na Madeira, veio para o continente, tornou-se um jogador promissor, foi para Manchester, aplicou-se, trabalhou incansavelmente e tornou-se uma estrela. Ganhou o título de melhor jogador do mundo, ganhou a Liga dos Campeões, foi o melhor marcador dessa Liga milionária, foi o melhor marcador do Campeonato Inglês, ganhou a Liga Inglesa e a Taça de Inglaterra, foi considerado o melhor jogador inglês, ganhou a Taça da Liga Inglesa, vestiu a camisola 7, outrora o jersey de jogadores históricos do Manchester United como Georges Best, Brian Robson, David Beckham e Eric Cantona, é a maior transferência do futebol de todos os tempos e foi aclamado por mais de oitenta mil pessoas no Santiago Barnabéu, em Madrid, qual César na Roma antiga. Palavras para quê? É um artista português. Cristiano Ronaldo é nacional e é bom.

6.7.09

Porque hoje (ainda) é segunda-feira.


As minhas actrizes favoritas:

Marion Cotillard

3.7.09

O que é nacional é bom. (VII)
















Nasceu em Lisboa e começou a pintar aos quatro anos. Mudou-se para Londres definitivamente, onde vive. É Doutora Honoris Causa pela Universidade de Oxford. O seu trabalho não é consensual, mas a sua reputação é inegável. Paula Rego é portuguesa e é boa.

2.7.09

Bom fim-de-semana.

Man at work.

Quando o pudor é inimigo do negócio.

A revista Playboy é uma marca com notoriedade a nível mundial, de reputação em determinados círculos e com leitores fiéis. Uma marca que lança 12 produtos por ano, com uma periodicidade mensal, e esses 12 produtos têm 12 packagings diferentes mensalmente. As capas, que mais não são que os packagings a que me refiro, são, neste tipo de negócio e para as marcas que se inserem neste sector, tão importantes como os conteúdos. Os sentimentos de embaraço, constrangimento, vergonha, recato ou mesmo castidade, que normalmente resumimos como pudor, não fazem parte do ADN de marcas como a Playboy. No Brasil, onde vivi, a relação com a sexualidade e com o corpo é diferente da que estabelecemos por cá. Lá pude constatar, desengane-se quem pensa o contrário ou veja levianamente pecado somente para um lado, o do lado de lá do Atlântico, dizia eu que pude constatar que essa relação apenas é diferente e, em meu entender, mais saudável e menos cínica. Há dias, quando comprava o jornal, a capa da mais recente edição da Playboy portuguesa chamou-me a atenção. Por estar envolta num plástico, obviando a degustação visual que é um acto natural praticado por quase todos nós quando se trata de uma revista, e pela semi-nudez envergonhada e pálida da mulher da capa. Uma capa repleta de pudor, que podia muito bem ser a capa de outra revista de carácter geral ou mesmo feminina, cujo título poderia ser “proteja a pele sensível dos seus seios no Verão”, já para não falar na inexistência de nudez explícita no interior, em edições anteriores. Na Playboy brasileira, ou há dinheiro para aliciar personalidades públicas e actrizes conhecidas, como por exemplo as fascinantes Luma de Oliveira, Flávia Alessandra, Babi, Deborah Secco, Mel Lisboa ou Juliana Paes, ou se contratam desconhecidas que geram, como reacção imediata dos consumidores, frases do tipo “quero ver essa cachorra”. Não critico nem julgo os bons costumes, só que há negócios que não se compadecem com pudor. A Playboy faz parte de um desses negócios, mas parece que em Portugal quem a dirige ainda não assumiu o ADN da revista. O consumidor é implacável e as marcas que não assumem a sua essência e a sua razão de existência arriscam-se a serem mal sucedidas porque, neste caso, o pudor é inimigo do negócio. *

* Fui alvo de censura, claro que fui. E intimado, ameaçado e julgado em praça pública. Ah pois fui. Só não me algemaram! A Justiça falhou, bolas!