O despertar adivinhava-se madrugador, mas a providência divina, que neste caso tem um nome, que é o do mais novo, foi benevolente. Acordar ao sábado às oito da manhã com ele cá em casa é uma dádiva que merece os meus agradecimentos. O mais velho tinha pedido, na véspera, e manifestando uma coragem que lhe desconhecia, que o acordássemos se a nossa decisão fosse rumar à praia. Pequeno-almoço de rapazes, com um deles resmungão – a coragem tem um preço, meu filho, preparativos de rapazes – onde o essencial jamais é esquecido, um café aqui ao lado, no restaurante do senhor João, e os rapazes fazem-se à estrada cedo, para ao mar se fazerem, também cedo. As meninas tinham ficado em casa, assim como muitas coisas de que demos pela falta, mal chegados ao destino. Mas para os rapazes o essencial estava lá. O mar, com ondas razoáveis, o sol, os ainda poucos veraneantes, a ausência de vento e o equipamento de bodyboard. Delicioso o programa matinal dos rapazes. Até as meninas telefonarem, perguntando quando estaríamos de volta para o almoço, que aquela não era a vida delas. Irra, que há coisas que não mudam nunca.
8.6.08
Na essência não reside mudança.
O despertar adivinhava-se madrugador, mas a providência divina, que neste caso tem um nome, que é o do mais novo, foi benevolente. Acordar ao sábado às oito da manhã com ele cá em casa é uma dádiva que merece os meus agradecimentos. O mais velho tinha pedido, na véspera, e manifestando uma coragem que lhe desconhecia, que o acordássemos se a nossa decisão fosse rumar à praia. Pequeno-almoço de rapazes, com um deles resmungão – a coragem tem um preço, meu filho, preparativos de rapazes – onde o essencial jamais é esquecido, um café aqui ao lado, no restaurante do senhor João, e os rapazes fazem-se à estrada cedo, para ao mar se fazerem, também cedo. As meninas tinham ficado em casa, assim como muitas coisas de que demos pela falta, mal chegados ao destino. Mas para os rapazes o essencial estava lá. O mar, com ondas razoáveis, o sol, os ainda poucos veraneantes, a ausência de vento e o equipamento de bodyboard. Delicioso o programa matinal dos rapazes. Até as meninas telefonarem, perguntando quando estaríamos de volta para o almoço, que aquela não era a vida delas. Irra, que há coisas que não mudam nunca.
6.6.08
Essa é a palavra.
Encaminhei-me para a sala de reuniões, cumprindo com pontualidade o horário previamente estabelecido. Esperava-me uma senhora de que um amigo, também publicitário, me tinha falado e que tinha despertado a minha curiosidade. Uma pessoa com uma vasta experiência na área da comunicação e cuja vocação estava orientada para a vertente estratégica, uma disciplina onde a pouca quantidade de profissionais é directamente proporcional à qualidade. Há poucos e nem sempre bons. Esperava-me uma senhora por quem o meio século de vida já tinha passado há uns anos. Agradou-me ver os muitos cabelos brancos que a dona não se preocupava em escondê-los. A intenção daquele encontro, assim lhe chamámos os dois pelo telefone, recusando-nos a apelidá-lo de reunião, era dar-me a conhecer a sua experiência e competências que tanta curiosidade me tinham causado. Ouvi mais do que falei e era esse o propósito. E ouvi, deliciado, histórias do seu início profissional na área da comunicação nos tempos do PREC, seguindo com atenção o impressionante currículo na vertente estratégica, onde colaborou com muita proximidade, na criação de marcas e produtos que todos conhecemos e com que nos relacionamos diariamente. Acho que quando a conversa, mesmo no âmbito profissional, se proporciona, os pais têm uma natural tendência em falar das suas experiências como progenitores, até porque os jovens são um grupo fulcral na nossa profissão. Esta conversa, porque a minha interlocutora era uma pessoa encantadora, extraordinariamente simples, de uma imensa riqueza humana e rara honestidade moral, não fugiu à regra, desviando-se do seu rumo e enveredando por um caminho gratificante. Quando nos referimos aos nossos filhos, habitualmente usamos palavras como o orgulho, respeito, amizade, amor, carinho, responsabilidade, paixão, alegria ou felicidade. Ao falar-me dos seus, dois rapazes já homens, ouvi-a dizer com simplicidade, ostentando um sorriso radioso e num tom de voz seguro e melodioso, que tinha tido e tem muito prazer com os seus filhos. Prazer com os filhos. Prazer, uma palavra que raramente oiço e digo quando me refiro aos meus, mas quando a escutei houve tantas, mas tantas coisas boas de que me lembrei, que por breves momentos me dei conta a divagar no prazer que tenho com eles. Sim, é essa a palavra.
4.6.08
Beleza interior.
A maior parte das mulheres que conheço revelam uma auto-estima invulgar. Só elas afirmam, ou pelo menos em maior número que eles, que se arranjam e põem-se bonitas para elas próprias, para se sentirem bem na sua pele, por se sentirem bem nela, não para outras pessoas, independentemente do grau de intimidade em causa. E asseguram que desvalorizam olhares de aprovação e comentários apropriados e oportunos, não forçosamente e apenas do sexo oposto. Levam-me a crer que, para além de uma auto-estima inquestionável, valorizam a beleza interior, quando afirmam convictamente, que é ela, a beleza interior que conta e mais contribui para fortificar a auto-estima. Então não me engano quando olho para a Scarlett Johansson e vejo uma beleza interior sublime. Não fora isso e concerteza não veria uma mulher tão bela. Ou estou a ver mal?
No fio da navalha.
Ela está lá quase sempre, sem que os mais incautos ou até mesmo os mais avisados, dêem pelo fio da lâmina que se cruza no caminho da vida. Uma ceifa prestes a desferir o golpe misericordioso a espíritos que a paz abandonou e onde a solidez interior se liquefez nas agruras da vida, fazendo-nos adivinhar os tormentos e as adversidades alheias, de quem escolhe a ela pôr termo. Vicissitudes que associamos normalmente a vidas difíceis, ambientes violentos, precaridade familiar, à ausência de afecto e amizade, ou à inexistência de exemplos de força, de união e integridade. Pensamos em idades que a vida já marcou, implacável como só ela sabe ser quando deixamos que seja. Mas não a jovens, com ela pela frente, para ser vivida na plenitude, e a quem, aparentemente, faltou nada do que foi referido. A navalha estava lá, mas desta vez o fio, talvez numa distracção momentânea que poderá não repetir-se, estava do lado contrário. A minha mais velha sofreu com a desventura da amiga, como nunca a vira sofrer. Um sofrimento incapaz de ser apaziguado por se confessar desorientada, sem saber o que fazer ou como fazer, numa impotência que a amizade não deveria permitir. “Olha, obrigada, pai, por me ajudares a ser uma mulher equilibrada, ou que pelo menos se sente amada e que ama todos e a vida”. Termina assim uma das mensagens via telemóvel que me enviou, quando já junto da amiga, se acalmara por vê-la com vida. Alívio de pai, a quem uma simples mensagem relembrou que nada é permanente nesta vida e gostando de ver a sua menina, que se diz mulher, longe de navalhas, onde a fronteira entre a vida e morte é apenas isso. Um fio.
2.6.08
O comando é de quem, afinal?
Quando chegou, recentemente, uma nova experiência de televisão, num serviço integrado com internet e voz, já a promessa tão propagandeada era praticada cá em casa. Com o tempo fui-me afastando da televisão que a gestão de afectos, acreditem ou não, também passa pela gestão da caixa ex-mágica. Cá em casa só há dois comandos, um para cada uma dessas caixas, e o único que tem uma no quarto é o mais velho. E sabem que mais? Se há dias em que creio serem poucos, mas isso não me faz sequer ponderar em aumentar o parque televisivo do lar, há outros em que paira a sensação de serem demais. Não é de agora, já há muito tempo que oiço “o comando é meo”. E já perdi a conta às vezes que disse, é teo? então fica lá com ele. É que tenho a sensação que ele, cá em casa, não é de ninguém.
Um pensamento triste que se pode dançar.
Lembro-me bem dessa tarde quente de domingo, em Buenos Aires, em que o céu se mantinha teimosamente encoberto. E jamais me conseguirei esquecer do que dizia Discépolo, poeta, compositor e autor de inúmeras letras de tangos. A pequena praça não estava deserta mas as pessoas estavam dispersas, também na sua preguiça e indolência. Foram chegando, parecendo vir do nada, vestidos de negro e, em silêncio e com movimentos resolutos mas harmoniosos, começaram a retirar os intrumentos das caixas. Gente que se cala, cabeças que se viram, olhares intrigados nas caras de uns, sorrisos esboçados nas faces de outros. Os tímidos acordes do violencelo e os gemidos sussurados dos violinos, amparados pelo som vibrante dos acordeões, rapidamente encheram a praceta, parecendo reclamá-la para si num acto de posse absoluto e irresistível. Como o dele, quando a segurou nos braços. Ele impenetrável, sem que um único músculo do rosto desse sinais de vida. Ela tomada em seus braços, olhando-o, sem submissão, com o vestido de alças esvoaçando na tímida aragem que soprou naquele instante em que o tempo parou. Carlos Gardel e Ignacio Corsini sorrindo no firmamento, enquanto os passos ritmados se iniciaram com um vistuosismo que só a paixão daquele tango conseguia ocultar, num bailado nada sereno e envolto numa cumplicidade e intimidade a que os corpos se entregavam com uma energia que só a alma lhes podia dar. Ele e ela parecendo caminhar, pairando, e possuídos pela música que naquele momento só a eles lhes pertencia, numa sintonia sonhada e irreal. O tango é um pensamento triste que se pode dançar, dizia sentidamente Discépolo. Quem serei eu para te contrariar Discépolo? Mas a dança que eu vi não me deixou ver um pensamento triste. O tango que eu senti essa tarde numa pequena praça anónima de Buenos Aires não é romântico, é carnal.Naquela tarde vi dançar o tango, mais ou menos assim.
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