Saudades do Rio de Janeiro... Do Leme ao Leblon, passando por Copacabana, prancha na água que as ondas se fizeram para serem enfrentadas, e de Ipanema ao entardecer, no bar eternizado pela “garota” de Vinícius. Da Barra da Tijuca, da Lagoa Rodrigo de Freitas, do Domingo em Botafogo antes do passeio no bondinho às vezes mal frequentado, outras bem. Do ar irrespirável do Canecão e do morro da Rocinha, onde o Rio despe a sua farpela glamorosa e ganha a sua dimensão de favela. A culpa é do Snoop Dogg.
Voltei às lides depois de quase um ano sabático. Estas lides nada têm a ver com corridas tauromáticas, eu que nem sou apreciador de tão popular e tradicional evento. Pelo caminho deixei uns quantos amigos invejosos, redescobri alguns prazeres da vida outrora esquecidos, descansei (sem ter deixado de fumar), pratiquei desporto, as águas do mar receberam-me, a mim e à minha prancha de bodyboard com alguma assiduidade, rejuvenesci, fui pai a tempo inteiro e dediquei o meu tempo a quem precisava dele e o apreciou e, acima de tudo, fiz as pazes com alguns fantasmas que ultimamente me andavam a rondar a porta. Chegámos até a beber uns copos juntos e a dar umas gargalhadas. Às vezes penso que os fantasmas também estavam a precisar que eu parasse para se descontrairem um pouco, pobres coitados... Nos últimos meses foram amigos, um deles, já com o lençol branco manchado de vinho tinto mas ainda sóbrio, chegou até a segredar-me “Mike, tu já estás com o bichinho a roer-te a alma, meu rapaz... acho que está na hora de voltares às lides”. E tinha razão. Voltei ao trabalho com vontade e paixão redobrada por esta profissão a que me dedico já lá vão vinte anos. Mãos à obra que se faz tarde, mas desta vez farei questão de olhar para trás e não apenas em frente, que há conquistas de que não abdicarei, seja por que razão for. E não vislumbro que razões possam vir a haver. Donos, só de empresas.
A mãe é baptizada, fez as comunhões todas que há para fazer e creio que o crisma é algo que consta do seu currículo religioso. O pai é apenas baptizado, e aqui “apenas” tem o significado que cada um lhe queira dar, tendo-se ficado por aí por opção pessoal apesar da decisão ter sido tomada em tenra idade. Aquilo na catequese não correu bem, e tivera a sorte de ter uma mãe que respeitou a sua vontade. Adiante... Os percursos religiosos dos pais, apesar de diferentes, não consistiram entrave para uma decisão consensual relativamente à educação religiosa da menina, por se tratarem apenas de percursos diferentes e não de diferentes convicções. E foram ambos criteriosos no que diz respeito à decisão tomada, com manifesto desgosto dos avós: a menina nem baptizada é, e a sua educação religiosa poderá ser, no mínimo, considerada deficiente, para não dizer inexistente, aos olhos de algumas pessoas. Hoje, e a caminho dos dez anos de idade, decidiu, como os pais desejavam que o assunto fosse tratado, que queria ir para a catequese e preparar-se para o baptismo. E está convicta da sua vontade. Tenho dúvidas sobre as reais motivações que a levaram a tomar tal decisão, mas quaisquer que sejam as razões, neste caso considero-as válidas e só me resta respeitá-las (às razões e à decisão). Acredito, sem ter certezas, que a Igreja poderá estar em vias de ganhar uma crente tardia, apesar do seu percurso e educação religiosa adivinharem o contrário. Curiosa esta ironia da vida... eu a dar conta que, sem saber e fazendo tudo aparentemente ao contrário, poderei ter prestado um bom serviço à Igreja Católica.
Consta que existem duas lendas. A mais romântica é a versão popular que mete um cristão novo ao barulho, um tal Simão Pires... ao barulho não, em silêncio que se encontrava todos os dias às escondidas com uma dita Violante, uma jovem que tinha sido feita noviça à força e por vontade de seu pai, um fidalgo que não estava pelos ajustes com a escolha do amor da filha. A história acaba como tantas outras que metem amores e desamores à mistura, ou seja, acaba mal. Os jovens prepararam-se para fugir, a fuga não se concretiza e ele é acusado do roubo de umas relíquias da igreja de Santa Engrácia, que ficava perto do convento. Mas se dúvidas houvera que o Simão amava mesmo a sua Violante, elas dissiparam-se no momento em que ele, para não prejudicar a sua amada, jamais revelou o motivo que o levara às redondezas. Invocou a sua inocência mas não lhe serviu de nada e acabou na fogueira, o desgraçado. Fogueira que foi ateada junto à nova igreja de Santa Engrácia, mandada construir pela infanta D. Maria, filha de D. Manuel I, e que mais tarde daria lugar ao Panteão Nacional (esta parte não é lenda) e cujas as obras já tinham começado. Anos mais tarde Violante foi chamada ao leito de um vilão agonizante que lhe confessou ter sido ele o ladrão das relíquias. Se o seu pecado foi expiado, nunca se saberá, que dei voltas e voltas e não encontrei nenhuma santa com o nome de Engrácia, mas apenas uma freguesia em Lisboa, ai isso dei, e nas voltas que dei fiquei a saber que foi o pobre do Simão, quando as labaredas lhe envolviam o corpo, que deu início aos dizeres que a voz do povo imortalizou. “Era tão certo morrer inocente como as obras nunca mais acabarem!”, gritou ele, calculo eu, já chamuscado. Praga ou não, a verdade é que as obras da igreja pareciam nunca mais ter fim. Pareciam mas tiveram. Acredito que o mesmo venha a suceder com as obras do Desconversa que agoram dão início.
Parte do dia de Sábado estava já destinada. Iríamos fazer a Árvore de Natal, logo eu que nem sou fã, por razões que a razão conhece... iríamos, eu e os mais novos, que os mais velhos não estavam, nem estiveram, para aí virados. Era a terceira Árvore da Natal que contava com a colaboração dos mais novos, depois da dos avós e da de casa da mãe. Só conheço esta última e asseguro que está um primor. Branca, bonita, chic, a condizer com o resto da sala, enfim, de um bom gosto irrepreensível. Lá metemos mãos à obra... num montar a Árvore (que é artificial), separar as luzes, que estavam num emaranhado medonho, escolher os efeitos e pendurá-los (todos os anos se partem alguns e este Sábado a regra manteve-se... ai caçula, caçula)... Por fim, Árvore de Natal pronta, arrisco-me a dizer, sala pronta. A alegria nas caras dos petizes contrastava com o nariz franzido do irmão mais velho e o sobrolho arqueado da irmã mais velha... como os percebo, mas engoliram e sorriram, sem contudo pedirem por mais, que estas coisas do Natal já não são para eles. Está bonito o nosso Natal, não está mano? atira o caçula muito feliz e em tom cúmplice, ao irmão, que lhe responde que sim que está lindíssimo, enquanto se encaminha ensonado para a casa de banho, rangendo entre dentes (sim, que eu ouvi)... Natal, humprf, mais parece o Carnaval... A resposta do mais velho deixou o caçula ainda mais animado e confiante e vai daí arremessa inocentemente, eu achei sem piedade, pai, a nossa Árvore está muito bonita, está igual à dos avós. Pimba, conhecendo eu a Árvore da outra casa deles, fiquei sem saber o que pensar... para além de ir a correr para o espelho e ver se naquela manhã estava com ar de avô... Depois, bem... depois pensei, que raio, o objectivo não era fazer uma Árvore de Natal que eles, os mais novos, achassem bonita? e decorarem a sala com o mesmo propósito? Então pronto! Eu acho tudo um bocado piroso, mas o que é que isso interessa comparado com a alegria dos petizes? Que a sala ficou mais... como dizer?... alegre... ai isso ficou.