Já aqui escrevi sobre os balanços que faço em dois momentos do ano. Depois de um desses balanços, normalmente eu e os meus mais velhos, uma menina feita mulher de vinte e três anos e um menino ainda rapaz de dezanove, vamos jantar juntos, não com o intuito de fazer com eles mais um dever e haver na vida, que isso deixo que o façam sobre e para eles próprios. Digamos que nesse jantar a conversa aborda assuntos mais sérios que, invariavelmente, nos leva a percorrer um ano acabado de passar. Mas tendo o cuidado de evitar constrangimentos que esses são tratados no momento em que as situações mais delicadas têm lugar, e, a bem dizer, são tão poucos que nem guardo memória de nenhum deles. Alguém com legitimidade para mo dizer, costumava afirmar que eu era demasiado tolerante. Com o tempo, e com a legitimidade que também me assistia, habituei-me a encolher os ombros à observação, prosseguindo no rumo e no compromisso que assumi como educador e pai. Talvez sim, talvez não, pensava por vezes e não dando como gratuita essa crítica. No último desses jantares brincámos a um faz de conta sério, abordando e enfrentando um hipotético cenário de contrariedade e dificuldade na minha vida, nas nossas vidas, que eles vivendo comigo também teriam que o enfrentar. De que teríamos que abdicar, para onde forçosamente iríamos viver, que sacrifícios haveria que fazer, que soluções, mesmo drásticas, teríamos que encontrar para fazer face a essa enorme e séria contrariedade, continuando a viver as nossas vidas com dignidade? Que a atitude perante a vida deveria imperar? Com que espírito nos entregaríamos a essa empreitada? Eu preferindo ouvi-los atentamente e eles dois partilhando comigo as suas visões e soluções, convictamente. Fiquei a saber que estariam prontos a abdicar da maior parte do conforto que os rodeia, que dos transportes públicos não diríamos mal, que o mais velho interromperia os estudos universitários para a um qualquer emprego deitar as mãos e que a mais velha se oporia a isso, abdicando ela da dança oriental, do ballet e da capoeira para comparticipar as propinas do irmão, já que injusto seria ele não poder usufruir duma preparação que a ela tinha sido proporcionada. E fiquei a saber muitas mais coisas. Fiquei a saber, por exemplo, que se essa hipotética e séria contrariedade acontecesse nas nossas vidas, muitos dos verbos deste texto não seriam escritos no Condicional e sim no Futuro do Indicativo, indicador de um futuro menos sombrio mesmo que nuvens muito escuras pairassem sobre os nossos espíritos, ou grandes rochas e denso nevoeiro nos dificultassem a orientação e o caminho. Demasiado tolerante? Talvez sim, talvez não. A vida pratica-se mais do que se diz, mas o que ouvi dos dois confortou-me, não para meu bem, mas para bem deles.
1.5.08
Talvez sim, talvez não (ainda a propósito de balanços).
Já aqui escrevi sobre os balanços que faço em dois momentos do ano. Depois de um desses balanços, normalmente eu e os meus mais velhos, uma menina feita mulher de vinte e três anos e um menino ainda rapaz de dezanove, vamos jantar juntos, não com o intuito de fazer com eles mais um dever e haver na vida, que isso deixo que o façam sobre e para eles próprios. Digamos que nesse jantar a conversa aborda assuntos mais sérios que, invariavelmente, nos leva a percorrer um ano acabado de passar. Mas tendo o cuidado de evitar constrangimentos que esses são tratados no momento em que as situações mais delicadas têm lugar, e, a bem dizer, são tão poucos que nem guardo memória de nenhum deles. Alguém com legitimidade para mo dizer, costumava afirmar que eu era demasiado tolerante. Com o tempo, e com a legitimidade que também me assistia, habituei-me a encolher os ombros à observação, prosseguindo no rumo e no compromisso que assumi como educador e pai. Talvez sim, talvez não, pensava por vezes e não dando como gratuita essa crítica. No último desses jantares brincámos a um faz de conta sério, abordando e enfrentando um hipotético cenário de contrariedade e dificuldade na minha vida, nas nossas vidas, que eles vivendo comigo também teriam que o enfrentar. De que teríamos que abdicar, para onde forçosamente iríamos viver, que sacrifícios haveria que fazer, que soluções, mesmo drásticas, teríamos que encontrar para fazer face a essa enorme e séria contrariedade, continuando a viver as nossas vidas com dignidade? Que a atitude perante a vida deveria imperar? Com que espírito nos entregaríamos a essa empreitada? Eu preferindo ouvi-los atentamente e eles dois partilhando comigo as suas visões e soluções, convictamente. Fiquei a saber que estariam prontos a abdicar da maior parte do conforto que os rodeia, que dos transportes públicos não diríamos mal, que o mais velho interromperia os estudos universitários para a um qualquer emprego deitar as mãos e que a mais velha se oporia a isso, abdicando ela da dança oriental, do ballet e da capoeira para comparticipar as propinas do irmão, já que injusto seria ele não poder usufruir duma preparação que a ela tinha sido proporcionada. E fiquei a saber muitas mais coisas. Fiquei a saber, por exemplo, que se essa hipotética e séria contrariedade acontecesse nas nossas vidas, muitos dos verbos deste texto não seriam escritos no Condicional e sim no Futuro do Indicativo, indicador de um futuro menos sombrio mesmo que nuvens muito escuras pairassem sobre os nossos espíritos, ou grandes rochas e denso nevoeiro nos dificultassem a orientação e o caminho. Demasiado tolerante? Talvez sim, talvez não. A vida pratica-se mais do que se diz, mas o que ouvi dos dois confortou-me, não para meu bem, mas para bem deles.
Place Mohammed V, Paris.
Lá no alto, com Paris aos nossos pés, numa sublime imagem que os olhos não cansam de olhar, e sobre uma biblioteca repleta de livros onde se escreveram páginas da História Oriental e Magrebina, o Ziryab é como uma coroa sobre a cabeça do Instituto do Mundo Árabe, com Paris reflectida na fachada do edifício que recria elementos da arquitectura árabe na óptica do arquitecto Jean Nouvel. Uma coroa feita de folhas de chá, verde, aromático e doce. A vista excepcional domina a cidade que mesmo de dia faz jus ao seu nome de Cidade Luz, onde a bela Notre-Dame e o seu parque florido na margem do Sena nos envolvem num abraço romântico, fazendo-nos acreditar que existem poucos locais tão sedutores. Diria que se trata de uma vertigem de qualidade quando nos sentamos à mesa para saborearmos o almoço. Nas pausas entre uma garfada de especialidades do Magrebe e um trago no delicioso Château Bouchoc da região de Bordéus, a vista transporta-nos de novo, e em silêncio, para Paris, serena e momentaneamente imperturbável, embalando-nos com cuidado e instinto maternal.
30.4.08
As empresas precisam de blogs?
Este é o título de um artigo interessante na Marketing&Publicidade, assinado por Rui Oliveira Marques, e que nos dá a conhecer o que se passou nas Conversas Unicer, um encontro organizado por esta empresa e que contou com a presença de Bruno Guissani, um dos gurus da blogosfera. “ É importante conhecer a blogosfera, o que se pode ou não fazer. É o mesmo que entrar na casa de uma pessoa e ir logo ver os quartos. Há regras não escritas que variam de blog para blog. Não se deve entrar a matar. A atitude errada, no sítio errado, pode deitar tudo a perder. Deve-se ter um posicionamento humilde e pedir desculpa se for caso disso”. Ou seja, Bruno, devem aplicar-se as mais elementares regras de educação, bom senso e respeito. Como devem ser as nossas atitudes e comportamentos em sociedade. Em resumo, como em tudo na vida. Do ponto de vista empresarial, é curioso ter ouvido um colega meu, que não é um guru da blogosfera, apenas um profissional de comunicação, afirmar com uma simplicidade atroz que a blogosfera mais não é que o “verdadeiro poder do consumidor”. Que o diga a Dell, monstro multinacional do sector informático, quando um “mero” cliente, insatisfeito com a compra e o serviço, transformou os dias da multinacional em inferno, num episódio cujo nome é ilucidativo. Dell Hell (retratado na BusinessWeek).
Crónicas de uma viagem (III).

O Lago Nakuro está situado no imponente Rift Valley, um complexo que diz-se existir há 35 milhões de anos e que se estende desde o Líbano até ao norte de Moçambique. Esse imenso lago com cerca de 60 km2 e onde as margens se escondem uma da outra, é o habitat de flamigos-rosa, aves que as pessoas acham bonitas e por quem eu, verdade seja dita, não nutro grande simpatia. Mas o que os nossos vêem à chegada é admirável. Temos a sensação, ao longe, que as águas tranquilas do lago mudaram de cor tal é o tom aroseado que o inunda, de tantos, aos milhares, serem os flamingos que o habitam. O Lago Nakuro é dos locais mais tranquilos onde pernoitei. A tenda era magnífica, de uma simplicidade e preciosidade inimagináveis, em tons brancos, repousantes e aconchegantes. E dormi tão bem... na companhia dessas aves pernaltas de bico curvado. Dormi bem e acordei sereno, quase à mesma hora do sol, num dia que amanheceu sorridente e colorido pela plumagem em tons de rosa vivo dos guardiões desse magnífico Lago.29.4.08
Sim, é essa a palavra.
Há palavras que cada vez usamos menos, ou pelo menos eu, para não generalizar, cada vez uso menos. Ou uso, mesmo que de uma forma sentida, sem lhe atribuir o verdadeiro significado, o que as remete para um contexto algo superficial. Não vou ao ponto de dizer leviano, mas superficial. Palavras que parecem esquecidas em caixas, onde o coração se esquece de entrar, caixas que se abrem quando menos esperamos. O mais novo cá de casa, possuidor de uma energia inesgotável, sem que eu saiba onde poderá ele armazená-la em tão pequeno corpinho de três anos, muitas vezes ao final do dia sucumbe irremediavelmente ao cansaço. É bom de ver que, por si só, este pequeno aspecto exige uma gestão apurada e meticulosa do meu quotidiano, com banhos e jantares antecipados, não vá ele ser descoberto de olhos fechados no sofá da sala, ainda o telejornal não começou. Este fim-de-semana não foi, com muita pena minha, uma excepção que confirmasse a regra que descrevi. Já podem imaginar as manhãs... E lá estávamos os dois, pouco depois das sete da manhã, a tomar o pequeno almoço antes de nos entregarmos a tarefas madrugadoras. Vemos os DVDs (dele), vemos os bonecos animados (para ele), jogamos Playstation com os jogos (dele e da irmã), fazemos construções com o Lego (dele), jogamos umas partidas de matraquilhos (dele), às vezes brigamos por causa do feitio (dele), conto-lhe histórias (para ele) e desenhamos. No Domingo pegou em duas folhas de papel A3, foi buscar as canetas de feltro e, numa sala que já estava um pandemónio, pediu-me que desenhasse com ele, dando-me um briefing concreto. Pelo menos, e ao contrário de muitos que me habituei a receber, o dele era objectivo. Eu devia desenhar um barco à vela no mar e umas montanhas. Ele encarregar-se-ia de desenhar um fantasma. O caldo quase se entornou de tanta foice em seara alheia o rapaz ter metido. Por fim contente, admirando as obras primas. Entretanto acorda a mais nova, que os mais velhos, esses, há que esperar sentado, e a rotina muda de azimute.(Horas, muitas horas depois).
No fim do dia, já com os mais novos deitados, arrasto-me, cansado, mas decido que o tempo e a energia que me restam são dedicadas a mim e a uma terapia que não me renova o corpo, mas dá saúde ao espírito e à mente. Escrevo e desconverso, mantendo-me atento ao relógio do computador, com os minutos a passarem numa correria implacável. Chega a hora de me deitar. Desligo o pc, arrumo a mesa de trabalho, dobro os óculos, guardo-os e preparo-me para uma rápida verificação na pasta que uso no dia-a-dia. Eis senão quando sou surpreendido ao ver uns papéis dobrados, dentro da minha pasta. Eram os desenhos, que ele tinha finalizado, dando um derradeiro toque pessoal e escrevendo o que julgo ser a sua assinatura. Pelo menos duas letras do nome dele são claramente perceptíveis. Assim, sem me dizer nada, e desejando surpreender o pai, numa dádiva tão simples e tão sentida. Senti uma imensa, infinita e indescritível ternura. Ternura.
28.4.08
Li, vi, ouvi e gostei.
Chama-se Nocturno mas privilegia-se a luz. Gostei muito do que li, do que vi e do que ouvi. Nos tempos que correm, em que a Natureza e o campo são valorizados e se sobrepõem à cidade, o Nocturno, traz-nos uma Lisboa do dia-a-dia reflectida em fachadas com vida. E histórias do quotidiano contadas numa prosa poética, embalada por muito boa música.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Acerca de mim
À conversa com
- A Curva da Estrada
- Acto Falhado
- Adeus, até ao meu regresso
- Ares da minha graça
- Coisas da Vida
- Corta-fitas
- Crónicas do Rochedo
- Delito de Opinião
- Designorado
- Esconderijo
- Estado Sentido
- Grande Jóia
- Miss Pearls
- O privilégio dos caminhos
- Pátio das Conversas
- Saber viver numa multidão
- Sonhos nas Pontas dos Dedos
